Carina (Carina)
A quilha do navio Argo, com Canopus e a Nebulosa de Carina
Outros nomes e designações: Carina, Quilha, A Quilha do Navio Argo
Melhor época no Brasil: Janeiro a maio, no início da noite; mais alta em março. Sua parte sul é circumpolar de São Paulo para o sul
Visão geral
Carina é a quilha do navio Argo, a embarcação mitológica que os antigos desenhavam no céu do sul e que foi dividida em três constelações no século XVIII. Ficou com ela a melhor parte: Canopus, a segunda estrela mais brilhante de todo o céu noturno, e um trecho da Via Láctea tão povoado de aglomerados e nebulosas que binóculos não sabem para onde apontar.
Para quem observa do Brasil, Carina é a constelação de verão e outono que fica a sudoeste do Cruzeiro do Sul. Vale conhecê-la para ver a Nebulosa de Carina a olho nu, para entender a Falsa Cruz que engana tanta gente e para acompanhar Eta Carinae, uma das estrelas mais massivas e instáveis conhecidas.
Características
Canopus (α Carinae) tem magnitude −0,74 e só perde para Sirius. É uma estrela gigante brilhante de tipo espectral A9, branca com leve tom amarelado, a cerca de 310 anos-luz, trinta e cinco vezes mais longe que Sirius, o que mostra como é luminosa. Fica isolada no extremo oeste da constelação, longe das demais estrelas brilhantes.
O resto de Carina se concentra a leste e ao sul. Miaplacidus (β, magnitude 1,69) é uma estrela A1 a cerca de 113 anos-luz. Avior (ε, magnitude 1,86) e Aspidiske (ι, magnitude 2,26) formam, com κ e δ Velorum, na vizinha Vela, a Falsa Cruz, um losango maior e mais pálido que o Cruzeiro do Sul. Já β, θ, υ e ω Carinae desenham a Cruz de Diamante, outro losango, mais ao sul.
A Nebulosa de Carina (NGC 3372) é uma das maiores regiões de formação de estrelas da Via Láctea, a cerca de 7.500 anos-luz, com mais de 2° de extensão no céu, várias vezes o diâmetro da Lua. Dentro dela está Eta Carinae, um sistema binário cuja estrela principal pode ter nascido com cerca de 150 massas solares. Entre 1838 e 1844 ela sofreu a Grande Erupção, tornou-se por algum tempo a segunda estrela mais brilhante do céu e lançou mais de dez massas solares de gás, que hoje formam a nebulosa do Homúnculo ao seu redor.
Os aglomerados abertos de Carina são alvos de binóculos. IC 2602, as Plêiades do Sul, a cerca de 500 anos-luz, cerca a estrela Theta Carinae (magnitude 2,76). NGC 3532, o Poço dos Desejos, a cerca de 1.300 anos-luz, tem cerca de 400 estrelas e 300 milhões de anos. NGC 2516, a cerca de 1.350 anos-luz, e NGC 3114 (magnitude 4,2) completam a lista, junto com o aglomerado globular NGC 2808.
Onde fica no céu
Canopus é fácil: em janeiro e fevereiro, por volta das 21h, procure a estrela mais brilhante do céu, Sirius, no alto, e desça cerca de 36° em direção ao sul; a próxima estrela muito brilhante é Canopus. Elas chegam ao meridiano com poucos minutos de diferença, o que facilita a comparação de brilho e de cor.
O corpo da constelação fica mais a leste, entre Canopus e o Cruzeiro do Sul. Partindo da cruz, siga para o oeste ao longo da Via Láctea: depois de uma região escura você encontra a mancha da Nebulosa de Carina e, logo abaixo dela, o grupo compacto das Plêiades do Sul. Mais a oeste está a Falsa Cruz, reconhecível por ser maior que o Cruzeiro e não ter as duas Apontadoras ao lado.
Carina faz fronteira com a Vela e a Popa (Puppis) ao norte, o Pintor e o Peixe Voador a oeste, o Camaleão ao sul e a Mosca e o Centauro a leste.
Como observar
Canopus é visível de qualquer lugar iluminado. Em céu escuro, a Via Láctea entre Carina e o Cruzeiro é uma das regiões mais ricas do céu: a Nebulosa de Carina aparece a olho nu como uma nuvem brilhante, e IC 2602 e NGC 3532 são manchas estreladas identificáveis sem instrumento.
Binóculos transformam a região. NGC 3532 enche o campo com dezenas de estrelas de brilho parecido, IC 2602 se abre como uma versão austral das Plêiades e a nebulosa mostra sua forma irregular, com a faixa escura do Buraco da Fechadura e a estrela alaranjada Eta Carinae. Em telescópio pequeno, o Homúnculo em torno de Eta aparece como um pequeno borrão alongado, e NGC 2808 se resolve em uma bola granulada.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Em Belém e Fortaleza, Canopus culmina a cerca de 40° de altura, perfeitamente observável, mas a Nebulosa de Carina (declinação −60°) chega apenas a cerca de 30° e Miaplacidus (−70°) a cerca de 20°, sobre a bruma do horizonte sul. Em Salvador a nebulosa já sobe a cerca de 43°. A melhor janela é fevereiro a abril, no início da noite, apesar das chuvas da estação.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia, Canopus passa a cerca de 53° e a Nebulosa de Carina a cerca de 46°. Em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, Canopus chega a cerca de 61° e a nebulosa a cerca de 53°. A partir da latitude de São Paulo, Miaplacidus se torna circumpolar e a parte sul da constelação pode ser vista em alguma hora de qualquer noite do ano. De fevereiro a maio, por volta das 21h, tudo está bem alto.
Sul
O Sul tem a melhor visão: em Porto Alegre, Canopus culmina a cerca de 67° e a Nebulosa de Carina a cerca de 60°. Toda a metade sul de Carina é circumpolar, e mesmo Canopus fica acima do horizonte na maior parte da noite durante quase o ano todo. Os aglomerados e a nebulosa podem ser acompanhados de dezembro a junho em boa posição.
Limitações e cuidados
- No Norte e no Nordeste a Nebulosa de Carina e os aglomerados ficam baixos, e a bruma e a poluição luminosa do horizonte reduzem muito o que se vê.
- Os meses de melhor posição coincidem com a estação chuvosa no Centro-Oeste, no Norte e em parte do Nordeste.
- O Homúnculo em torno de Eta Carinae exige telescópio; a olho nu e em binóculos o alvo é a nebulosa como um todo.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Argo Navis era, para os gregos, o navio de Jasão e dos Argonautas, que partiram em busca do Velocino de Ouro. Ptolomeu a incluiu entre suas 48 constelações. Na década de 1750, o astrônomo francês Nicolas-Louis de Lacaille, observando do Cabo da Boa Esperança, achou a figura grande demais e a dividiu em Carina (a quilha), Puppis (a popa) e Vela (as velas); seu catálogo foi publicado em 1763.
A divisão demorou a ser oficial. Em 1922, quando a IAU adotou as abreviações, a lista ainda tinha 89 nomes, pois incluía Argo; com as fronteiras de Eugène Delporte, aprovadas em 1928 e publicadas em 1930, Argo desapareceu e Carina, Puppis e Vela se tornaram constelações independentes, chegando às 88 atuais.
Na bandeira do Brasil, Canopus representa o estado de Goiás. O céu da bandeira é o do Rio de Janeiro às 8h30 do dia 15 de novembro de 1889, desenhado como se visto de fora da esfera celeste.
Durante a Grande Erupção, Eta Carinae chegou a servir de referência para navegadores nos mares do sul, superada apenas por Sirius, que está quase mil vezes mais perto. O Telescópio Espacial Hubble acompanha o sistema desde seu lançamento, em 1990, e uma hipótese recente atribui a erupção à fusão da estrela principal com uma companheira.
Os nomes Canopus, Miaplacidus, Avior e Aspidiske foram oficializados pela IAU em 2016.
Termos de apoio
Asterismo
Desenho de estrelas que não é uma constelação oficial e pode misturar estrelas de constelações diferentes. A Falsa Cruz usa duas estrelas de Carina e duas de Vela; a Cruz de Diamante fica toda dentro de Carina. Saiba mais →
Circumpolar
Astro que nunca se põe para um observador, porque gira em torno do polo celeste sem tocar o horizonte. Miaplacidus, com declinação −70°, é circumpolar para quem está ao sul da latitude 20° S. Saiba mais →
Nebulosa de emissão
Nuvem de gás que brilha porque estrelas muito quentes em seu interior a ionizam. A Nebulosa de Carina é uma das maiores da Via Láctea e abriga estrelas recém-formadas e Eta Carinae. Saiba mais →
Magnitude aparente
Escala de brilho em que números menores indicam astros mais brilhantes; valores negativos são raros. Canopus, com −0,74, é a segunda estrela mais brilhante do céu noturno. Saiba mais →
Fontes consultadas
- IAU — The Constellations (FAQ): história de 1922, 1925, 1928 e 1930, lista de abreviações — abreviação Car e histórico das fronteiras de Delporte
- IAU — Arquivo de fronteiras oficiais da constelação Carina — vértices da fronteira; faixa de ascensão reta e declinação
- Wikipedia (em inglês) — IAU designated constellations by solid angle, com base em Delporte (1930) — área de 494,184 graus quadrados e posição 34ª; citada como Wikipedia
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — alf Car, bet Car, eps Car, iot Car, tet Car, ups Car, ome Car, eta Car, kap Vel, NGC 3372, IC 2602, NGC 3532, NGC 2516, NGC 3114, NGC 2808 — magnitudes V, tipos espectrais, coordenadas e paralaxes; distâncias calculadas a partir da paralaxe
- IAU Working Group on Star Names — Catalog of Star Names (IAU-CSN) — nomes oficiais Canopus, Miaplacidus, Avior e Aspidiske e datas de aprovação
- ESO — The Carina Nebula imaged by the VLT Survey Telescope (eso1250a) — distância de 7.500 anos-luz e caráter de região de formação estelar
- ESA/Hubble — Hubble Captures Cosmic Fireworks in Ultraviolet (heic1912) — Grande Erupção de 1838–1844, segunda estrela mais brilhante em 1844, uso na navegação, massa de ~150 sóis, Homúnculo, distância de 7.500 anos-luz
- ESO — A Colourful Gathering of Middle-aged Stars (eso1439) — NGC 3532: 1.300 anos-luz, 300 milhões de anos, ~400 estrelas, Lacaille 1752, apelido Poço dos Desejos
- Planetário da UFSC — Astronomia na Bandeira Brasileira (Paulo Araújo Duarte) — Canopus como estrela de Goiás na bandeira; céu de 15/11/1889
- Wikipedia (em inglês) — Carina (constellation) e IAU designated constellations, com referências a Delporte (1930), Russell (1922) e Ridpath & Tirion — divisão de Argo Navis por Lacaille, lista de 89 nomes em 1922, Falsa Cruz e Cruz de Diamante, origem dos nomes Canopus e Avior; citada como Wikipedia
Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.
Conteúdos relacionados

Canopus
Segunda estrela mais brilhante do céu, Canopus é uma gigante branco-amarelada a cerca de 310 anos-luz, dezenas de vezes maior que o Sol. Visível a olho nu de todo o Brasil nas noites de verão.

Nebulosa de Carina (NGC 3372)
Maior e mais brilhante que a Nebulosa de Órion, a Nebulosa de Carina é visível a olho nu como uma mancha na Via Láctea austral e guarda Eta Carinae, uma das estrelas mais massivas conhecidas.

Cruzeiro do Sul (Crux)
A menor das 88 constelações é também a mais famosa do hemisfério sul. Está na bandeira do Brasil, aponta para o polo sul celeste e abriga o Saco de Carvão e a Caixa de Joias.

Sirius
A estrela mais brilhante do céu noturno fica a apenas 8,6 anos-luz e esconde uma anã branca em órbita. Fácil de achar a olho nu em qualquer lugar do Brasil nas noites de verão.

Cão Maior
Pequena mas inconfundível, a constelação do Cão Maior abriga Sirius, a estrela mais brilhante da noite, e o aglomerado aberto M41. No verão ela cruza o céu quase sobre a cabeça de todo o Brasil.

O céu visto do Brasil
Do equador ao Chuí, o céu brasileiro mostra o Cruzeiro do Sul, as Nuvens de Magalhães e o centro da Via Láctea no alto, e ainda alcança Vega e Andrômeda. Entenda como a latitude muda o que você vê.