Nebulosa de Órion (M42)
O berçário de estrelas mais próximo e mais fácil de ver a olho nu
Outros nomes e designações: M42, Messier 42, NGC 1976, Grande Nebulosa de Órion, LBN 974
Melhor época no Brasil: Novembro a março, no início da noite; passa alto em todo o Brasil
Visão geral
A Nebulosa de Órion é o lugar mais fácil do céu para ver estrelas nascendo. Ela fica logo abaixo das Três Marias, na "espada" de Órion, e aparece a olho nu como uma estrela borrada, de brilho esverdeado e difuso. Qualquer binóculo revela que não é uma estrela, e sim uma nuvem de gás iluminada por dentro.
O que torna M42 tão especial é a proximidade. A cerca de 1.500 anos-luz, ela é a grande região de formação estelar mais próxima da Terra. Isso permite que telescópios como o Hubble enxerguem detalhes impossíveis em outros berçários: discos de poeira ao redor de estrelas recém-nascidas, jatos de gás e até anãs marrons, as "estrelas fracassadas" que não conseguiram acender a fusão nuclear.
Características
M42 é uma nebulosa de emissão, também chamada de região H II. O gás, formado principalmente por hidrogênio, não brilha sozinho: ele é energizado pela luz ultravioleta de estrelas muito quentes e devolve essa energia em cores próprias, sobretudo o vermelho do hidrogênio e o verde do oxigênio que as fotografias de longa exposição registram.
A fonte dessa energia é o Trapézio, um grupo compacto de quatro estrelas massivas e muito jovens que ocupa o centro da nebulosa. Elas nasceram juntas da mesma nuvem e hoje escavam uma cavidade no gás com sua radiação. A NASA descreve que essa luz intensa está, ao mesmo tempo, iluminando a nebulosa e atrapalhando o crescimento de centenas de estrelas menores ao redor, que perdem o material de que precisariam para crescer.
O mosaico do Hubble de 2006, o mais nítido já feito do objeto, revelou mais de 3.000 estrelas de todos os tamanhos em uma área equivalente à da Lua cheia. Algumas eram cem vezes mais fracas que qualquer estrela vista ali antes. Entre elas apareceram candidatas a anãs marrons, inclusive pares orbitando um ao outro, uma novidade na época. A mesma região abriga discos protoplanetários vistos de perfil, que parecem sistemas solares em formação parecidos com o que deu origem à Terra há 4,5 bilhões de anos.
Onde fica no céu
Encontre primeiro as Três Marias, o alinhamento de três estrelas igualmente espaçadas no centro de Órion. Abaixo delas (para quem olha do Brasil, no sentido do horizonte sul quando a constelação está alta) há uma fileira mais curta e mais fraca de estrelas, a espada. A "estrela" do meio da espada é a nebulosa. Em um céu escuro ela já parece difusa a olho nu, diferente dos pontos nítidos ao redor.
Com declinação de cerca de −5°, M42 fica próxima do equador celeste. Isso significa que ela passa alta em qualquer ponto do Brasil e que ninguém no país está em desvantagem para observá-la. Ela nasce a leste no início da noite em novembro e dezembro, cruza o alto do céu por volta das 21h em janeiro e se despede pelo oeste em março e abril.
Como observar
A olho nu, em céu escuro, a nebulosa aparece como uma mancha esbranquiçada do tamanho de um grão de arroz segurado com o braço esticado. Em cidades, ela ainda é perceptível como uma estrela "fora de foco" na espada. Um binóculo comum, de 7×50 ou 10×50, já mostra uma nuvem com formato de leque e uma estrela mais brilhante no centro.
Em um telescópio pequeno, de 70 mm a 100 mm, o espetáculo muda de nível. O Trapézio se separa em quatro estrelas com aumentos a partir de 50×, e a nebulosa mostra as duas "asas" que se abrem a partir do centro, com uma baía escura chamada tradicionalmente de boca do peixe. Em telescópios de 150 mm a 250 mm, surgem filamentos, gradações de brilho e um toque de cor esverdeada, que é a resposta do olho humano à luz do oxigênio.
Filtros de nebulosa ajudam, mas não são obrigatórios aqui. Um filtro UHC realça o contraste das regiões mais tênues, e um filtro OIII escurece o fundo e destaca as bordas da nebulosa. Em céus urbanos, esses filtros podem ser a diferença entre ver um borrão e ver estrutura. Use aumentos baixos para abraçar o objeto inteiro e aumentos médios para o Trapézio.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
No Norte e no Nordeste a nebulosa passa praticamente sobre a cabeça: em Belém e Fortaleza ela culmina a mais de 85° de altura, e em Salvador a cerca de 82°. É a melhor geometria possível, com a luz atravessando o mínimo de atmosfera. O desafio da região é o clima, pois a estação chuvosa de boa parte da Amazônia e do litoral nordestino coincide com os meses de melhor visibilidade. Aproveite as noites limpas de novembro e dezembro e as madrugadas de outubro, quando Órion já está alto.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia a nebulosa chega a cerca de 80° de altura; em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a aproximadamente 72°. São alturas excelentes para qualquer equipamento. A janela mais confortável vai de dezembro a fevereiro, por volta das 21h, embora as chuvas de verão exijam flexibilidade. Em março, com menos nuvens, ela ainda está bem posicionada no início da noite.
Sul
No Sul a nebulosa culmina mais baixa, a cerca de 65° em Porto Alegre e um pouco mais em Curitiba, o que continua sendo uma altura muito boa. O verão da região costuma oferecer noites secas e estáveis, e as noites longas de dezembro e janeiro permitem acompanhá-la da madrugada até o começo da noite. Em abril ela se põe cedo pelo oeste.
Limitações e cuidados
- Entre maio e julho Órion está perto do Sol e a nebulosa fica invisível; ela reaparece na madrugada em agosto.
- Luar forte reduz muito o contraste das partes tênues, embora o centro e o Trapézio continuem visíveis em telescópio.
- Em cidades grandes a nebulosa fica reduzida ao núcleo; para ver as asas e a extensão completa, procure um céu rural.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
A NASA registra que os maias viam na região da nebulosa o fogo cósmico da criação, uma leitura surpreendentemente parecida com o que a astronomia moderna descreve: um lugar onde estrelas e planetas estão sendo gerados agora.
O mosaico do Hubble de 2006 exigiu 105 órbitas do telescópio, cada uma de 96 minutos, e combinou três câmeras diferentes. O resultado tem um bilhão de pixels e foi o primeiro a detectar anãs marrons na nebulosa em luz visível.
Se o Sol nasceu em uma região parecida com M42, a radiação de estrelas massivas vizinhas pode ter moldado o tamanho do disco que formou os planetas, exatamente o processo que o Hubble flagra hoje nos discos de perfil da nebulosa.
Termos de apoio
Nebulosa de emissão
Nuvem de gás que brilha com luz própria porque é energizada pela radiação ultravioleta de estrelas quentes próximas. O hidrogênio emite vermelho e o oxigênio, verde-azulado; é o tipo de nebulosa onde estrelas estão nascendo. Saiba mais →
Ano-luz
Distância que a luz percorre em um ano, cerca de 9,46 trilhões de quilômetros. A luz da Nebulosa de Órion que você vê hoje saiu de lá há aproximadamente 1.500 anos. Saiba mais →
Magnitude aparente
Escala de brilho em que números menores indicam objetos mais brilhantes. A magnitude de uma nebulosa é um valor integrado, somando toda a luz espalhada pela área, por isso um objeto de magnitude 4 parece mais fraco que uma estrela de mesma magnitude. Saiba mais →
Filtros UHC e OIII
Filtros que deixam passar só as cores emitidas por nebulosas e bloqueiam o resto, inclusive parte da poluição luminosa. O UHC é mais versátil; o OIII isola a luz do oxigênio e funciona melhor em nebulosas planetárias e em regiões de emissão intensa. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — M 42 — tipo de objeto, identificadores, coordenadas e dimensão angular
- NASA Science — Hubble's Messier Catalog: Messier 42 — distância, magnitude, Trapézio, discos protoplanetários e contexto cultural
- ESA/Hubble — Hubble's sharpest view of the Orion Nebula (heic0601a) — imagem, crédito e descrição do mosaico
- ESA/Hubble — Hubble panoramic view of Orion Nebula reveals thousands of stars (heic0601) — 3.000 estrelas, anãs marrons, 105 órbitas e um bilhão de pixels
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A constelação mais fácil de reconhecer do céu de verão. As Três Marias marcam o cinturão do caçador, entre a supergigante vermelha Betelgeuse e a azul Rigel, e abaixo delas brilha a Nebulosa de Órion.
Rigel
A estrela mais brilhante de Órion é uma supergigante azul a cerca de 860 anos-luz, com mais de cem mil vezes a luminosidade do Sol. Passa perto do zênite no Nordeste nas noites de verão.

Betelgeuse
Supergigante vermelha de Órion, centenas de vezes maior que o Sol e candidata a supernova. Em 2019–2020 escureceu de forma dramática. Fácil de ver a olho nu no verão brasileiro.

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