Galáxia do Cata-Vento do Sul (M83)
Uma espiral barrada vista de frente, berço de centenas de supernovas
Outros nomes e designações: M83, Messier 83, NGC 5236, Southern Pinwheel, Cata-Vento Austral, PGC 48082
Melhor época no Brasil: Março a agosto, no início da noite; passa pelo zênite na latitude de Porto Alegre
Visão geral
A Galáxia do Cata-Vento do Sul, M83, é a resposta austral à famosa galáxia do Cata-Vento do hemisfério norte: uma espiral vista de frente, com braços bem desenhados que saem de uma barra central, como as pás de um moinho de papel. Ela fica na constelação da Hidra, a cerca de 15 milhões de anos-luz, e é uma das espirais mais brilhantes e mais próximas do céu.
Para quem observa do Brasil, M83 é um presente: com declinação de −30°, passa exatamente pelo zênite no Rio Grande do Sul e muito alto em todo o país, nas noites de outono e inverno. É um alvo acessível a binóculos em céu escuro e um dos melhores exemplos de galáxia espiral que um telescópio amador pode mostrar.
Características
O SIMBAD classifica M83 como SAB(s)c, uma espiral com barra intermediária e braços abertos e bem definidos. Como a vemos quase de frente, a estrutura espiral aparece inteira: dois braços principais ricos em nós brilhantes de formação estelar e faixas escuras de poeira que os acompanham. O ESA/Hubble a descreve como uma das maiores e mais próximas espirais barradas conhecidas, e o disco mede cerca de 14′ no céu, metade do diâmetro da Lua cheia.
A galáxia forma estrelas em ritmo intenso. Imagens do Hubble feitas com a câmera WFC3 entre 2009 e 2012 mostram milhares de aglomerados de estrelas jovens e azuis nos braços, nuvens rosadas de hidrogênio ionizado e bolhas sopradas por explosões estelares. A NASA contabiliza nessas imagens bolhas interestelares produzidas por quase 300 supernovas de estrelas massivas, um registro de mortes estelares recentes raro em uma galáxia tão próxima.
O núcleo de M83 é peculiar. Segundo o ESA/Hubble, a galáxia parece ter um núcleo duplo, uma segunda concentração de massa deslocada em relação ao centro óptico, possivelmente resultado da captura de uma galáxia menor no passado. Isso ajudaria a explicar a atividade de formação estelar concentrada na região central.
A distância de cerca de 15 milhões de anos-luz, citada tanto pela NASA quanto pelo ESA/Hubble, é aproximada, como todas as distâncias extragalácticas, e coloca M83 um pouco mais longe que Centaurus A, que fica na mesma região do céu, a cerca de 20° dela. As duas são as galáxias mais brilhantes dessa parte do céu austral.
Onde fica no céu
M83 fica no extremo sul da Hidra, a constelação mais longa do céu, perto da fronteira com o Centauro. A referência mais útil é Gamma Hydrae, uma estrela de brilho médio a sudeste de Spica, na Virgem: a galáxia está a cerca de 6,5° ao sul dela, pouco a leste. Outra opção é partir de Menkent (Theta Centauri), a estrela brilhante no alto do Centauro: M83 está a uns 10° ao norte dela.
Uma linha reta de Spica a Menkent passa perto da galáxia, um pouco mais da metade do caminho a partir de Spica. Em binóculos, procure uma mancha redonda, pequena e difusa, com um centro um pouco mais brilhante. Com declinação de −30°, M83 cruza o meridiano no zênite para Porto Alegre e quase no zênite para todo o Sul e o Sudeste.
Como observar
Com magnitude perto de 7,5, M83 é um alvo acessível a binóculos em céu rural: aparece como uma bolinha difusa e redonda, mais brilhante no centro, que não se resolve em estrelas. A NASA a aponta como uma das galáxias mais fáceis de encontrar com binóculos no céu austral de outono.
Em um telescópio pequeno, de 80 mm a 100 mm, ela mostra um núcleo brilhante dentro de um halo redondo, com a barra sugerida como um alongamento central em noites boas. Para ver os braços espirais é preciso telescópio médio, de 150 mm a 250 mm, céu escuro e olhos adaptados: eles aparecem como um leve padrão em S em torno da barra, mais evidente com visão lateral e aumentos moderados. É uma das poucas galáxias em que um instrumento amador revela a estrutura espiral.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Em Belém e Fortaleza, M83 culmina a cerca de 62° a 64° de altura, e em Salvador a cerca de 73°, bem alta no céu de maio e junho por volta das 21h. No litoral norte isso coincide com o fim da estação chuvosa, mas o interior do Nordeste, mais seco, oferece muitas noites limpas. Como sempre com galáxias, o céu escuro vale mais que o instrumento.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília a galáxia atinge cerca de 76° de altura, e em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte cerca de 84°, quase sobre a cabeça. Abril a junho, com o início da estação seca no Centro-Oeste e o outono estável no Sudeste, oferecem as melhores noites. Para distinguir os braços espirais é preciso sair das áreas urbanas: o contraste dos braços é o primeiro detalhe a desaparecer sob poluição luminosa.
Sul
Em Porto Alegre, M83 passa exatamente pelo zênite, e em Curitiba e Florianópolis fica a poucos graus dele. É a posição ideal, com a menor espessura de atmosfera no caminho da luz. As noites secas de abril a junho, depois das frentes frias, são as mais transparentes. Do fim do verão até agosto ela está bem posicionada no início da noite.
Limitações e cuidados
- O luar apaga os braços espirais antes de qualquer outra coisa; perto da Lua cheia, mesmo o núcleo fica difícil em binóculos. Observe na semana da Lua nova.
- Poluição luminosa transforma M83 em uma mancha sem estrutura; a visão dos braços exige céu rural de verdade.
- Entre outubro e janeiro ela está no céu diurno ou baixa de madrugada; o período útil vai de fevereiro a setembro.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
M83 foi descoberta em 1752 pelo abade francês Nicolas-Louis de Lacaille, durante sua estada no Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, onde catalogou o céu austral e criou 14 constelações que usamos até hoje, entre elas Escultor, Telescópio e Microscópio. Na época, ninguém imaginava que a pequena mancha que ele anotou era uma galáxia inteira a milhões de anos-luz.
Charles Messier a incluiu em seu catálogo em 1781 e observou que, de Paris, ela ficava tão baixa no horizonte que mal podia ser vista. É um dos objetos mais austrais da lista de Messier, e por isso muito mais fácil de observar do Brasil do que da Europa.
O Hubble usou as imagens de M83 em um projeto de ciência cidadã chamado STAR DATE: M83, em que voluntários estimaram as idades de milhares de aglomerados de estrelas da galáxia a partir de suas cores, ajudando a reconstruir a história de formação estelar dos braços.
Termos de apoio
Galáxia espiral barrada
Espiral cujo núcleo é atravessado por uma barra reta de estrelas, da qual partem os braços. A Via Láctea e M83 são desse tipo; a barra ajuda a canalizar gás para o centro e alimenta a formação de estrelas. Saiba mais →
Supernova
Explosão que marca a morte de uma estrela massiva ou de uma anã branca que acumulou massa demais. Ela espalha elementos pesados no espaço e deixa bolhas de gás quente, os restos de supernova, visíveis por milhares de anos. Saiba mais →
Magnitude aparente
Escala de brilho em que números menores indicam objetos mais brilhantes. Com magnitude perto de 7,5, M83 está um pouco abaixo do limite do olho nu, mas ao alcance de binóculos em céu escuro. Saiba mais →
Visão lateral
Técnica de olhar um pouco ao lado do objeto em vez de fixá-lo. A periferia da retina é mais sensível à luz fraca e revela detalhes de baixo contraste, como os braços espirais de M83. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — M 83 — coordenadas, tipo morfológico, magnitude, tamanho aparente e designações
- NASA Science — Messier 83 (The Southern Pinwheel) — distância de cerca de 15 milhões de anos-luz, magnitude 7,5, descoberta por Lacaille em 1752, visibilidade em binóculos e quase 300 supernovas
- ESA/Hubble — Hubble view of barred spiral galaxy Messier 83 (heic1403a) — imagem WFC3, crédito, grande número de supernovas e núcleo duplo
- NASA Science — Spiral Galaxy M83 (Hubble, 2014) — mosaico WFC3 de 2009 a 2012 e projeto de ciência cidadã STAR DATE: M83
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Centaurus A (NGC 5128)
Uma galáxia elíptica que engoliu uma espiral e ficou com uma cicatriz de poeira no meio. É uma das fontes de rádio mais intensas do céu e um alvo fácil para telescópios pequenos de março a agosto.

Ômega Centauri (NGC 5139)
Uma bola de cerca de 10 milhões de estrelas velhas, visível a olho nu como uma estrela difusa no Centauro. Em telescópio pequeno se desfaz em um enxame de pontos, um dos espetáculos do céu austral.

Centauro (Centaurus)
Nona maior constelação do céu, o Centauro cerca o Cruzeiro do Sul e guarda Alfa Centauri, o sistema estelar mais próximo do Sol, Ômega Centauri, o maior aglomerado globular da Via Láctea, e a galáxia Centaurus A.

Virgem
Enorme e discreta, Virgem tem uma única estrela muito brilhante, Spica, mas esconde o aglomerado de galáxias mais próximo da Via Láctea. É o céu de outono por excelência para quem tem um telescópio.

Galáxia do Escultor (NGC 253)
Uma espiral quase de perfil, salpicada de poeira, que forma estrelas em ritmo acelerado. Brilhante o bastante para binóculos, passa sobre a cabeça do Sudeste nas noites de primavera.

Via Láctea
A faixa esbranquiçada que cruza o céu em noites escuras é o disco da nossa própria galáxia, visto de dentro. O Brasil tem o centro dela quase sobre a cabeça nas noites de inverno.