Fomalhaut
A estrela solitária da primavera, cercada por anéis de poeira
Outros nomes e designações: Alfa Piscis Austrini, α PsA, HD 216956, HIP 113368, 24 Piscis Austrini, 79 Aquarii, Boca do Peixe
Melhor época no Brasil: Agosto a dezembro, no início da noite; culmina em outubro, passando pelo zênite de Porto Alegre
Visão geral
Fomalhaut é a estrela brilhante solitária das noites de primavera. Entre setembro e novembro, quando o céu do início da noite tem poucas estrelas de destaque, ela aparece alta, branca e isolada, numa região pobre em astros brilhantes. Por isso é fácil de identificar: não há com o que confundi-la. Para quem observa do Sul do Brasil, ela passa praticamente sobre a cabeça.
Mas Fomalhaut é famosa sobretudo pelo que a cerca. A 25 anos-luz, ela é uma das estrelas mais próximas rodeadas por um disco de poeira, um sistema planetário em formação ou em fase de "limpeza". O Hubble fotografou seu anel em 2008 e anunciou ali o primeiro planeta visto diretamente em luz visível; o Webb, em 2023, revelou três anéis encaixados. E o suposto planeta se revelou algo diferente e igualmente fascinante.
Características
Fomalhaut é uma estrela branca de tipo espectral A, da sequência principal, com cerca de 1,9 massa solar, 1,8 raio solar e temperatura superficial de cerca de 8.590 K. Ela emite cerca de 17 vezes mais luz que o Sol. É uma estrela jovem: um estudo de 2012 combinou vários indicadores e estimou a idade em cerca de 440 milhões de anos, menos de um décimo da idade do Sol.
A estrela tem uma companheira distante, TW Piscis Austrini, uma anã alaranjada de tipo K4 V que fica a quase 2° de Fomalhaut no céu, uma separação real de cerca de 0,28 parsec, ou 57 mil unidades astronômicas. As duas se movem juntas pelo espaço e têm a mesma idade, formando um par ligado gravitacionalmente, embora muito largo.
O que torna Fomalhaut especial é o disco de detritos. Em 2008, a equipe de Paul Kalas publicou imagens do Hubble mostrando um grande anel de poeira ao redor da estrela e, perto da borda interna do anel, um ponto de luz que se movia: Fomalhaut b, apresentado como o primeiro planeta extrassolar fotografado em luz visível. Observações posteriores, porém, mostraram que o objeto se expandia e desaparecia, e a interpretação atual é que se tratava de uma nuvem de poeira produzida pela colisão de dois corpos gelados, e não de um planeta.
Em 2023, o Telescópio Espacial James Webb observou Fomalhaut no infravermelho médio e encontrou uma estrutura muito mais rica: três anéis encaixados, o mais externo chegando a cerca de 23 bilhões de quilômetros da estrela, cerca de 150 vezes a distância da Terra ao Sol. Os dois anéis internos nunca tinham sido vistos. Segundo os autores, as lacunas entre os anéis são provavelmente abertas pela gravidade de planetas ainda não detectados, numa versão ampliada do que o cinturão de asteroides e o Cinturão de Kuiper fazem no Sistema Solar.
Onde fica no céu
Fomalhaut está na pequena constelação do Peixe Austral, logo ao sul de Aquário e a leste de Capricórnio. Nas noites de outubro, por volta das 21h, procure a estrela branca brilhante mais ou menos isolada no alto do céu, na direção sul para quem está no Norte do Brasil e quase no zênite para quem está no Sul. Nenhuma outra estrela de primeira grandeza está por perto no início da noite.
Com declinação de cerca de −30°, Fomalhaut passa pelo zênite de Porto Alegre e fica muito alta em todo o Centro-Sul. No Norte e no Nordeste ela ainda alcança mais de 60° de altura, voltada para o sul.
Como observar
Fomalhaut é um alvo de olho nu, fácil mesmo em cidades iluminadas, embora seu isolamento às vezes a faça ser confundida com um planeta por quem não conhece o céu. Em binóculos, é um ponto branco límpido, sem detalhe adicional. O disco de poeira só é visível para telescópios espaciais e grandes interferômetros; nenhum instrumento amador o mostra.
O interesse prático para o observador está em usar Fomalhaut como referência para localizar a região de Aquário e Capricórnio, pobre em estrelas brilhantes, e para encontrar a Nebulosa Helix, uma nebulosa planetária em Aquário a cerca de 11° a noroeste da estrela, alvo para telescópios médios sob céu escuro.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Em Belém e Fortaleza, Fomalhaut sobe a cerca de 62° a 64° de altura, na direção sul; em Salvador, a cerca de 73°. De setembro a novembro ela está alta no início da noite, e esses meses, no fim da estação seca de grande parte da região, costumam oferecer céus limpos. É uma boa estrela para o Norte e o Nordeste.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia, Fomalhaut alcança cerca de 76° de altura; em São Paulo e no Rio de Janeiro, cerca de 84°, quase no zênite. Ela culmina por volta das 21h em meados de outubro e fica bem posicionada de agosto a dezembro. A primavera no Centro-Oeste e no Sudeste alterna noites secas e o início das chuvas; aproveite setembro e outubro.
Sul
Em Porto Alegre, Fomalhaut passa exatamente pelo zênite, a cerca de 90° de altura; em Florianópolis e Curitiba, a cerca de 87°. É a posição ideal, com mínimo de turbulência e de poluição luminosa. De setembro a novembro, no início da noite, basta olhar diretamente para cima.
Limitações e cuidados
- Entre março e maio, Fomalhaut está perto do Sol e não pode ser observada no início da noite; ela reaparece de madrugada em junho.
- O disco de detritos e os anéis fotografados pelo Hubble e pelo Webb não são observáveis com equipamento amador.
- A região ao redor é pobre em estrelas brilhantes, o que facilita achar Fomalhaut, mas dificulta reconhecer a figura do Peixe Austral sob poluição luminosa.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
O nome Fomalhaut vem do árabe e significa "boca do peixe": na figura tradicional, o Peixe Austral bebe a água que Aquário derrama de seu jarro.
Fomalhaut b entrou para a história como o primeiro planeta extrassolar anunciado a partir de imagens em luz visível, em 2008, e saiu dela como uma provável nuvem de detritos de uma colisão. O episódio ilustra como a ciência corrige a si mesma: as mesmas imagens do Hubble que sugeriram o planeta, reanalisadas anos depois, mostraram seu desaparecimento gradual.
O anel externo de Fomalhaut é frequentemente comparado ao Cinturão de Kuiper do Sistema Solar, mas em escala ampliada: ele fica cerca de três vezes mais longe da estrela do que o Cinturão de Kuiper fica do Sol, e a própria estrela é quase 17 vezes mais luminosa.
Fomalhaut é um dos sistemas estelares favoritos dos astrônomos para estudar como os planetas se formam, porque é próximo, jovem e brilhante. A equipe do Webb a chamou de "arquétipo dos discos de detritos" encontrados em outros lugares da Galáxia.
Termos de apoio
Disco de detritos
Anel de poeira e fragmentos rochosos e gelados em torno de uma estrela, mantido por colisões contínuas entre asteroides e cometas. Brilha no infravermelho pela poeira aquecida e revela, pelas lacunas, a presença de planetas invisíveis. Saiba mais →
Sequência principal
Fase longa e estável da vida de uma estrela, em que ela funde hidrogênio no núcleo. Fomalhaut está nessa fase, mas como tem quase duas massas solares viverá bem menos que o Sol, cerca de um bilhão de anos no total. Saiba mais →
Zênite
Ponto do céu diretamente acima do observador. Uma estrela passa pelo zênite quando sua declinação é igual à latitude do lugar; Fomalhaut, com cerca de −30°, passa pelo zênite de Porto Alegre. Saiba mais →
Infravermelho
Luz de comprimento de onda maior que o vermelho visível, invisível aos olhos. Poeira morna, como a dos anéis de Fomalhaut, brilha intensamente no infravermelho, e por isso telescópios como o Spitzer e o Webb são ideais para estudá-la. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — Fomalhaut (alf PsA) — designações, tipo espectral, magnitude, paralaxe e coordenadas
- Mamajek, E. E. (2012). On the Age and Binarity of Fomalhaut. The Astrophysical Journal Letters, 754, L20 — massa, raio, temperatura, luminosidade, idade e companheira TW PsA
- ESA/Hubble — Fomalhaut and Fomalhaut b (heic0821a) — imagem de 2008 do anel de poeira e do objeto Fomalhaut b
- ESA/Webb — Webb inspects dusty debris disc around Fomalhaut (weic2312a) — três anéis de poeira, extensão de 23 bilhões de quilômetros, nuvem de poeira de colisão e crédito da imagem
Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.
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