Nebulosa da Tarântula (NGC 2070)
O maior berçário estelar da vizinhança, em outra galáxia
Outros nomes e designações: NGC 2070, 30 Doradus, 30 Dor, Caldwell 103, Nebulosa de 30 Dourado
Melhor época no Brasil: Outubro a março, no início da noite; alta no Sul, baixa no Norte; circumpolar ao sul de São Paulo
Visão geral
A Nebulosa da Tarântula não pertence à Via Láctea. Ela fica na Grande Nuvem de Magalhães, uma galáxia-satélite da nossa, a cerca de 170 mil anos-luz, e mesmo assim pode ser vista a olho nu de um céu escuro do Brasil. É o único objeto de formação estelar de outra galáxia ao alcance dos olhos, e isso diz muito sobre seu tamanho: nenhuma região de nascimento de estrelas da Via Láctea é tão grande nem tão produtiva.
É nela que vivem as estrelas mais quentes e massivas conhecidas, reunidas em um aglomerado tão denso que serve de modelo para entender como as galáxias formavam estrelas em grande escala no início do universo.
Características
NGC 2070 é uma nebulosa de emissão em escala gigante. O gás brilha porque é ionizado pela radiação ultravioleta de milhares de estrelas jovens, e a quantidade de estrelas massivas é o que a diferencia de tudo o que existe na Via Láctea. A luz ultravioleta dessas estrelas escava cavidades na nuvem, e a ESA e a NASA apontam que essa própria radiação pode disparar a formação de novas gerações de estrelas ao comprimir o gás ao redor.
No centro fica o aglomerado NGC 2070, cujo núcleo denso é conhecido como R136. Segundo a ESA/Hubble, o aglomerado reúne cerca de 500 mil estrelas e tem apenas 2 a 3 milhões de anos de idade, uma criança em termos astronômicos. R136 abriga algumas das estrelas mais massivas conhecidas, cada uma com mais de 100 vezes a massa do Sol. O mosaico do Hubble de 2012 mostra aglomerados de diferentes idades convivendo na mesma região, de 2 milhões a cerca de 25 milhões de anos.
Um desses aglomerados mais velhos, Hodge 301, já viu suas estrelas mais massivas explodirem como supernovas. Os destroços dessas explosões colidem com o gás da nebulosa, comprimindo-o e formando ondas de choque. A NASA lembra que uma onda de choque assim, vinda de uma supernova próxima, pode ter ajudado a desencadear o colapso da nuvem que deu origem ao Sol.
O Telescópio Espacial James Webb fotografou a Tarântula em 2022 e, enxergando no infravermelho através da poeira, revelou dezenas de milhares de estrelas jovens que estavam escondidas. A química da nebulosa lembra a das regiões de formação estelar do "meio-dia cósmico", a época em que o universo mais formava estrelas.
Onde fica no céu
A Tarântula fica na borda da Grande Nuvem de Magalhães, a mancha difusa que parece um pedaço destacado da Via Láctea no céu austral. Para encontrá-la, localize primeiro a Nuvem: ela fica a cerca de 20° de Canopus, no sentido do polo sul celeste, e aparece a olho nu como uma nuvem pálida do tamanho de várias luas cheias. A Tarântula é o nó mais brilhante da Nuvem, na extremidade leste, oposta ao lado que aponta para a Pequena Nuvem.
Com declinação de −69°, a nebulosa é profundamente austral. Ela cruza o meridiano por volta das 21h em dezembro e janeiro, mas, por estar tão perto do polo, permanece visível por muitos meses e, ao sul de São Paulo, nunca se põe completamente. Nas noites de verão ela está no alto; no inverno fica rente ao horizonte sul no início da noite.
Como observar
A olho nu, em céu escuro e sem Lua, a Tarântula aparece como um ponto nebuloso na beirada da Grande Nuvem de Magalhães, mais concentrado que o resto da galáxia. Em binóculos de 10×50 ela se torna uma mancha evidente com um núcleo brilhante, cercada por outros nós de luz que são aglomerados e nebulosas menores da mesma galáxia.
Em um telescópio pequeno, de 80 mm a 100 mm, com aumento de 40× a 60×, o objeto ganha forma: um centro brilhante com braços e laços de gás que lhe dão a aparência de aranha, origem do nome. O aglomerado R136 aparece como um nó estelar compacto no meio. Com telescópios de 150 mm a 250 mm, os laços se separam em filamentos, surgem regiões escuras entre eles e o campo ao redor revela dezenas de outros objetos da Nuvem.
Filtros de nebulosa funcionam muito bem aqui. O filtro OIII, em particular, transforma a Tarântula: as pernas da aranha ficam nítidas e o contraste com o fundo aumenta muito. O UHC é uma boa alternativa, mantendo mais estrelas visíveis. Use aumentos baixos para ver a nebulosa no contexto da galáxia e aumentos médios para explorar os filamentos.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
No Norte e no Nordeste a Tarântula é um objeto baixo: culmina a cerca de 22° em Belém, 25° em Fortaleza e 34° em Salvador. É possível observá-la, mas exige horizonte sul totalmente livre, sem prédios, serras ou luzes de cidade, e uma noite transparente. A melhor janela vai de novembro a janeiro, por volta das 21h a 22h; no litoral nordestino, aproveite as noites secas de outubro e novembro, antes das chuvas.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia a nebulosa chega a cerca de 37° de altura; em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a cerca de 44°. São alturas razoáveis para binóculos e telescópios, especialmente de dezembro a fevereiro. Em São Paulo o objeto é tecnicamente circumpolar, mas fica tão baixo na parte inferior da trajetória que só vale observar perto da culminação. As chuvas de verão são o principal obstáculo; tenha planos alternativos.
Sul
O Sul do Brasil tem a melhor visão do país: em Porto Alegre a Tarântula culmina a cerca de 51° de altura e é claramente circumpolar, visível em alguma altura em qualquer noite do ano. O verão seco e as noites estáveis de dezembro a março oferecem condições ideais para telescópios médios explorarem os filamentos. Mesmo em junho e julho ela pode ser encontrada baixa no sul no início da noite.
Limitações e cuidados
- No Norte do Brasil a baixa altura faz o objeto perder brilho e nitidez pela atmosfera; neblina e fumaça de queimadas inviabilizam a observação.
- O luar apaga a Grande Nuvem de Magalhães a olho nu e reduz a Tarântula a um borrão em binóculos; prefira a semana da Lua nova.
- A poluição luminosa de grandes cidades elimina a Nuvem inteira; a nebulosa continua acessível em telescópio, mas sem o contexto da galáxia.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Nicolas-Louis de Lacaille registrou a nebulosa em 1751, durante a mesma expedição ao Cabo da Boa Esperança em que catalogou a Nebulosa de Carina e milhares de estrelas do céu austral.
A imagem do Webb de 2022 foi uma das primeiras divulgadas pelo telescópio e mostra, em um campo de 340 anos-luz, estrelas ainda envoltas em seus casulos de poeira, flagradas no momento exato de nascer.
Termos de apoio
Grande Nuvem de Magalhães
Galáxia anã que orbita a Via Láctea e aparece a olho nu como uma nuvem difusa no céu austral. Está a cerca de 160 mil a 170 mil anos-luz e contém a Nebulosa da Tarântula, além de muitos aglomerados e nebulosas menores. Saiba mais →
Circumpolar
Astro que nunca se põe para um observador, porque gira em torno do polo celeste sem cruzar o horizonte. Depende da latitude: a Tarântula, com declinação de −69°, é circumpolar para quem está ao sul de cerca de 21° de latitude sul. Saiba mais →
Região H II
Nuvem de hidrogênio ionizado pela radiação de estrelas quentes e jovens. O nome vem da notação química: H II é o hidrogênio que perdeu seu elétron. A Tarântula é a maior região H II do Grupo Local de galáxias. Saiba mais →
Filtro OIII
Filtro que deixa passar apenas a luz verde-azulada emitida pelo oxigênio duplamente ionizado, comum em nebulosas de emissão e planetárias. Bloqueia o resto da luz, inclusive parte da poluição luminosa, e aumenta muito o contraste. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — NGC 2070 — identificadores, coordenadas, magnitude V 7,25 e dimensão de 3,5′ do aglomerado
- NASA Science — Hubble's Caldwell Catalog: Caldwell 103 — distância, magnitude 4,0, descoberta por Lacaille em 1751, Hodge 301 e supernovas
- ESA/Hubble — Hubble's panoramic view of a star-forming region (heic1206) — NGC 2070 com cerca de 500.000 estrelas, idade de 2 a 3 milhões de anos, R136 e aglomerados de 2 a 25 milhões de anos
- NASA Science — A Cosmic Tarantula, Caught by NASA's Webb — imagem do Webb, crédito, distância de 161.000 anos-luz, mosaico de 340 anos-luz e dezenas de milhares de estrelas jovens
Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.
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Pequena Nuvem de Magalhães
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Canopus
Segunda estrela mais brilhante do céu, Canopus é uma gigante branco-amarelada a cerca de 310 anos-luz, dezenas de vezes maior que o Sol. Visível a olho nu de todo o Brasil nas noites de verão.

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Maior e mais brilhante que a Nebulosa de Órion, a Nebulosa de Carina é visível a olho nu como uma mancha na Via Láctea austral e guarda Eta Carinae, uma das estrelas mais massivas conhecidas.

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