Galáxia do Sombrero (M104)
Um disco de poeira em volta de um bojo brilhante, visto quase de perfil
Outros nomes e designações: M104, Messier 104, NGC 4594, Sombrero Galaxy, PGC 42407
Melhor época no Brasil: Março a julho, no início da noite; passa perto do zênite em quase todo o Brasil
Visão geral
A Galáxia do Sombrero é uma das galáxias mais fotogênicas do céu. Vista quase de perfil, ela mostra um bojo central enorme e brilhante, de luz branca e lisa, cercado por um anel escuro e fino de poeira. O conjunto lembra a aba e a copa de um chapéu mexicano, e daí vem o apelido. É um dos objetos que mais impressionam quem olha por um telescópio pela primeira vez, justamente porque tem uma forma reconhecível.
Ela fica a cerca de 28 a 30 milhões de anos-luz, na direção da constelação de Virgem, e não é um alvo para olho nu nem para binóculos comuns. Mas em um telescópio pequeno, sob céu escuro, o Sombrero é fácil de achar e mostra sua forma de disco com um pouco de paciência. Para o Brasil, ele tem a vantagem de passar quase sobre a cabeça nas noites de outono.
Características
O Sombrero é classificado como galáxia espiral vista quase de lado, inclinada apenas alguns graus em relação à nossa linha de visada, segundo a NASA. O que o diferencia de outras espirais é o bojo, desproporcionalmente grande e luminoso, cheio de estrelas velhas e amareladas. Observações do telescópio Webb mostraram que o disco interno é liso e sem a estrutura esperada em uma espiral típica.
O anel externo de poeira é onde se concentram o gás frio e a formação de estrelas, mas em ritmo lento: segundo o ESA/Webb, a galáxia forma menos de uma massa solar de estrelas por ano, contra cerca de duas na Via Láctea. O Webb, com sua câmera de infravermelho médio, revelou pela primeira vez aglomerados de poeira nesse anel e uma distribuição irregular que pode indicar berçários de estrelas jovens.
A galáxia é maciça. A NASA estima sua massa em cerca de 800 bilhões de vezes a do Sol e a descreve como um dos objetos mais pesados da região do aglomerado de galáxias de Virgem. Ela tem também um sistema enorme de aglomerados globulares: cerca de 2.000, dez vezes mais que a Via Láctea, com idades entre 10 e 13 bilhões de anos, parecidas com as dos nossos.
No centro há um buraco negro supermassivo com cerca de 9 bilhões de massas solares, segundo o ESA/Webb, mais de dois mil vezes a massa do buraco negro da Via Láctea. Apesar do tamanho, ele é relativamente calmo: classificado como núcleo ativo de baixa luminosidade, consome gás devagar e emite um jato pequeno, detectado em raios X e rádio.
Onde fica no céu
O Sombrero fica na fronteira entre Virgem e Corvo, e as estrelas do Corvo são a melhor referência. O Corvo é um pequeno quadrilátero torto de estrelas de brilho médio, fácil de reconhecer a sudoeste de Spica, a estrela mais brilhante de Virgem. A partir de Gienah, a estrela do canto noroeste do Corvo, siga cerca de 11° para o nordeste, na direção de Spica; o Sombrero está pouco antes da metade do caminho entre as duas estrelas, um pouco ao norte da linha.
Uma linha reta de Spica até Gienah passa a menos de 1° da galáxia, o que a torna um alvo bom para quem está aprendendo a usar mapas celestes. Com declinação de −11,6°, ela cruza o meridiano quase no zênite para boa parte do Brasil, o que facilita a observação e dá a melhor transparência possível.
Como observar
Com magnitude 8,0, o Sombrero está além do alcance do olho nu, e em binóculos comuns aparece, com dificuldade, como uma estrelinha difusa em céu muito escuro. O instrumento mínimo recomendado é um telescópio pequeno, de 80 mm a 100 mm, que mostra um núcleo brilhante e condensado dentro de uma elipse alongada de luz, com a forma de um fuso.
A faixa de poeira, que dá ao Sombrero sua identidade, exige mais: em telescópios médios, de 150 mm a 250 mm, sob céu rural e sem Lua, ela aparece como uma linha escura cortando o fuso um pouco abaixo do centro, mais evidente com aumentos moderados e visão lateral.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Em Belém e Fortaleza o Sombrero culmina a cerca de 80° de altura, e em Salvador passa praticamente pelo zênite, a cerca de 89°. A posição não poderia ser melhor. O desafio é o clima: abril e maio são chuvosos em boa parte do litoral e da Amazônia, então vale aproveitar as noites limpas de junho e julho, quando a galáxia ainda está alta no início da noite, e fugir das luzes das capitais.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília a galáxia atinge cerca de 86° de altura, quase no zênite, e em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte cerca de 78°. De abril a junho, por volta das 21h, ela está no alto, no início da estação seca do Centro-Oeste e nas noites estáveis do outono do Sudeste. Para ver a faixa de poeira, saia das áreas urbanas: o contraste da linha escura é a primeira coisa que a poluição luminosa destrói.
Sul
Em Porto Alegre o Sombrero culmina a cerca de 72° de altura, e em Curitiba e Florianópolis um pouco mais, altura ótima para observação. As noites de abril a junho, quando frentes frias deixam o ar seco e transparente, são as melhores.
Limitações e cuidados
- O luar apaga a faixa de poeira antes de apagar o bojo; observe na semana da Lua nova.
- Poluição luminosa reduz a galáxia a um borrão sem estrutura mesmo em telescópios médios; a diferença entre cidade e campo é enorme para galáxias.
- Entre setembro e dezembro ela está no céu diurno ou muito baixa ao amanhecer; o período útil vai de janeiro a agosto.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
O Sombrero foi descoberto em 1781 por Pierre Méchain, caçador de cometas e colega de Charles Messier, mas não entrou na lista original de Messier. Ele só foi acrescentado ao catálogo no século XX, com base em anotações manuscritas de Messier, e por isso os números de 104 a 110 são conhecidos como objetos adicionais de Messier.
O Sombrero se afasta de nós a cerca de 1.100 quilômetros por segundo, segundo a velocidade radial registrada no SIMBAD. Medições desse tipo, feitas em espirais brilhantes no início do século XX, foram as primeiras pistas de que essas "nebulosas" eram galáxias distantes e de que o universo está em expansão.
Em novembro de 2024, o telescópio espacial Webb divulgou uma imagem do Sombrero em infravermelho médio que mudou sua aparência: o bojo brilhante quase desaparece e o que domina é o anel de poeira, agora cheio de grumos. A mesma galáxia, vista em outra luz, parece um objeto diferente.
Termos de apoio
Magnitude aparente
Escala de brilho em que números menores indicam objetos mais brilhantes; a olho nu, em céu escuro, o limite fica em torno de 6. Com magnitude 8, o Sombrero exige telescópio. Saiba mais →
Aglomerado globular
Grupo compacto e esférico de centenas de milhares de estrelas velhas que orbita o halo de uma galáxia. A Via Láctea tem cerca de 150; o Sombrero, cerca de 2.000. Saiba mais →
Buraco negro supermassivo
Buraco negro com milhões ou bilhões de vezes a massa do Sol, encontrado no centro das grandes galáxias. O do Sombrero, com cerca de 9 bilhões de massas solares, é um dos mais pesados da vizinhança. Saiba mais →
Abertura do telescópio
Diâmetro da lente ou do espelho principal. Quanto maior a abertura, mais luz o instrumento capta e mais detalhes fracos, como a faixa de poeira do Sombrero, se tornam visíveis. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — M 104 — coordenadas, magnitude V, velocidade radial, tamanho aparente e designações
- NASA Science — Messier 104 (The Sombrero Galaxy) — distância de 28 milhões de anos-luz, magnitude, descoberta por Méchain em 1781, massa, aglomerados globulares e buraco negro
- ESA/Hubble — Hubble mosaic of the majestic Sombrero Galaxy (opo0328a) — imagem, crédito, distância de cerca de 30 milhões de anos-luz e diâmetro de cerca de 50.000 anos-luz
- ESA/Webb — Sombrero Galaxy dazzles in new Webb image (weic2427) — massa do buraco negro, taxa de formação estelar, cerca de 2.000 aglomerados globulares e anel de poeira em infravermelho
Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.
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