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Via Láctea

A nossa galáxia, vista de dentro

Outros nomes e designações: A Galáxia, Caminho de Santiago, Estrada de Santiago, Milky Way

Melhor época no Brasil: Maio a setembro, quando a região central (Sagitário e Escorpião) está alta no início da noite; a faixa é visível o ano todo, mas mais fraca nos outros meses

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Fotografia noturna feita do espaço mostrando a faixa esbranquiçada da Via Láctea cruzando o céu acima da curva da Terra, com um brilho amarelo-esverdeado na borda do planeta.
A faixa da Via Láctea fotografada da Estação Espacial Internacional sobre o Oceano Atlântico, acima do brilho amarelo-esverdeado da alta atmosfera (airglow). Crédito: NASA (Domínio público (NASA)). Fonte: www.nasa.gov/image-detail/amf-iss073e0982261.

Visão geral

A Via Láctea é a galáxia em que o Sol, a Terra e todas as estrelas que você vê a olho nu estão. É um disco achatado, com um bojo central e braços espirais, que contém centenas de bilhões de estrelas, além de gás, poeira e matéria escura. Como estamos dentro desse disco, não conseguimos vê-lo de fora: o que aparece no céu é uma faixa esbranquiçada e irregular que dá a volta completa na esfera celeste.

Vale a pena conhecer a Via Láctea por um motivo simples: ela é o objeto de céu profundo mais fácil de observar e, ao mesmo tempo, o mais impressionante. E o Brasil está em uma posição privilegiada, porque a parte mais densa e luminosa da galáxia, na direção de Sagitário, passa quase sobre a cabeça nas noites de inverno.

Características

A Via Láctea é classificada como uma galáxia espiral barrada. Isso significa que o bojo central não é redondo, e sim alongado como uma barra, da qual partem os braços espirais. Segundo a ESA, com base nos dados do satélite Gaia, essa barra tem meio-comprimento de cerca de 10.000 anos-luz, e o disco de estrelas mede cerca de 100.000 anos-luz de ponta a ponta. O disco fino, onde fica a maior parte das estrelas jovens e do gás, tem só uns 700 anos-luz de espessura.

Quantas estrelas há na galáxia? Ninguém contou uma a uma. A NASA cita uma faixa ampla, entre 100 e 400 bilhões, porque a resposta depende de quantas estrelas pequenas e fracas, as anãs vermelhas, se assume que existem. Elas são a maioria, mas são difíceis de detectar a grandes distâncias.

O Sol fica longe do centro, a cerca de 26.000 anos-luz dele, mais ou menos na metade do caminho até a borda do disco. Ele percorre uma órbita completa em torno do núcleo em algo como 240 a 250 milhões de anos.

No centro de tudo há um buraco negro supermassivo, Sagittarius A*. Observações do Chandra e de outros telescópios indicam uma massa de cerca de 4 milhões de vezes a do Sol. Ele está escondido atrás de espessas nuvens de poeira, invisível em luz comum, mas detectável em rádio, infravermelho e raios X. As estrelas mais antigas do halo, a região esférica que envolve o disco, têm cerca de 13 bilhões de anos, quase a idade do universo.

Onde fica no céu

A Via Láctea não tem uma constelação só: ela atravessa dezenas delas. No céu do Brasil, a faixa passa por Cassiopeia e Cisne no norte, por Águia, Escudo, Sagitário e Escorpião, segue por Centauro, Cruzeiro do Sul e Carina no sul profundo, e continua por Vela, Popa, Cão Maior e Órion do outro lado do céu.

O trecho mais brilhante fica entre Escorpião e Sagitário. É ali que está a direção do centro galáctico, marcada pela posição de Sagittarius A*, em ascensão reta 17h 45m e declinação −29°. Para achar essa região, procure a cauda curva do Escorpião e a figura em forma de bule de chá de Sagitário; a parte mais densa da faixa parece sair do bico do bule como vapor.

No sentido oposto, entre Touro, Órion e Cão Maior, a faixa é bem mais tênue. Ali olhamos para a borda externa da galáxia, com muito menos estrelas no caminho.

Como observar

Orientação geral, não previsão. As indicações de época e altura valem para o Brasil em geral e para o início da noite. Para a posição exata na sua cidade, data e horário, consulte um planisfério ou aplicativo de planetário, como explicamos em Como ler um mapa celeste.

Para ver a Via Láctea você precisa, acima de tudo, de céu escuro. Ela é um brilho difuso e de baixo contraste, e por isso desaparece completamente sob a luz das cidades. Em um local rural, com os olhos adaptados ao escuro, a faixa aparece com nitidez, e no trecho de Sagitário e Escorpião ela mostra nuvens estelares e faixas escuras de poeira, como a Grande Fenda que a divide ao meio.

Binóculos são o melhor instrumento para percorrer a Via Láctea. Ao varrer a região de Sagitário e Escorpião, você encontra nebulosas como a da Lagoa e a Trífida, e aglomerados como o de Ptolomeu e o Borboleta, todos em um campo rico em estrelas. Um telescópio pequeno mostra esses objetos com mais detalhe, mas perde a visão de conjunto.

A partir do Brasil

Norte e Nordeste

No Norte e no Nordeste, o centro galáctico (declinação −29°) passa a cerca de 60° a 65° de altura em Belém e Fortaleza, e a cerca de 74° em Salvador, bem alto no céu de junho a agosto. O período de seca do interior nordestino, entre junho e outubro, coincide com as melhores noites para a Via Láctea.

Centro-Oeste e Sudeste

Em Brasília, Goiânia, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, o centro galáctico passa a cerca de 75° a 85° de altura, quase no zênite, nas noites de junho e julho por volta das 21h. É a estação seca do Centro-Oeste e o inverno do Sudeste, com muitas noites limpas. O grande problema é a poluição luminosa: perto das capitais, só o trecho mais brilhante em Sagitário aparece, e de forma apagada. Vale a pena dirigir até áreas rurais ou serras afastadas.

Sul

No Sul, o centro galáctico passa exatamente pelo zênite em Porto Alegre (latitude −30°, declinação −29°) e muito perto dele em Florianópolis e Curitiba. O trecho austral da faixa, com Carina e o Cruzeiro do Sul, é circumpolar: nunca se põe. Em contrapartida, o trecho boreal em Cisne e Cassiopeia fica baixo no norte. O inverno gaúcho tem noites longas e, nas frentes frias secas, de transparência excelente.

Limitações e cuidados

  • A Lua é a maior adversária: perto da Lua cheia a Via Láctea desaparece até em locais escuros. Planeje a observação para a semana em torno da Lua nova.
  • Poluição luminosa apaga o brilho difuso da galáxia muito antes de apagar as estrelas; de uma capital, você pode ver Escorpião inteiro sem notar a faixa.
  • Entre novembro e fevereiro o centro galáctico fica no céu diurno; o que se vê à noite é o trecho fraco da borda externa, em Órion e Cão Maior.

Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.

Curiosidades

O nome vem do grego "galaxias kyklos", círculo leitoso, e da versão latina "via lactea". A palavra "galáxia", usada hoje para qualquer sistema estelar, nasceu do nome da nossa.

Em Portugal e na Espanha, a faixa foi chamada por séculos de Caminho ou Estrada de Santiago, porque os peregrinos a usavam como orientação noturna rumo a Compostela.

Galileu Galilei, ao apontar seu telescópio para a faixa em 1610, descobriu que ela era feita de incontáveis estrelas fracas, e não de uma substância nebulosa. Foi a primeira prova direta da natureza da Via Láctea.

Só no século XX, com a medição da distância de Andrômeda, ficou claro que a Via Láctea é apenas uma entre bilhões de galáxias. Até então, muitos astrônomos acreditavam que ela era todo o universo.

Termos de apoio

Ano-luz

Distância que a luz percorre em um ano, cerca de 9,46 trilhões de quilômetros. O disco da Via Láctea tem cerca de 100.000 anos-luz, ou seja, a luz leva 100 mil anos para cruzá-lo. Saiba mais →

Poluição luminosa

Brilho artificial do céu causado pela iluminação urbana. Ele clareia o fundo do céu e esconde objetos difusos e de baixo contraste, como a Via Láctea, muito antes de esconder estrelas brilhantes. Saiba mais →

Objeto circumpolar

Astro que nunca se põe para um observador em certa latitude, porque gira em torno do polo celeste sem tocar o horizonte. No Sul do Brasil, o trecho da Via Láctea em Carina e no Cruzeiro do Sul é circumpolar. Saiba mais →

Buraco negro supermassivo

Buraco negro com milhões ou bilhões de vezes a massa do Sol, encontrado no centro da maioria das grandes galáxias. O da Via Láctea, Sagittarius A*, tem cerca de 4 milhões de massas solares. Saiba mais →

Fontes consultadas

  1. NASA Imagine the Universe — The Milky Way Galaxy — tipo espiral barrada, diâmetro, distância aproximada do Sol ao centro e período orbital de 250 milhões de anos
  2. NASA Science — Our Milky Way Galaxy: How Big is Space? — faixa de 100 a 400 bilhões de estrelas e diâmetro de cerca de 100.000 anos-luz
  3. NASA/Chandra — Sagittarius A* (2013) — massa de cerca de 4 milhões de massas solares e distância de cerca de 26.000 anos-luz
  4. ESA Gaia — Anatomy of the Milky Way — espessura do disco fino, meio-comprimento da barra, halo e idade
  5. SIMBAD Astronomical Database (CDS) — Sgr A* — coordenadas do centro galáctico
  6. NASA Science — Galaxies — período orbital do Sol de cerca de 240 milhões de anos e Grupo Local
  7. NASA — The Milky Way spans the night sky above a yellow-green airglow (iss073e0982261) — imagem da Via Láctea feita da Estação Espacial Internacional

Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.

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