Grande Nuvem de Magalhães
A maior galáxia satélite da Via Láctea, visível a olho nu
Outros nomes e designações: GNM, LMC, Large Magellanic Cloud, Nubecula Major, ESO 56-115, PGC 17223
Melhor época no Brasil: Outubro a março, no início da noite; do Sudeste para o sul é circumpolar e nunca se põe
Visão geral
A Grande Nuvem de Magalhães é uma galáxia inteira que você consegue ver a olho nu, sem nenhum instrumento. Ela aparece no céu austral como uma mancha esbranquiçada e difusa, do tamanho de uns dez diâmetros da Lua cheia, parecida com um pedaço solto da Via Láctea. É a maior das galáxias satélites que orbitam a nossa e um dos objetos mais fáceis de observar do hemisfério sul.
Por estar a cerca de 160 mil anos-luz, ela é uma das poucas galáxias próximas o bastante para que telescópios distingam suas estrelas uma a uma. Isso a transformou em um laboratório para a astronomia: foi nela que explodiu a supernova mais próxima dos tempos modernos, e é nela que fica a Nebulosa da Tarântula, a maior região de formação de estrelas da nossa vizinhança.
Características
A Grande Nuvem é classificada como uma galáxia anã irregular com uma barra central de estrelas. O SIMBAD a descreve como SB(s)m, um tipo que indica uma barra bem definida e um único braço espiral deformado, resquício de uma estrutura espiral que a gravidade da Via Láctea e da Pequena Nuvem vem distorcendo. Vista a olho nu, a barra é a parte mais brilhante e alongada da mancha.
Seu tamanho no céu é enorme: cerca de 5° por 4,6°, segundo o SIMBAD. Esse espalhamento explica por que a magnitude total, próxima de 0,4, não significa um objeto brilhante como uma estrela: a luz está diluída numa área grande, e o que se vê é um brilho suave, parecido com uma nuvem iluminada.
A galáxia está cheia de regiões de gás ionizado onde nascem estrelas. A maior delas, a Nebulosa da Tarântula, é visível em binóculos como um nó brilhante na borda nordeste da Nuvem.
A relação com a Via Láctea é dinâmica. As duas Nuvens de Magalhães estão ligadas por uma ponte de gás e deixam atrás de si a Corrente de Magalhães, um longo rastro de hidrogênio que se estende por boa parte do céu. Observações do Hubble indicam que a maior parte desse gás foi arrancada da Pequena Nuvem há cerca de 2 bilhões de anos, em um encontro gravitacional entre as duas, com uma contribuição mais recente da Grande Nuvem.
Onde fica no céu
A Grande Nuvem fica na constelação do Dourado, com uma parte avançando sobre a constelação da Mesa, em uma região do céu pobre em estrelas brilhantes. A referência mais útil é Canopus, a segunda estrela mais brilhante do céu: a Nuvem está a cerca de 20° dela, na direção do polo sul celeste. Outra forma é traçar uma linha de Achernar, no fim do rio Eridano, até Canopus; a Nuvem fica um pouco abaixo dessa linha, mais perto de Canopus.
Com declinação próxima de −70°, ela está a apenas 20° do polo sul celeste. Isso significa que gira em um círculo pequeno em torno do polo e, no Sul do Brasil, nunca se põe.
Como observar
Em céu escuro, a Grande Nuvem é óbvia a olho nu: uma mancha difusa que não some quando você olha diretamente para ela. Ela pode ser confundida com uma nuvem real; o truque é esperar alguns minutos, porque nuvens de verdade se movem e a galáxia não.
Binóculos revelam a textura da galáxia, com a barra, nós brilhantes de nebulosas e vários aglomerados de estrelas. A Nebulosa da Tarântula é o alvo principal e aparece como uma mancha brilhante com forma irregular. Um telescópio pequeno, com ocular de baixo aumento, permite passear pela Nuvem e encontrar dezenas de aglomerados e nebulosas.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
É a região do Brasil com menos sorte para as Nuvens de Magalhães. Em Belém (latitude −1,5°) a Grande Nuvem culmina a cerca de 22° de altura, e em Fortaleza a cerca de 24°, sempre baixa no sul e sujeita à bruma e à umidade do horizonte. Ela só é visível por algumas horas e nunca fica alta. Em Salvador a situação melhora, com cerca de 33° de altura máxima.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília a Nuvem chega a cerca de 36° de altura, e em São Paulo e no Rio de Janeiro a cerca de 44°, altura confortável para observação. A partir da latitude de São Paulo ela se torna circumpolar: nunca chega a se pôr, embora no inverno passe rente ao horizonte sul no início da noite. As melhores noites vão de novembro a fevereiro, quando ela está alta logo após o anoitecer.
Sul
O Sul do Brasil é a melhor região do país para as Nuvens. Em Porto Alegre a Grande Nuvem culmina a cerca de 50° de altura e, mesmo no ponto mais baixo da volta em torno do polo, ainda fica a uns 10° acima do horizonte. Ela é visível em qualquer noite limpa do ano.
Limitações e cuidados
- A Lua apaga a Nuvem com facilidade: perto da Lua cheia, mesmo em céu rural, ela some quase por completo. Observe na semana da Lua nova.
- Poluição luminosa afeta galáxias muito mais do que estrelas, porque a luz delas é difusa; de uma capital, a Nuvem pode ser invisível mesmo estando alta.
- No extremo Norte do país ela fica sempre perto do horizonte, onde a atmosfera espessa, a umidade e a bruma reduzem muito o brilho.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
A Grande Nuvem foi registrada por escrito muito antes de Magalhães. O astrônomo persa Abd al-Rahman al-Sufi a mencionou em seu Livro das Estrelas Fixas, no ano 964, com o nome de al-Bakr, com base em relatos de navegadores que a viam do sul da Arábia.
Povos do Brasil também conheciam as Nuvens. Segundo um estudo histórico de Michel Dennefeld, os tupis-guaranis da região do Rio de Janeiro comparavam as Nuvens a fontes de água, com uma anta bebendo na Grande Nuvem e um porco-do-mato na Pequena. Já os mapuches, no Chile, as viam como lagoas que secariam no fim do mundo.
Entre os europeus, Américo Vespúcio descreveu as duas Nuvens e o Saco de Carvão em sua viagem de 1501 e 1502, chamando-as de três Canopos. Antonio Pigafetta, cronista da expedição de Fernão de Magalhães, anotou em 1520, ao atravessar o estreito que hoje leva o nome do navegador, que o polo antártico era menos estrelado que o ártico e tinha duas nuvens de estrelas fracas. Os marinheiros passaram a chamá-las de Nuvens do Cabo ou de Magalhães, nome que a ciência só adotou no século XIX.
Em 23 de fevereiro de 1987, astrônomos do hemisfério sul viram uma estrela da Grande Nuvem explodir. A supernova 1987A, a mais próxima observada com telescópios modernos, continua sendo estudada pelo Hubble, que acompanha os anéis de gás em volta do que restou da estrela.
Termos de apoio
Galáxia satélite
Galáxia pequena que orbita uma galáxia maior, presa pela gravidade dela. As duas Nuvens de Magalhães são satélites da Via Láctea e estão sendo lentamente deformadas por essa interação. Saiba mais →
Objeto circumpolar
Astro que nunca se põe para quem observa de certa latitude, porque descreve um círculo em torno do polo celeste sem tocar o horizonte. A Grande Nuvem é circumpolar do Sudeste para o sul do Brasil. Saiba mais →
Magnitude aparente
Escala de brilho em que números menores indicam objetos mais brilhantes. Para objetos extensos como galáxias, a magnitude total engana: a luz se espalha por uma área grande e o brilho parece bem menor do que o número sugere. Saiba mais →
Poluição luminosa
Clarão artificial do céu produzido pela iluminação urbana. Ele reduz o contraste entre o fundo do céu e objetos difusos, por isso galáxias e nebulosas somem antes das estrelas. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — LMC — coordenadas, tipo morfológico, magnitude V, tamanho aparente e designações
- NASA Science Photojournal — What's Old is New in the Large Magellanic Cloud (PIA07137) — distância de cerca de 160.000 anos-luz, mosaico infravermelho do Spitzer e interpretação das cores
- ESA/Hubble — Capturing candyfloss clouds (potw2519a) — distância de cerca de 160.000 anos-luz e localização em Dourado e Mesa
- ESA/Hubble — SN 1987A in the Large Magellanic Cloud (opo9904a) — data da supernova 1987A e anéis do remanescente
- NASA Science — Hubble Space Telescope Finds Source of Magellanic Stream — origem da Corrente de Magalhães e interação entre as Nuvens e a Via Láctea
- Dennefeld, M. (2020). A history of the Magellanic Clouds and the European exploration of the Southern Hemisphere. The Messenger, 181, 37-42 (arXiv:2009.04973) — história do nome, Al-Sufi, Vespúcio, Pigafetta, tupis-guaranis, mapuches e John Herschel
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Conteúdos relacionados

Pequena Nuvem de Magalhães
A companheira menor da Grande Nuvem aparece como uma mancha pálida ao lado do aglomerado 47 Tucanae. Foi estudando suas estrelas variáveis que Henrietta Leavitt criou a régua das distâncias cósmicas.

Nebulosa da Tarântula (NGC 2070)
Uma nebulosa tão luminosa que é visível a olho nu mesmo estando em outra galáxia, a Grande Nuvem de Magalhães. Abriga as estrelas mais massivas conhecidas e é um alvo privilegiado do céu austral.

Via Láctea
A faixa esbranquiçada que cruza o céu em noites escuras é o disco da nossa própria galáxia, visto de dentro. O Brasil tem o centro dela quase sobre a cabeça nas noites de inverno.

Canopus
Segunda estrela mais brilhante do céu, Canopus é uma gigante branco-amarelada a cerca de 310 anos-luz, dezenas de vezes maior que o Sol. Visível a olho nu de todo o Brasil nas noites de verão.
Achernar
Estrela azul quente a 139 anos-luz que gira tão depressa que seu equador é 50% mais largo que os polos. Marca o fim do rio Erídano e brilha alta no céu de primavera do Sul do Brasil.

O céu visto do Brasil
Do equador ao Chuí, o céu brasileiro mostra o Cruzeiro do Sul, as Nuvens de Magalhães e o centro da Via Láctea no alto, e ainda alcança Vega e Andrômeda. Entenda como a latitude muda o que você vê.