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Pequena Nuvem de Magalhães

A galáxia anã que ensinou a medir o universo

Outros nomes e designações: PNM, SMC, Small Magellanic Cloud, Nubecula Minor, NGC 292, ESO 29-21, PGC 3085

Melhor época no Brasil: Agosto a janeiro, no início da noite; do Sudeste para o sul é circumpolar e nunca se põe

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Galáxia irregular em infravermelho, com um corpo alongado azulado à esquerda, uma extensão difusa para a direita e nuvens verdes e vermelhas de poeira; um aglomerado globular aparece no canto inferior esquerdo.
A Pequena Nuvem de Magalhães em infravermelho pelo telescópio Spitzer: estrelas velhas em azul, poeira orgânica em verde e poeira fria em vermelho, com a barra à esquerda e a asa à direita. Crédito: NASA/JPL-Caltech/STScI (Domínio público (NASA)). Fonte: science.nasa.gov/photojournal/little-galaxy-explored.

Visão geral

A Pequena Nuvem de Magalhães é a irmã menor da Grande Nuvem: uma galáxia anã que orbita a Via Láctea e que aparece a olho nu como uma mancha pálida e alongada no céu austral, na constelação do Tucano. Ela é menos brilhante e menor que a companheira, mas tem um vizinho que ajuda a encontrá-la: o aglomerado globular 47 Tucanae, que fica logo ao lado no céu, embora esteja na nossa galáxia e muito mais perto.

Vale a pena conhecer a Pequena Nuvem por sua história. Foi medindo o brilho de estrelas variáveis nessa galáxia, em chapas fotográficas, que Henrietta Leavitt descobriu, no início do século XX, a relação que permitiu pela primeira vez medir distâncias a outras galáxias.

Características

O SIMBAD classifica a Pequena Nuvem como galáxia anã irregular. Ela tem uma barra central de estrelas, que forma o corpo alongado visto a olho nu, e uma extensão chamada asa, que aponta na direção da Grande Nuvem. Imagens infravermelhas do telescópio Spitzer, da NASA, mostram as estrelas velhas em azul, as nuvens de poeira orgânica em verde e a poeira fria em vermelho, com a barra à esquerda e a asa se esticando para a direita.

Segundo o ESA/Hubble, a galáxia contém centenas de milhões de estrelas e fica a cerca de 200 mil anos-luz, um pouco mais longe que a Grande Nuvem. No céu ela mede cerca de 2,6° por 1,6°, segundo o SIMBAD, o equivalente a uns cinco diâmetros da Lua cheia no sentido maior. A magnitude total, perto de 2,2, está distribuída nessa área toda, por isso o brilho parece bem mais fraco que o de uma estrela de segunda magnitude.

A interação com a Via Láctea e com a Grande Nuvem moldou a galáxia. Observações do Hubble indicam que a maior parte do gás da Corrente de Magalhães, um longo rastro de hidrogênio que acompanha as Nuvens pelo céu, foi arrancada da Pequena Nuvem há cerca de 2 bilhões de anos, em um encontro gravitacional entre as duas galáxias. Por ter menos massa, a Pequena Nuvem perdeu mais material que a companheira.

Onde fica no céu

A Pequena Nuvem fica no Tucano, uma constelação austral sem estrelas muito brilhantes. A referência mais fácil é Achernar, a estrela brilhante no fim do rio Eridano: a Nuvem está a cerca de 15° dela, na direção do polo sul celeste. Outra opção é usar a própria Grande Nuvem, que fica a uns 20° de distância, mais ao leste; as duas formam, com o polo sul, um triângulo largo.

Logo ao lado da Pequena Nuvem, a oeste, há uma estrela aparentemente embaçada: é 47 Tucanae, um dos maiores aglomerados globulares do céu, a olho nu parecido com uma estrela fora de foco.

Com declinação próxima de −73°, a Pequena Nuvem está a apenas 17° do polo sul celeste. Ela descreve um círculo pequeno em torno do polo e, do Rio de Janeiro e São Paulo para o sul, nunca se põe.

Como observar

Orientação geral, não previsão. As indicações de época e altura valem para o Brasil em geral e para o início da noite. Para a posição exata na sua cidade, data e horário, consulte um planisfério ou aplicativo de planetário, como explicamos em Como ler um mapa celeste.

A olho nu, em céu escuro, a Pequena Nuvem é uma mancha difusa e pálida, menos evidente que a Grande Nuvem. Ela exige céu sem Lua e olhos adaptados ao escuro. Em locais com poluição luminosa moderada, muitas vezes só 47 Tucanae aparece, e a galáxia some no fundo claro do céu.

Em binóculos a galáxia ganha forma: a barra alongada se destaca e aparecem nós mais brilhantes, as regiões de formação estelar. Um telescópio pequeno, com baixo aumento, mostra aglomerados de estrelas e nebulosas dentro da Nuvem, como NGC 346, além de permitir comparar 47 Tucanae, que se resolve em estrelas nas bordas, com a galáxia, que não se resolve.

A partir do Brasil

Norte e Nordeste

No extremo Norte a Pequena Nuvem é um alvo difícil. Em Belém ela culmina a apenas cerca de 19° de altura, e em Fortaleza a cerca de 21°, sempre perto do horizonte sul e sob a bruma, por poucas horas. Em Salvador ela chega a cerca de 30°, o suficiente para uma observação razoável em noites limpas. Nessa faixa do país, o melhor período vai de setembro a dezembro, quando ela está mais alta no início da noite.

Centro-Oeste e Sudeste

Em Brasília a galáxia atinge cerca de 33° de altura e, em São Paulo e no Rio de Janeiro, cerca de 41°. A partir do Sudeste ela se torna circumpolar: no ponto mais baixo da volta em torno do polo ainda fica uns 6° acima do horizonte em São Paulo. As noites de outubro e novembro são as melhores, com a Nuvem alta no sul por volta das 21h, antes da chegada das chuvas de verão.

Sul

O Sul tem as melhores condições. Em Porto Alegre a Pequena Nuvem culmina a cerca de 47° de altura e nunca desce abaixo de uns 13° acima do horizonte. Isso a torna visível em qualquer noite limpa do ano: alta na primavera e no verão, baixa no sul nas noites de outono e inverno.

Limitações e cuidados

  • A Lua apaga a Pequena Nuvem ainda mais facilmente que a Grande, por ser menos brilhante. Observe perto da Lua nova.
  • A poluição luminosa é a principal limitação: galáxias são objetos difusos e perdem o contraste muito antes das estrelas. De uma capital, ela costuma ser invisível.
  • No Norte do país ela nunca sobe muito e a umidade e a bruma do horizonte reduzem bastante o que se vê.

Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.

Curiosidades

Entre 1893 e 1906, o Observatório de Harvard fotografou as Nuvens de Magalhães a partir de uma estação no Peru. Analisando essas chapas, Henrietta Leavitt catalogou 1.777 estrelas variáveis e, em 1912, mostrou que, para 25 cefeidas da Pequena Nuvem, quanto maior o período de variação, mais brilhante a estrela. Como todas estavam à mesma distância, a relação só podia ser uma propriedade das estrelas. Essa lei de período e luminosidade é até hoje uma das principais ferramentas para medir distâncias no universo.

As Nuvens eram conhecidas de povos do hemisfério sul muito antes das viagens europeias. Os tupis-guaranis da região do Rio de Janeiro as viam como fontes de água, com uma anta bebendo na Grande Nuvem e um porco-do-mato na Pequena, segundo o estudo histórico de Michel Dennefeld. Os mapuches do Chile falavam de lagoas que iam secando.

Antonio Pigafetta, cronista da expedição de Fernão de Magalhães, registrou em 1520 que o polo antártico tinha duas nuvens de estrelas fracas. Os marinheiros adotaram o nome do navegador, mas os astrônomos continuaram usando Nubecula Minor por séculos: a designação Nuvens de Magalhães só entrou em uma publicação científica com John Herschel, em 1847.

Termos de apoio

Galáxia anã

Galáxia com uma fração pequena das estrelas de uma galáxia grande como a Via Láctea. A Pequena Nuvem tem centenas de milhões de estrelas, contra centenas de bilhões da nossa. Saiba mais →

Cefeida

Estrela variável que pulsa com período regular, de dias a meses. Quanto mais longo o período, mais luminosa ela é, o que permite calcular a distância comparando o brilho real com o aparente. Saiba mais →

Objeto circumpolar

Astro que nunca se põe para quem observa de certa latitude, porque gira em torno do polo celeste sem tocar o horizonte. A Pequena Nuvem é circumpolar do Sudeste para o sul do Brasil. Saiba mais →

Poluição luminosa

Clarão artificial do céu produzido pela iluminação urbana. Ele reduz o contraste de objetos difusos, como galáxias, muito antes de apagar as estrelas. Saiba mais →

Fontes consultadas

  1. SIMBAD Astronomical Database (CDS) — SMC — coordenadas, tipo morfológico, magnitude V, tamanho aparente e designações
  2. ESA/Hubble — Colourful clouds of a nearby neighbour (potw2511a) — distância de cerca de 200.000 anos-luz, localização em Tucano e Hidra Austral e aglomerado NGC 346
  3. NASA Science Photojournal — Little Galaxy Explored (PIA12485) — imagem infravermelha do Spitzer, barra, asa, distância e interpretação das cores
  4. ESA/Hubble — Head in the Clouds (potw2249a) — centenas de milhões de estrelas e distância
  5. NASA Science — Hubble Space Telescope Finds Source of Magellanic Stream — origem da Corrente de Magalhães na Pequena Nuvem há cerca de 2 bilhões de anos
  6. NASA Imagine the Universe — Cosmic Times: In Their Own Words (Henrietta Leavitt) — catálogo de 1.777 variáveis, 25 cefeidas e relação período-luminosidade de 1912
  7. Dennefeld, M. (2020). A history of the Magellanic Clouds and the European exploration of the Southern Hemisphere. The Messenger, 181, 37-42 (arXiv:2009.04973) — história do nome, Pigafetta, tupis-guaranis, mapuches e John Herschel

Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.

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