Achernar
A estrela mais achatada conhecida, no fim do rio Erídano
Outros nomes e designações: Alfa Eridani, α Eri, HD 10144, HIP 7588, Fim do Rio
Melhor época no Brasil: Setembro a janeiro, no início da noite; culmina em novembro; quase não se põe no Rio Grande do Sul
Visão geral
Achernar é a estrela brilhante que marca o fim do rio Erídano, a longa constelação que serpenteia desde o pé de Órion até o céu profundo do sul. Nas noites de primavera brasileira ela aparece alta na direção sul, azul-branca e isolada, uma das poucas estrelas de primeira grandeza daquela região do céu. Está entre as dez estrelas mais brilhantes da noite e, como Canopus e Acrux, é uma estrela que o hemisfério norte praticamente não conhece.
O que faz de Achernar um caso único é a sua forma. Ela gira tão depressa que foi deformada pela força centrífuga: o equador é mais de 50% mais largo que o eixo polar. Nenhuma outra estrela medida até hoje é tão achatada. Observá-la a olho nu não revela isso, claro, mas saber que aquele ponto azul é um elipsoide girando perto do limite de ruptura muda a maneira de olhar para ele.
Características
Achernar é uma estrela de tipo espectral B6, quente e azulada, com cerca de 6 massas solares. A letra "e" no seu tipo espectral indica linhas de emissão: ela pertence à classe das estrelas Be, que expelem gás do equador e formam ao redor de si um disco fino e temporário. Esse disco aparece e desaparece ao longo dos anos, mudando ligeiramente o espectro e o brilho da estrela.
Em 2003, uma equipe liderada por Armando Domiciano de Souza usou o interferômetro VLTI, do ESO, para medir diretamente a forma de Achernar. O resultado surpreendeu: a razão entre o diâmetro equatorial e o polar é de pelo menos 1,56, muito maior do que os modelos previam. O raio equatorial foi medido em cerca de 12 raios solares, e o polar em no máximo 7,7. A estrela gira a cerca de 225 km/s no equador, perto dos 300 km/s em que ela começaria a se desfazer.
A rotação rápida também muda a temperatura ao longo da superfície. Pelo efeito chamado escurecimento gravitacional, os polos, mais próximos do centro, são mais quentes e brilhantes, enquanto o equador, inchado, é mais frio. A temperatura média fica em torno de 20.000 °C, mas a diferença entre polo e equador é de milhares de graus. Medidas posteriores com o VLTI, feitas entre 2009 e 2012, refinaram esses parâmetros e confirmaram que, naquele período, o disco de gás estava ausente e a estrela se comportava como uma estrela B normal.
Onde fica no céu
Achernar fica numa região do céu com poucas estrelas brilhantes, o que facilita a identificação. Nas noites de outubro e novembro, por volta das 21h, procure na direção sul, a meia altura, a estrela azul-branca mais brilhante. Ela forma um grande triângulo com Canopus, a sudeste, e Fomalhaut, a noroeste, e fica mais ou menos a meio caminho entre Fomalhaut e o polo sul celeste.
Com declinação de cerca de −57°, Achernar é muito austral. Ela sobe pouco no Norte do Brasil e muito no Sul; em Porto Alegre, no ponto mais baixo de sua volta diária, ela mal mergulha abaixo do horizonte sul, e no extremo sul do Rio Grande do Sul, perto do Chuí, torna-se circumpolar.
Como observar
Achernar é um alvo de olho nu fácil em qualquer condição. Sua cor azul-branca fica mais evidente em binóculos, e vale compará-la com Fomalhaut, branca, e com Canopus, branco-amarelada, visíveis na mesma noite de primavera. Não há companheira acessível a instrumentos amadores nem detalhe a ver em telescópios.
Como está numa região escura e pobre em estrelas, Achernar é um bom ponto de partida para explorar com binóculos os arredores: o Tucano e a Pequena Nuvem de Magalhães ficam a cerca de 15° a sudoeste, e a Grande Nuvem de Magalhães, mais ao sul, aparece junto com ela nas noites de primavera e verão.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Em Belém e Fortaleza, Achernar sobe a apenas cerca de 34° a 37° de altura, na direção sul, e passa várias horas abaixo do horizonte; em Salvador alcança cerca de 46°. De outubro a dezembro ela está bem colocada no início da noite. Escolha locais com horizonte sul livre; o fim da estação seca, em outubro e novembro, costuma oferecer boas noites.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia, Achernar chega a cerca de 49° de altura; em São Paulo e no Rio de Janeiro, a cerca de 56°. Ela culmina por volta das 21h em meados de novembro e fica bem posicionada de setembro a janeiro. A primavera traz o início das chuvas no Centro-Oeste e no Sudeste, então aproveite as noites limpas de setembro e outubro.
Sul
O Sul é a melhor região para Achernar. Em Porto Alegre ela chega a cerca de 63° de altura e, no ponto mais baixo da sua volta diária, fica apenas um pouco abaixo do horizonte, de modo que é visível em alguma hora de praticamente todas as noites do ano. No extremo sul do estado ela nunca se põe. A janela mais confortável, no início da noite, vai de setembro a janeiro.
Limitações e cuidados
- Entre abril e junho, Achernar fica baixa no sul ou abaixo do horizonte no início da noite, sobretudo no Norte e no Nordeste; nesses meses só aparece de madrugada.
- O achatamento e o disco de gás só são detectáveis por interferometria e espectroscopia profissionais; nenhum telescópio amador os mostra.
- A região ao redor é pobre em estrelas brilhantes, o que ajuda a identificar Achernar, mas dificulta traçar a figura completa do Erídano sob poluição luminosa.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
O nome Achernar vem do árabe e significa "o fim do rio", referência à posição da estrela na foz do Erídano, a constelação que representa um rio celeste. Por causa da precessão, na Antiguidade ela estava ainda mais ao sul e era invisível do Mediterrâneo; o "fim do rio" dos astrônomos antigos era outra estrela, hoje chamada Acamar.
Quando o ESO divulgou a forma de Achernar, em 2003, ela foi descrita como a estrela mais achatada já observada, e a medida foi um desafio para os modelos de rotação estelar, que não previam deformação tão grande.
Achernar e Fomalhaut, que aparecem juntas no céu de primavera, são um bom contraste de escalas: Fomalhaut está a 25 anos-luz e tem o dobro da massa do Sol; Achernar está quase seis vezes mais longe e tem o triplo da massa de Fomalhaut, e mesmo assim brilha mais para nós.
A luz de Achernar que você vê hoje saiu da estrela há cerca de 139 anos, no fim do século XIX, poucos anos antes da proclamação da República no Brasil.
Termos de apoio
Estrela Be
Estrela quente de tipo B que apresenta linhas de emissão no espectro, produzidas por um disco de gás expelido do equador por causa da rotação rápida. O disco pode se formar e dissipar em anos, mudando o aspecto da estrela. Saiba mais →
Interferometria
Técnica que combina a luz de vários telescópios para alcançar a resolução de um instrumento gigante. Foi com o VLTI, do ESO, que o tamanho e a forma achatada de Achernar foram medidos diretamente. Saiba mais →
Estrela circumpolar
Estrela que nunca se põe para um dado observador. Achernar, com declinação de −57°, só é circumpolar ao sul de cerca de 33° de latitude sul, isto é, no extremo sul do Rio Grande do Sul; em Porto Alegre ela quase alcança essa condição. Saiba mais →
Magnitude absoluta
Brilho que uma estrela teria se estivesse a 10 parsecs (32,6 anos-luz) de distância. Permite comparar luminosidades reais; Achernar, com cerca de −2,7, é centenas de vezes mais luminosa que o Sol, cuja magnitude absoluta é +4,8. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — Achernar (alf Eri) — designações, tipo espectral, magnitude, paralaxe, tipo de objeto e coordenadas
- ESO — Flattest Star Ever Seen (eso0316); Domiciano de Souza, A. et al. (2003). The spinning-top Be star Achernar from VLTI-VINCI. Astronomy & Astrophysics, 407, L47 — achatamento, raios equatorial e polar, velocidade de rotação, massa e temperatura
- Domiciano de Souza, A. et al. (2014). The environment of the fast rotating star Achernar. III. Photospheric parameters revealed by the VLTI. Astronomy & Astrophysics, 569, A10 — medidas refinadas de 2009–2012 e ausência do disco circunstelar no período (apenas o resumo foi consultado)
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