Virgem
A segunda maior constelação do céu e a porta de entrada para as galáxias
Outros nomes e designações: Virgo, Vir, A Virgem
Melhor época no Brasil: Março a julho, no início da noite; passa quase pelo zênite no Nordeste
Visão geral
Virgem é a segunda maior constelação do céu, atrás apenas da Hidra, e ocupa 1.294 graus quadrados ao longo do zodíaco. A olho nu ela parece quase vazia: Spica e um punhado de estrelas de terceira e quarta magnitude espalhadas por uma área enorme. Para quem tem um telescópio, porém, é uma das regiões mais ricas do céu.
Na direção de Virgem, olhamos para fora do plano da Via Láctea e enxergamos o Aglomerado de Virgem, milhares de galáxias a dezenas de milhões de anos-luz. É o aglomerado de galáxias mais próximo de nós, e nele está M87, cujo buraco negro central foi o primeiro a ser fotografado. No Brasil, a constelação passa alta no céu de outono.
Características
Spica (α Vir), de magnitude 0,97, está entre as vinte estrelas mais brilhantes do céu. É um sistema binário muito fechado cujo componente principal é uma estrela azul de tipo B1 e temperatura altíssima, a cerca de 250 anos-luz.
A segunda estrela em brilho é Porrima (γ Vir), de magnitude 2,74, a cerca de 39 anos-luz: uma dupla famosa de dois componentes quase idênticos de tipo F, cuja separação varia ao longo das décadas e que telescópios pequenos conseguem dividir em parte do ciclo. Vindemiatrix (ε Vir), de magnitude 2,79, é uma gigante amarela de tipo G8 a cerca de 110 anos-luz, ponto de partida para o Aglomerado de Virgem.
O Aglomerado de Virgem fica entre Vindemiatrix e Denebola, na fronteira com o Leão e a Cabeleira de Berenice. Sua galáxia dominante é M87, uma elíptica gigante de magnitude em torno de 8,6 a 9,6, conforme a fonte, a cerca de 54 milhões de anos-luz segundo a NASA. M49 (NGC 4472) é outra elíptica brilhante do aglomerado, e dezenas de galáxias de magnitudes 9 a 12 povoam a região.
Na borda sul da constelação, perto do Corvo, está M104, a galáxia do Sombrero: uma espiral vista quase de perfil, com um bojo luminoso cortado por uma faixa escura de poeira. Tem magnitude 8,0 e cerca de 8,5 por 5 minutos de arco, a cerca de 28 milhões de anos-luz. É a galáxia mais acessível da constelação para telescópios pequenos.
Virgem também abriga 3C 273, o primeiro quasar identificado e o mais brilhante no visível, com magnitude em torno de 12,9. Parece uma estrela fraca, mas seu desvio para o vermelho indica que a luz viajou cerca de 2 bilhões de anos até chegar aqui.
Onde fica no céu
A maneira clássica de achar Spica é seguir o arco da cauda da Ursa Maior até Arcturus e continuar a curva até Spica. Do Brasil, porém, a Ursa Maior fica muito baixa ou invisível, então há um caminho melhor: use o Cruzeiro do Sul. Prolongue a linha do braço maior do Cruzeiro, de Gacrux a Acrux, no sentido contrário, para o norte. Depois de cruzar o Corvo, um pequeno quadrilátero de quatro estrelas, você chega a Spica.
Outra opção é partir do Leão: Denebola, na cauda, aponta para leste em direção a Vindemiatrix e, mais adiante, a Spica. A constelação é larga, com mais de 50° da fronteira com o Leão até a Balança, então explore com calma.
As constelações vizinhas são Boieiro e Cabeleira de Berenice ao norte, Leão a noroeste, Taça (Crater) e Corvo ao sul, Hidra a sudoeste, Balança a leste e Cabeça da Serpente a nordeste.
Como observar
A olho nu, a constelação se resume a Spica e a uma linha irregular de estrelas de magnitude 3 e 4; em cidades, só Spica, Porrima e Vindemiatrix sobrevivem. A graça de Virgem está nos telescópios: com 100 mm de abertura já se veem M104 e as galáxias mais brilhantes do aglomerado como manchas difusas.
Um telescópio médio, de 150 mm a 250 mm, transforma a região entre Vindemiatrix e Denebola em um passeio por dezenas de galáxias, entre elas a Cadeia de Markarian. É essencial céu escuro e sem Lua, e um mapa detalhado, porque é fácil se perder entre tantos objetos parecidos.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Spica, na declinação −11°, culmina a cerca de 80° em Belém e Fortaleza e a quase 88° em Salvador, praticamente no zênite. O Aglomerado de Virgem, em declinação positiva, chega a mais de 75° de altura. A melhor época, de abril a junho, pega o fim da estação chuvosa amazônica e o período mais chuvoso do litoral nordestino; já o sertão costuma ter noites limpas e escuras, ideais para galáxias.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília, Spica passa a cerca de 85° de altura; em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a cerca de 78°. O aglomerado de galáxias chega a 60° a 65°. De abril a junho, o tempo seco do Centro-Oeste e o outono do Sudeste oferecem as melhores noites do ano para esse tipo de observação, e Virgem está bem posicionada por volta das 21h.
Sul
De Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba, Spica culmina a cerca de 70° e o Aglomerado de Virgem a cerca de 50°, alturas perfeitamente confortáveis. As noites de outono costumam ser estáveis, mas a umidade favorece orvalho nas lentes. Maio é o mês mais favorável.
Limitações e cuidados
- Entre setembro e outubro o Sol está em Virgem e a constelação fica invisível; ela reaparece de madrugada em novembro.
- Galáxias exigem céu escuro: a Lua, mesmo em quarto crescente, e a iluminação urbana reduzem drasticamente o que se consegue ver.
- Spica fica perto da eclíptica e de tempos em tempos é ocultada pela Lua; vale conferir se não há um planeta brilhante dentro da constelação antes de usar o mapa.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Na tradição greco-romana, a figura costuma ser identificada com Dike ou Astreia, a deusa da justiça que abandonou a Terra na Idade do Ferro e subiu ao céu, ou com Deméter, deusa das colheitas, segurando uma espiga. O nome Spica significa "espiga" em latim, e nos textos babilônicos a região já era associada à deusa Shala e a uma espiga de cereal (fonte: Wikipedia, verbete Virgo).
Em 10 de abril de 2019, a colaboração do Event Horizon Telescope apresentou a primeira imagem direta da sombra de um buraco negro, no centro de M87, a cerca de 55 milhões de anos-luz, com massa estimada em 6,5 bilhões de massas solares.
O ponto do equinócio de setembro, onde o Sol cruza o equador celeste rumo ao hemisfério sul, fica hoje dentro de Virgem, perto de β Vir, por causa da precessão; ele migrará lentamente para o Leão nos próximos séculos (fonte: Wikipedia). A galáxia do Sombrero, descoberta por Pierre Méchain em 1781, só foi acrescentada à lista de Messier como M104 no século XX.
Termos de apoio
Aglomerado de galáxias
Conjunto de centenas ou milhares de galáxias ligadas pela gravidade. O Aglomerado de Virgem é o mais próximo da Via Láctea e o centro do Superaglomerado Local, do qual nossa galáxia faz parte. Saiba mais →
Magnitude aparente
Escala de brilho: quanto menor o número, mais brilhante o astro. Spica tem 0,97; M104, 8,0; o quasar 3C 273, cerca de 12,9, no limite de telescópios pequenos. Saiba mais →
Quasar
Núcleo de galáxia extremamente luminoso, alimentado por um buraco negro supermassivo que engole matéria. 3C 273, em Virgem, foi o primeiro reconhecido como tal, em 1963, e é o mais brilhante visível da Terra. Saiba mais →
Poluição luminosa
Claridade artificial do céu causada pela iluminação urbana. Ela quase não afeta estrelas brilhantes como Spica, mas apaga galáxias e outros objetos difusos, que dependem de céu escuro. Saiba mais →
Fontes consultadas
- IAU — The Constellations (página oficial arquivada, com cartas Sky & Telescope e arquivos de fronteira) — abreviação, genitivo, fronteiras de Delporte (1930) e vértices em ascensão reta e declinação (arquivo vir.txt)
- Wikipedia (en) — IAU designated constellations by solid angle (tabela baseada em Delporte, 1930) — área de 1.294,428 graus quadrados e 2ª posição no ranking; fonte secundária, usada para o valor da área
- SIMBAD (CDS) — Spica, Porrima, Vindemiatrix, M 87, M 49, M 104, 3C 273 — magnitudes, tipos espectrais, paralaxes e tamanhos aparentes; distâncias de estrelas calculadas a partir das paralaxes
- NASA — Hubble's Messier Catalog: Messier 87 e Messier 104 — distâncias (54 e 28 milhões de anos-luz), magnitudes 9,6 e 8,0, descobertas em 1781 e tamanho do Aglomerado de Virgem
- ESO — Astronomers Capture First Image of a Black Hole (eso1907) — imagem do buraco negro de M87, anúncio em 10 de abril de 2019, distância de 55 milhões de anos-luz e massa de 6,5 bilhões de sóis
- Wikipedia (en) — Virgo (constellation) — mitologia, magnitude de 3C 273, posição do equinócio e constelações vizinhas; fonte secundária
Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.
Conteúdos relacionados

Leão (Leo)
Um ponto de interrogação invertido, a Foice, desenha a cabeça do leão do zodíaco, com Regulus no coração e Denebola na cauda. É a constelação do outono brasileiro e um campo de galáxias para telescópios pequenos.

Cruzeiro do Sul (Crux)
A menor das 88 constelações é também a mais famosa do hemisfério sul. Está na bandeira do Brasil, aponta para o polo sul celeste e abriga o Saco de Carvão e a Caixa de Joias.
Arcturus
A estrela mais brilhante do hemisfério norte celeste é uma gigante alaranjada a 37 anos-luz, velha e pobre em metais. Do Brasil, aparece ao norte nas noites de outono e inverno.

Galáxia do Sombrero (M104)
Um bojo luminoso cercado por um anel escuro de poeira, parecido com um chapéu mexicano. Fica a cerca de 28 a 30 milhões de anos-luz e é um alvo clássico de telescópios pequenos nas noites de outono.

Distâncias no Universo
Como os astrônomos sabem que Sirius está a 8,6 anos-luz e Andrômeda a 2,5 milhões? Conheça as unidades de distância e os métodos, da paralaxe às supernovas, que sustentam todos os números do site.

Poluição luminosa e a escala de Bortle
Mais de 80% da humanidade vive sob céus poluídos pela luz artificial, e no Brasil a proporção passa de 90%. Entenda o que isso apaga, como classificar o seu céu de 1 a 9 e o que fazer a respeito.