Nebulosa de Carina (NGC 3372)
A gigante do céu austral que abriga a instável Eta Carinae
Outros nomes e designações: NGC 3372, Caldwell 92, Nebulosa Eta Carinae, Nebulosa da Quilha, Gum 33, RCW 53
Melhor época no Brasil: Janeiro a junho, no início da noite; alta no Sul e no Centro-Oeste, mais baixa no Norte
Visão geral
A Nebulosa de Carina é o maior e mais luminoso berçário estelar visível a olho nu, e ela pertence ao céu do hemisfério sul. Observadores da Europa e da maior parte dos Estados Unidos nunca a veem; do Brasil, ela cruza o céu todo outono, encravada na faixa brilhante da Via Láctea entre o Cruzeiro do Sul e a estrela Canopus.
A cerca de 7.500 anos-luz, ela está cinco vezes mais distante que a Nebulosa de Órion e, mesmo assim, aparece maior e mais brilhante. Isso dá uma ideia da escala real: cerca de 300 anos-luz de ponta a ponta. No coração dela vive Eta Carinae, uma estrela instável e extremamente massiva, candidata a explodir como supernova.
Características
NGC 3372 é uma nebulosa de emissão. O gás brilha porque recebe radiação ultravioleta de estrelas muito quentes, que arrancam elétrons dos átomos de hidrogênio; quando os elétrons se recombinam, o gás devolve a energia em luz, principalmente no vermelho. A diferença em relação a Órion é a quantidade de estrelas massivas: aqui há vários aglomerados jovens espalhados pela nuvem.
Os ventos e a radiação dessas estrelas comprimem as paredes de hidrogênio frio ao redor e, segundo a NASA, disparam uma segunda geração de formação estelar. É por isso que a nebulosa está cheia de pilares de poeira, como a chamada Montanha Mística fotografada pelo Hubble em 2010, uma coluna de gás e poeira com três anos-luz de altura em que estrelas estão nascendo nas pontas.
A estrela mais famosa da nebulosa é Eta Carinae, um sistema de pelo menos duas estrelas. A componente principal, Eta Car A, tem cerca de 100 vezes a massa do Sol e brilha aproximadamente 5 milhões de vezes mais. Estrelas assim são raríssimas: há apenas algumas dezenas na Via Láctea inteira com massa nessa faixa. Na década de 1840 o sistema passou por uma erupção gigantesca, ejetou uma enorme quantidade de matéria e formou os dois lobos de gás e poeira que o Hubble acompanha há mais de duas décadas.
Bem ao lado de Eta Carinae fica a Keyhole, o Buraco da Fechadura, uma nuvem escura em silhueta contra o gás brilhante que o Hubble fotografou em 1999.
Onde fica no céu
A nebulosa fica na constelação de Carina, a Quilha do antigo navio Argo. O jeito mais simples de chegar lá é partir do Cruzeiro do Sul: siga o braço maior da cruz, de Gacrux para Acrux, e continue a linha no sentido oposto ao Centauro por cerca de 20° a 25°, pouco mais que uma mão aberta com o braço esticado. Você passará pela "Falsa Cruz" e encontrará uma região da Via Láctea visivelmente mais densa; a mancha brilhante no meio dela é a nebulosa.
Outra referência é Canopus, a segunda estrela mais brilhante do céu: a nebulosa fica entre Canopus e o Cruzeiro do Sul, mais perto do Cruzeiro. Com declinação de quase −60°, ela é profundamente austral, e sua altura máxima cresce conforme você vai para o sul do Brasil.
Como observar
A olho nu, em céu escuro, a nebulosa aparece como uma mancha de luz maior e mais difusa do que as regiões vizinhas da Via Láctea, com Eta Carinae no centro. Em cidades com poluição luminosa moderada, a mancha some, mas a estrela permanece.
Em binóculos de 7×50 ou 10×50 a região é uma das mais ricas de todo o céu: a nebulosa preenche boa parte do campo, cortada por faixas escuras, e está cercada por aglomerados abertos. Um telescópio pequeno com aumento baixo mostra a Keyhole como uma mancha escura contra o gás e separa Eta Carinae em um ponto alaranjado envolto em brilho. Telescópios de 150 mm a 250 mm, com aumento maior, chegam a mostrar o Homúnculo, os lobos ejetados por Eta Carinae, como um pequeno borrão em forma de haltere ao redor da estrela.
Filtros de nebulosa fazem grande diferença aqui. Um filtro UHC aumenta o contraste das faixas escuras e das bordas do gás; um filtro OIII revela filamentos e dá à nebulosa aparência de fotografia em preto e branco. Como o objeto é enorme, prefira aumentos entre 20× e 50× para a visão geral.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
No Norte e no Nordeste a nebulosa é mais baixa: culmina a cerca de 32° em Belém, 34° em Fortaleza e 43° em Salvador. Ainda é uma altura boa para binóculos e telescópios, mas é importante escolher um horizonte sul desimpedido e sem luzes de cidade. A melhor janela vai de março a maio, por volta das 21h, quando a nebulosa está no ponto mais alto e as chuvas da estação começam a ceder no litoral nordestino.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia a nebulosa chega a cerca de 46° de altura, e em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a cerca de 54°. Com o céu seco do outono no Centro-Oeste e as noites mais limpas de abril e maio no Sudeste, é uma das observações mais gratificantes do ano. Entre fevereiro e junho ela está bem posicionada no início da noite; em janeiro e julho é preciso observá-la mais tarde ou mais cedo.
Sul
O Sul do Brasil é a região privilegiada. Em Porto Alegre a nebulosa culmina a cerca de 60° e é praticamente circumpolar: nunca se põe por completo e pode ser vista rente ao horizonte sul mesmo fora da temporada. De Santa Catarina ao Rio Grande do Sul, as noites frias e secas de abril a junho oferecem o melhor contraste, e o objeto fica alto o bastante para telescópios médios explorarem a Keyhole e o Homúnculo.
Limitações e cuidados
- Entre setembro e novembro a nebulosa fica perto do Sol ou muito baixa ao anoitecer; no Norte ela chega a ficar invisível nesse período.
- Para ver o Homúnculo é preciso telescópio de pelo menos 150 mm, aumento acima de 150× e atmosfera estável.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Nicolas-Louis de Lacaille catalogou a nebulosa em 1752, durante a expedição ao Cabo da Boa Esperança em que mapeou sistematicamente o céu do hemisfério sul.
A grande erupção de Eta Carinae, na década de 1840, foi um evento tão violento que ejetou matéria suficiente para formar os dois lobos hoje chamados de Homúnculo, uma estrutura que ainda está se expandindo e que o Hubble fotografou em ultravioleta em 2019.
A paralaxe listada no SIMBAD para a nebulosa, de 0,38 milissegundo de arco, corresponde a uma distância um pouco maior que a usada pela NASA e pela ESA. Divergências assim são comuns em nebulosas, que não têm borda definida nem um ponto único para medir.
Termos de apoio
Região H II
Nuvem de hidrogênio ionizado por estrelas quentes recém-formadas. O nome vem da notação química: H I é hidrogênio neutro, H II é hidrogênio que perdeu seu elétron. Essas regiões marcam onde estrelas estão nascendo agora. Saiba mais →
Circumpolar
Diz-se do astro que nunca se põe para um observador, girando em torno do polo celeste sem tocar o horizonte. Depende da latitude: quanto mais ao sul você está, mais objetos austrais se tornam circumpolares. Saiba mais →
Magnitude aparente
Escala de brilho em que números menores indicam astros mais brilhantes. Em nebulosas, o valor soma toda a luz espalhada pela área, por isso um objeto de magnitude 4,8 espalhado por graus de céu parece bem mais tênue que uma estrela de mesma magnitude. Saiba mais →
Filtros UHC e OIII
Filtros que deixam passar apenas as cores emitidas por nebulosas e bloqueiam o restante da luz, inclusive parte da poluição luminosa. Aumentam o contraste de nebulosas de emissão e planetárias, mas escurecem estrelas e galáxias. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — NGC 3372 — tipo de objeto, identificadores, coordenadas e paralaxe
- NASA Science — Hubble's Caldwell Catalog: Caldwell 92 — distância, magnitude, descoberta, tamanho, Eta Carinae, Montanha Mística e Keyhole
- ESA/Hubble — Star birth in the extreme (heic0707a) — imagem, crédito e distância
- ESA/Hubble — Cosmic Fireworks in Ultraviolet (heic1912a) — erupção de Eta Carinae na década de 1840 e lobos bipolares
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