47 Tucanae (NGC 104)
O segundo globular mais brilhante do céu, ao lado da Pequena Nuvem de Magalhães
Outros nomes e designações: NGC 104, 47 Tuc, ξ Tucanae, Caldwell 106, Lacaille I.1, Melotte 1, GCl 1
Melhor época no Brasil: Setembro a dezembro, no início da noite; do Sul do Brasil nunca se põe e pode ser visto o ano todo, baixo no sul
Visão geral
47 Tucanae é o segundo aglomerado globular mais brilhante do céu, superado apenas por Ômega Centauri. Ele fica em uma das regiões mais bonitas do céu austral, colado à Pequena Nuvem de Magalhães, e a olho nu parece uma estrela difusa de quarta magnitude. O nome vem de um catálogo antigo que o numerou como a 47ª estrela do Tucano, antes que alguém percebesse que não se tratava de uma estrela.
Para quem observa do Brasil, 47 Tucanae é um objeto de duas caras. Do Sul do país ele nunca se põe e pode ser visitado em qualquer noite do ano. Do Norte, com declinação de −72°, ele mal se levanta acima do horizonte sul e exige céu limpo, horizonte livre e paciência.
Características
Como todo aglomerado globular, 47 Tucanae é uma esfera densa de estrelas muito antigas. Os dados da NASA estimam sua idade em cerca de 10,5 bilhões de anos e sua população em até um milhão de estrelas em um diâmetro de cerca de 120 anos-luz. É um dos globulares mais concentrados, de classe III, com um núcleo tão compacto que telescópios do solo têm dificuldade de separar estrelas em seu centro.
A distância varia conforme o método: o SEDS adota 13.400 anos-luz, o ESA/Hubble cita 15.000 e um estudo da NASA de 2013 usa 16.700. Essa dispersão é normal para globulares, cuja distância depende de calibrações indiretas, como o brilho de estrelas variáveis ou de anãs brancas. O catálogo SIMBAD registra uma paralaxe de 0,232 milissegundo de arco, baseada em dados Gaia, compatível com cerca de 14 mil anos-luz.
Apesar da idade, 47 Tucanae não é um bloco homogêneo. Em 2013 uma equipe liderada por Harvey Richer e Jeremy Heyl, da Universidade da Colúmbia Britânica, mediu os movimentos de mais de 30 mil estrelas com o Hubble e encontrou duas populações: estrelas mais velhas e pobres em elementos pesados, com órbitas circulares, e estrelas um pouco mais jovens e ricas em metais, concentradas no centro e com órbitas mais alongadas. A diferença de idade entre os dois grupos é menor que 100 milhões de anos.
O aglomerado também virou laboratório para estudar a morte das estrelas. Em 2015 o Hubble observou cerca de 3 mil anãs brancas em 47 Tucanae e flagrou as mais jovens migrando do núcleo para as bordas, empurradas por interações gravitacionais com estrelas mais massivas. A descoberta mostrou que as estrelas perdem boa parte de sua massa mais tarde do que se pensava, pouco antes de se tornarem anãs brancas.
Onde fica no céu
47 Tucanae fica a pouco mais de 2° a oeste da Pequena Nuvem de Magalhães, a mancha esbranquiçada que parece um pedaço destacado da Via Láctea no céu do sul. Encontre a Nuvem e procure, logo ao lado, um ponto difuso que não cintila como as estrelas vizinhas. Em céu escuro os dois objetos cabem juntos no campo de um binóculo e formam uma dupla memorável.
Outra referência é Achernar, a estrela brilhante do fim do rio Eridano: o aglomerado fica cerca de 15° ao sul dela, mais ou menos na direção do polo sul celeste. O aglomerado culmina por volta das 21h em outubro.
Como observar
A olho nu, em céu escuro, 47 Tucanae aparece como uma estrela nebulosa de magnitude 4, fácil de distinguir da Pequena Nuvem porque é compacta e bem mais brilhante no centro. Em céu urbano ele some, mesmo no Sul do país.
Em binóculo 10×50 o aglomerado é uma bola luminosa com núcleo intenso e bordas suaves, claramente diferente de qualquer estrela. Um telescópio pequeno de 80 mm a 100 mm, a 60 ou 80 vezes, já resolve as bordas em pontos finos e revela o núcleo denso, com forte gradiente de brilho do centro para fora.
Em telescópio médio, de 150 mm a 250 mm, 47 Tucanae se desfaz em milhares de estrelas até perto do centro, com um núcleo que parece uma joia incrustada em areia brilhante.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Esta é a região em que o aglomerado é mais difícil. Em Belém e Fortaleza ele culmina a apenas 19° a 22° de altura acima do horizonte sul, e em Salvador a cerca de 31°. A luz atravessa uma camada espessa de atmosfera, o que apaga o brilho e borra os detalhes. Procure um horizonte sul livre de prédios e luzes e observe por volta de 21h em outubro ou novembro; mesmo assim, conte com uma visão modesta.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia 47 Tucanae chega a cerca de 34° de altura; em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, a cerca de 41°. É altura razoável para telescópio, embora longe do ideal. Em São Paulo o aglomerado é tecnicamente circumpolar, mas em sua passagem inferior quase toca o horizonte sul, de modo que só vale observá-lo de setembro a janeiro. A primavera seca do Centro-Oeste ajuda; no Sudeste, prefira noites após frentes frias.
Sul
Do Sul do Brasil o aglomerado nunca se põe. Em Porto Alegre ele culmina a cerca de 48° de altura e, mesmo em sua passagem mais baixa, permanece uns 12° acima do horizonte sul. Isso permite observá-lo em qualquer mês do ano, embora a melhor posição ocorra nas noites de primavera. Com céu limpo de inverno ele também é um bom alvo nas madrugadas de junho e julho. É a região em que 47 Tucanae mostra tudo o que tem.
Limitações e cuidados
- No Norte do Brasil o aglomerado fica muito baixo, e a extinção atmosférica perto do horizonte reduz seu brilho a ponto de torná-lo invisível a olho nu em muitas noites.
- Em abril e maio o aglomerado está no céu diurno para a maior parte do país; só do Sul ele continua acessível, baixo e de madrugada.
- Poluição luminosa e Lua cheia apagam a Pequena Nuvem de Magalhães, a principal referência para localizá-lo.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
O astrônomo francês Nicolas-Louis de Lacaille passou dois anos no Cabo da Boa Esperança, entre 1751 e 1752, mapeando o céu austral com um pequeno telescópio. Em 14 de setembro de 1751 ele registrou 47 Tucanae como uma "nebulosa" e o colocou em primeiro lugar de seu catálogo de objetos nebulosos do sul, como Lacaille I.1. Foi a primeira vez que alguém notou que aquela "estrela" era outra coisa.
O nome 47 Tucanae é um fóssil da época em que o objeto era tratado como estrela: ele foi numerado como a 47ª estrela do Tucano e também recebeu a letra grega ksi, ξ Tucanae, como se fosse uma estrela comum. Depois de Lacaille, James Dunlop (1826) e John Herschel (1834) o observaram e catalogaram já como aglomerado, mas o nome antigo ficou.
47 Tucanae é um dos aglomerados mais ricos em pulsares de milissegundo, estrelas de nêutrons que giram centenas de vezes por segundo e emitem pulsos de rádio com regularidade de relógio atômico. O catálogo de pulsares em globulares mantido por Paulo Freire listava 42 deles em 47 Tucanae em 2025, um recorde entre os globulares da Via Láctea ao lado de Terzan 5.
Termos de apoio
Aglomerado globular
Esfera compacta de centenas de milhares de estrelas antigas, ligadas pela gravidade e orbitando o halo da Via Láctea. 47 Tucanae é um dos mais concentrados e o segundo mais brilhante do céu. Saiba mais →
Circumpolar
Objeto que, visto de uma dada latitude, nunca desce abaixo do horizonte e pode ser observado em qualquer noite do ano. Um astro é circumpolar quando sua distância ao polo celeste é menor que a latitude do observador; por isso 47 Tucanae é circumpolar no Sul do Brasil, mas não no Norte. Saiba mais →
Anã branca
Resto compacto e quente de uma estrela de massa parecida com a do Sol que esgotou seu combustível. Em 47 Tucanae o Hubble observou milhares delas migrando do núcleo para as bordas do aglomerado. Saiba mais →
Extinção atmosférica
Perda de brilho da luz de um astro ao atravessar a atmosfera. Perto do horizonte a luz percorre um caminho muito mais longo pelo ar, e objetos fracos como aglomerados podem desaparecer. É o principal obstáculo para ver 47 Tucanae do Norte do Brasil. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — NGC 104 (47 Tucanae) — tipo de objeto, coordenadas, magnitude V 4,09, paralaxe de 0,232 mas, tamanho de 43,8′ e designações
- SEDS — NGC 104 (47 Tucanae), páginas do Messier Database e do catálogo de globulares — magnitude 4,03, tamanho 30,9′, distância de 13.400 anos-luz, classe III, descoberta por Lacaille em 14 de setembro de 1751, Dunlop e Herschel, Chandra
- ESA/Hubble — Hubble catches stellar exodus in action (heic1510) e imagem heic1510a — centenas de milhares de estrelas, 3.000 anãs brancas migrando, distância de 15.000 anos-luz na página da imagem
- NASA Science — Hubble Shows Link Between Stars' Ages and Their Orbits in Dense Cluster (2013) — idade de 10,5 bilhões de anos, 16.700 anos-luz, diâmetro de 120 anos-luz, até um milhão de estrelas, duas populações
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Suas estrelas são fracas, mas o Tucano guarda dois dos maiores espetáculos do céu austral: o aglomerado globular 47 Tucanae e a Pequena Nuvem de Magalhães, ambos visíveis a olho nu em céu escuro.

Pequena Nuvem de Magalhães
A companheira menor da Grande Nuvem aparece como uma mancha pálida ao lado do aglomerado 47 Tucanae. Foi estudando suas estrelas variáveis que Henrietta Leavitt criou a régua das distâncias cósmicas.

Ômega Centauri (NGC 5139)
Uma bola de cerca de 10 milhões de estrelas velhas, visível a olho nu como uma estrela difusa no Centauro. Em telescópio pequeno se desfaz em um enxame de pontos, um dos espetáculos do céu austral.
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