Galáxia do Escultor (NGC 253)
A galáxia da Moeda de Prata, uma fábrica de estrelas vista de lado
Outros nomes e designações: NGC 253, Caldwell 65, Galáxia da Moeda de Prata, Silver Coin Galaxy, Sculptor Galaxy, ESO 474-29, PGC 2789, UGCA 13
Melhor época no Brasil: Setembro a janeiro, no início da noite; passa pelo zênite na latitude de São Paulo
Visão geral
A Galáxia do Escultor, NGC 253, é uma das galáxias mais brilhantes do céu fora do Grupo Local e uma das mais fáceis de observar do Brasil. Ela aparece em telescópios pequenos como um fuso alongado e manchado, parecido com uma moeda vista de lado, e daí vem o apelido de Moeda de Prata. Fica na constelação do Escultor, uma região pobre em estrelas brilhantes, mas bem alta no céu do Brasil nas noites de primavera.
O que a torna especial para os astrônomos é a atividade: NGC 253 é uma das galáxias de surto de formação estelar mais próximas da Terra. Em seu centro, estrelas nascem em ritmo muito acelerado, e a poeira que aparece como manchas escuras no disco é a matéria-prima dessa fábrica. Observações do Hubble mostraram que praticamente toda a poeira da galáxia está acompanhada de formação intensa de estrelas.
Características
O SIMBAD classifica NGC 253 como SAB(s)c, uma espiral com barra fraca e braços abertos, vista com forte inclinação. No céu ela mede cerca de 29′ por 6′, quase o diâmetro da Lua cheia no sentido maior, mas muito estreita, por causa da inclinação. Essa visão quase de perfil faz a poeira do disco se sobrepor às estrelas e dá à galáxia o aspecto manchado que se vê em telescópios.
A NASA a descreve como galáxia starburst, de surto de formação estelar. No núcleo e no disco interno, o gás está sendo convertido em estrelas em taxa muito maior do que na Via Láctea. Imagens do Hubble, feitas com a câmera ACS dentro do programa ANGST, resolveram milhares de estrelas jovens e azuis e filamentos escuros de gás e poeira, com detalhe suficiente para estudar a história de formação estelar da galáxia estrela por estrela.
NGC 253 é a galáxia dominante do Grupo do Escultor, um dos grupos de galáxias mais próximos do nosso Grupo Local. A distância é um exemplo de como medidas extragalácticas variam: a NASA cita cerca de 10 milhões de anos-luz em sua página do catálogo Caldwell, enquanto o ESA/Hubble usa 13 milhões. Estimativas recentes ficam entre esses dois valores. Em qualquer caso, é uma das grandes espirais mais próximas da Terra.
Toda essa atividade tem consequências visíveis em outras faixas do espectro. Galáxias de surto de formação estelar brilham em infravermelho, por causa da poeira aquecida pelas estrelas jovens, e em rádio e raios X, por causa das supernovas frequentes e do gás quente que elas sopram para fora do disco. Isso faz de NGC 253 um laboratório para entender como a formação de estrelas regula o crescimento de uma galáxia.
Onde fica no céu
O Escultor fica logo ao sul de Baleia e de Aquário, numa área sem estrelas brilhantes. A referência mais fácil é Fomalhaut, a estrela brilhante e solitária do Peixe Austral: NGC 253 está a cerca de 15° a leste dela, um pouco ao norte da linha que liga Fomalhaut a Diphda (Beta Ceti), a estrela mais brilhante da Baleia. A galáxia fica a cerca de 7° ao sul de Diphda, perto do polo sul galáctico, a região do céu mais distante do plano da Via Láctea.
Com declinação de −25°, a galáxia passa pelo zênite na latitude de São Paulo e muito alto em todo o Brasil.
Como observar
Com magnitude próxima de 7,6, NGC 253 é visível em binóculos sob céu escuro como uma mancha alongada e tênue, uma das poucas galáxias fora do Grupo Local que se mostram assim. A forma de fuso já é perceptível com binóculos de 10x50 em noites sem Lua, longe das cidades.
Em um telescópio pequeno, de 80 mm a 100 mm, a galáxia é um dos objetos mais bonitos do céu de primavera: um fuso brilhante e grande, com o centro um pouco mais claro e uma textura granulada. Telescópios médios, de 150 mm a 250 mm, revelam o aspecto manchado do disco, com nós mais brilhantes e áreas escuras de poeira espalhadas, que lembram uma superfície marmorizada. Use baixo aumento para enquadrar a galáxia inteira.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Em Belém e Fortaleza a galáxia culmina a cerca de 66° a 68° de altura, e em Salvador a cerca de 78°, sempre bem acima da bruma. Outubro e novembro, por volta das 21h, são os melhores meses, e no Nordeste coincidem com o fim da estação seca, com muitas noites limpas. O interior, longe da iluminação do litoral, oferece o céu escuro que a galáxia exige.
Centro-Oeste e Sudeste
É a região em que NGC 253 passa mais alto: cerca de 80° em Brasília e Goiânia e praticamente no zênite em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a 88°. As noites de outubro e novembro são as melhores, embora o início das chuvas de primavera exija aproveitar as brechas de céu limpo. Em céu rural, a galáxia é um alvo gratificante até para telescópios de iniciante.
Sul
Em Porto Alegre a galáxia atinge cerca de 85° de altura e, em Curitiba e Florianópolis, fica ainda mais perto do zênite. A primavera no Sul alterna frentes frias e noites secas de grande transparência, ideais para galáxias de baixo contraste. De setembro a dezembro ela está bem posicionada no início da noite.
Limitações e cuidados
- O luar apaga a galáxia com facilidade: mesmo uma Lua em quarto crescente reduz muito o contraste. Observe na semana da Lua nova.
- Poluição luminosa é a principal barreira: da cidade, NGC 253 vira um traço pálido ou simplesmente desaparece, mesmo em telescópios médios.
- Entre abril e julho ela está no céu diurno ou baixa de madrugada; o período útil vai de agosto a fevereiro.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
NGC 253 foi descoberta em 1783 por Caroline Herschel, irmã de William Herschel, enquanto varria o céu em busca de cometas. Ela foi uma das primeiras mulheres a ganhar reconhecimento como astrônoma e descobriu vários objetos de céu profundo e cometas por conta própria, além de catalogar as observações do irmão.
A galáxia fica perto do polo sul galáctico, a direção do céu perpendicular ao disco da Via Láctea. Por isso há tão poucas estrelas de primeiro plano na região do Escultor: estamos olhando para fora do disco da nossa galáxia, através da menor quantidade possível de poeira, o que torna a área ideal para observar galáxias distantes.
Caroline Herschel descobriu NGC 253 da Inglaterra, onde a galáxia nunca sobe mais que uns 13° acima do horizonte sul. Do Brasil, ela passa pelo zênite: um caso em que o céu austral oferece uma vista muito melhor de um objeto descoberto no norte.
Termos de apoio
Galáxia starburst
Galáxia que passa por um surto de formação estelar, produzindo estrelas em ritmo muito maior que o normal. O surto costuma ser alimentado por grande quantidade de gás no centro e dura algumas dezenas de milhões de anos. Saiba mais →
Magnitude aparente
Escala de brilho em que números menores indicam objetos mais brilhantes. Com magnitude perto de 7,6, NGC 253 está logo abaixo do limite do olho nu e ao alcance de binóculos em céu escuro. Saiba mais →
Zênite
Ponto do céu diretamente acima da cabeça do observador. Um objeto que passa pelo zênite é visto através da menor camada possível de atmosfera, com mais brilho e contraste. Saiba mais →
Poluição luminosa
Clarão artificial do céu produzido pela iluminação urbana. Ele reduz o contraste de objetos difusos, como galáxias, muito antes de esconder as estrelas. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — NGC 253 — coordenadas, tipo morfológico, magnitude B, tamanho aparente e designações
- NASA Science — Caldwell 65 (NGC 253) — descoberta por Caroline Herschel em 1783, magnitude 7,6, distância de cerca de 10 milhões de anos-luz, galáxia starburst e programa ANGST
- ESA/Hubble — NGC 253 (heic0819b) — imagem do Hubble (ACS), crédito, distância de cerca de 13 milhões de anos-luz, Grupo do Escultor e formação estelar intensa
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