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Centaurus A (NGC 5128)

A galáxia ativa mais próxima, cortada por uma faixa de poeira

Outros nomes e designações: NGC 5128, Cen A, Caldwell 77, PKS 1322-427, Arp 153, ESO 270-9

Melhor época no Brasil: Março a agosto, no início da noite; passa alta em todo o Brasil, quase no zênite no Sul

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Galáxia com brilho dourado difuso cortada por uma faixa escura e irregular de poeira, salpicada de aglomerados azuis e manchas rosadas de gás.
A faixa de poeira de Centaurus A vista pelo Hubble, com aglomerados de estrelas jovens azuis e nuvens avermelhadas de hidrogênio em meio ao brilho dourado das estrelas velhas. Crédito: NASA, ESA e Hubble Heritage (STScI/AURA)-ESA/Hubble Collaboration. Agradecimento: R. O'Connell (University of Virginia) e WFC3 Scientific Oversight Committee (CC BY 4.0 (ESA/Hubble)). Fonte: esahubble.org/images/heic1110a.

Visão geral

Centaurus A é uma das galáxias mais estranhas e mais estudadas do céu. À primeira vista parece uma bola de luz lisa, uma galáxia elíptica comum, mas uma faixa larga e escura de poeira a corta ao meio, como se alguém tivesse amarrado uma fita em volta dela. Essa faixa é a marca de uma colisão: astrônomos acreditam que a elíptica engoliu uma galáxia espiral menor há dezenas ou centenas de milhões de anos, e a poeira que vemos é o que sobrou desse encontro.

A cerca de 11 a 12 milhões de anos-luz, ela é a galáxia ativa mais próxima da Terra. No centro há um buraco negro supermassivo que lança jatos de partículas a uma fração considerável da velocidade da luz, produzindo rádio, raios X e raios gama. O nome Centaurus A vem exatamente disso: é a fonte de rádio mais brilhante da constelação do Centauro. Para o observador brasileiro é um alvo privilegiado, porque passa muito alto no céu de outono e inverno.

Características

O SIMBAD classifica NGC 5128 como S0 pec, uma galáxia lenticular peculiar. Na prática, ela tem o corpo arredondado e a população de estrelas velhas de uma elíptica gigante, com cerca de 60 mil anos-luz de diâmetro segundo a NASA, mas com uma faixa de poeira, gás e estrelas jovens que não pertence a esse tipo de galáxia. A explicação aceita é a de uma fusão: uma espiral rica em gás foi capturada pela elíptica e seu material se espalhou em um disco deformado que hoje vemos quase de perfil.

Imagens do Hubble, feitas com a câmera WFC3 em 2010, mostram em detalhe essa faixa: nuvens escuras de poeira com aglomerados de estrelas azuis recém-formadas e regiões avermelhadas de hidrogênio brilhante, sinais de que a colisão desencadeou uma onda de formação estelar. O Hubble também encontrou um disco inclinado de gás quente, com cerca de 130 anos-luz de diâmetro, girando em torno do buraco negro central.

A atividade do núcleo é o que torna Centaurus A famosa entre os astrônomos. O observatório de raios X Chandra, da NASA, registrou um jato gigantesco saindo do centro, alimentado pelo buraco negro supermassivo que engole o gás trazido pela fusão. Em ondas de rádio, a galáxia aparece com dois enormes lóbulos que se estendem muito além do disco visível, resultado de material ejetado pelos jatos ao longo de milhões de anos.

A galáxia também produziu supernovas observadas da Terra. Em 1986, o astrônomo amador australiano Robert Evans descobriu nela uma supernova do tipo Ia, e outra foi registrada em 2016, segundo a NASA.

Onde fica no céu

Centaurus A fica na parte norte da constelação do Centauro, bem longe de Alfa e Beta Centauri. A referência mais prática é Omega Centauri, o maior aglomerado globular do céu, visível a olho nu como uma estrela embaçada: a galáxia está a cerca de 4,5° ao norte dele, menos que a largura de três dedos com o braço esticado. Os dois cabem no mesmo campo de muitos binóculos.

Outra forma é partir do Cruzeiro do Sul. Siga a linha que vai de Gacrux (o topo da cruz) a Acrux (a base), mas no sentido contrário, para o norte, e você passa por Omega Centauri e chega a Centaurus A, numa região do céu com poucas estrelas brilhantes. Com declinação de −43°, a galáxia cruza o meridiano no sul do céu em todo o Brasil.

Como observar

Orientação geral, não previsão. As indicações de época e altura valem para o Brasil em geral e para o início da noite. Para a posição exata na sua cidade, data e horário, consulte um planisfério ou aplicativo de planetário, como explicamos em Como ler um mapa celeste.

Com magnitude próxima de 6,8, Centaurus A está no limite do que se vê a olho nu em céu excepcional, mas na prática exige instrumento. Em binóculos, sob céu escuro, ela aparece como uma mancha redonda e difusa, um pouco mais brilhante no centro, parecida com um aglomerado globular fora de foco.

Em um telescópio pequeno, de 80 mm a 100 mm, a galáxia se mostra como um disco luminoso cortado por uma faixa escura, visível em noites sem Lua com algum esforço. Telescópios médios, de 150 mm a 250 mm, mostram a faixa de poeira com clareza, inclusive sua forma irregular e as duas metades brilhantes de tamanhos diferentes. É um dos objetos de céu profundo mais gratificantes do céu austral para instrumentos modestos.

A partir do Brasil

Norte e Nordeste

Em Belém e Fortaleza, Centaurus A culmina a cerca de 50° de altura no sul, bem acima da bruma do horizonte. Em Salvador chega a cerca de 60°. As noites de maio e junho, por volta das 21h, são as melhores, mas no litoral norte isso coincide com o fim da estação chuvosa; o interior do Nordeste, mais seco, tem condições melhores. Procure um horizonte sul sem iluminação urbana.

Centro-Oeste e Sudeste

Em Brasília a galáxia atinge cerca de 63° de altura e, em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, cerca de 70°. Maio e junho trazem o início da estação seca do Centro-Oeste e as noites estáveis do inverno do Sudeste, uma combinação boa para galáxias. Como a faixa de poeira depende de contraste, procure céu rural: a diferença entre uma mancha informe e uma galáxia com a faixa visível é a poluição luminosa.

Sul

No Sul, Centaurus A passa quase no zênite: cerca de 77° de altura em Porto Alegre e perto de 80° em Florianópolis e Curitiba. É a melhor posição possível, com a luz atravessando o mínimo de atmosfera. As noites secas de maio e junho, depois das frentes frias, oferecem a transparência que a faixa de poeira exige. A galáxia fica bem posicionada do fim do verão até agosto.

Limitações e cuidados

  • O luar apaga a galáxia com facilidade: a faixa de poeira some mesmo com Lua crescente. Observe na semana da Lua nova.
  • Poluição luminosa reduz o contraste da faixa escura antes de qualquer outra coisa; da cidade, a galáxia vira uma bolinha difusa sem estrutura.
  • Entre outubro e janeiro ela está no céu diurno ou baixa de madrugada; o período útil vai de fevereiro a setembro.

Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.

Curiosidades

A galáxia foi descoberta em 1826 por James Dunlop, um astrônomo escocês que trabalhava em Parramatta, na Austrália, durante um levantamento do céu austral.

O nome Centaurus A segue a convenção dos primeiros catálogos de rádio, dos anos 1940 e 1950: a fonte mais intensa de cada constelação recebia a letra A. Da mesma forma existem Cygnus A, Virgo A e Sagittarius A, a fonte no centro da nossa galáxia.

A supernova de 1986 em Centaurus A foi encontrada visualmente pelo reverendo Robert Evans, um pastor australiano que se tornou um dos maiores descobridores amadores de supernovas da história, comparando de memória o aspecto de centenas de galáxias.

Termos de apoio

Galáxia ativa

Galáxia cujo núcleo emite muito mais energia do que a soma de suas estrelas, por causa de um buraco negro supermassivo que engole gás e lança jatos de partículas. Centaurus A é a mais próxima da Terra. Saiba mais →

Magnitude aparente

Escala de brilho em que números menores indicam objetos mais brilhantes. Para galáxias, a magnitude total se espalha por uma área, por isso um objeto de magnitude 6,8 como Centaurus A parece bem mais fraco que uma estrela de mesmo valor. Saiba mais →

Zênite

Ponto do céu diretamente acima da cabeça do observador. Objetos perto do zênite são vistos através da menor camada possível de atmosfera, com mais brilho e nitidez. Saiba mais →

Abertura do telescópio

Diâmetro da lente ou do espelho principal. Quanto maior a abertura, mais luz o telescópio coleta e mais detalhes fracos, como a faixa de poeira de Centaurus A, se tornam visíveis. Saiba mais →

Fontes consultadas

  1. SIMBAD Astronomical Database (CDS) — NGC 5128 — coordenadas, tipo morfológico, magnitude V, tamanho aparente e designações
  2. ESA/Hubble — Spectacular Hubble view of Centaurus A (heic1110a) — distância de 11 milhões de anos-luz, imagem WFC3 e crédito
  3. NASA Science — Caldwell 77 (Centaurus A) — descoberta por Dunlop em 1826, magnitude, diâmetro, colisão entre galáxias, disco de gás de 130 anos-luz, supernovas de 1986 e 2016
  4. NASA — A New Look at an Old Friend (Chandra, 2014) — distância de cerca de 12 milhões de anos-luz, jato em raios X e origem da faixa de poeira

Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.

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