Cruzeiro do Sul (Crux)
A menor constelação do céu e o símbolo mais conhecido do hemisfério sul
Outros nomes e designações: Crux, Cruzeiro, Cruz do Sul, Southern Cross
Melhor época no Brasil: Fevereiro a julho, no início da noite; mais alto em abril e maio. No extremo sul do país não chega a se pôr
Visão geral
O Cruzeiro do Sul é a menor das 88 constelações oficiais e, mesmo assim, a mais reconhecida de todo o céu austral. Quatro estrelas brilhantes desenham uma cruz compacta, com uma quinta, mais fraca, um pouco fora do eixo. Para quem observa do Brasil, ela é o ponto de partida natural: aparece em quase todas as noites do ano em alguma hora, serve de bússola para achar o sul e está estampada na bandeira nacional.
Vale conhecê-lo por dois motivos. O primeiro é prático: ele ensina a se orientar pelo céu. O segundo é astronômico: em uma área menor que a de uma mão aberta estão a nebulosa escura mais evidente da Via Láctea, o Saco de Carvão, e um dos aglomerados abertos mais coloridos conhecidos, a Caixa de Joias.
Características
A cruz é formada por Acrux (α Crucis), no pé; Gacrux (γ Crucis), no topo; Mimosa (β Crucis), no braço leste; e Imai (δ Crucis), no braço oeste. Acrux é na verdade um par de estrelas azuis muito quentes, de magnitudes 1,28 e 1,58, separadas por apenas 4 segundos de arco, que juntas brilham como uma única estrela de magnitude próxima de 0,8, a cerca de 320 anos-luz.
Mimosa, de magnitude 1,25, é uma gigante azul de tipo espectral B1 a cerca de 280 anos-luz. Gacrux, de magnitude 1,64, é uma gigante vermelha de tipo M3,5 a apenas 89 anos-luz, e seu tom alaranjado contrasta com o branco-azulado das outras. Imai, de magnitude 2,75, fecha a cruz. A quinta estrela, Ginan (ε Crucis), de magnitude 3,57, é uma gigante laranja que fica entre Acrux e Imai, fora da simetria do desenho.
Ao lado do braço leste da cruz está o Saco de Carvão, uma nuvem de poeira interestelar a cerca de 600 anos-luz que bloqueia a luz das estrelas de fundo e aparece como um buraco na faixa luminosa da Via Láctea, visível a olho nu sob céu escuro.
A cerca de 1° de Mimosa fica a Caixa de Joias (NGC 4755), um aglomerado aberto jovem, de cerca de 16 milhões de anos, a aproximadamente 6.400 anos-luz. A olho nu parece uma estrela desfocada; em telescópio pequeno aparecem estrelas azuis e uma supergigante avermelhada no meio, contraste que levou John Herschel a compará-lo a um estojo de joias na década de 1830.
Onde fica no céu
O Cruzeiro fica mergulhado na Via Láctea, na direção do sul do céu. A referência mais segura são as duas estrelas muito brilhantes logo a leste dele, Alfa e Beta Centauri, chamadas de Guardas ou Apontadoras: a linha que une as duas aponta diretamente para o topo da cruz, Gacrux. Esse par evita a confusão com a Falsa Cruz, um grupo maior e mais fraco de estrelas de Carina e Vela, mais a oeste, que não tem apontadoras ao lado.
A constelação também encontra o polo sul celeste. Prolongue o braço maior da cruz, de Gacrux a Acrux, por cerca de quatro vezes e meia o seu comprimento: você chega a uma região sem estrelas brilhantes que é o polo. Baixando dali uma vertical até o horizonte, tem-se o ponto cardeal sul.
As vizinhas são o Centauro, que a envolve por três lados, e a Mosca, ao sul.
Como observar
As quatro estrelas principais são visíveis mesmo em cidades grandes. Em céu escuro, a cor de Gacrux fica evidente e o Saco de Carvão surge como uma mancha sem estrelas ao lado de Acrux e Mimosa. Binóculos mostram a Caixa de Joias e dezenas de estrelas fracas dentro da cruz.
Repare na orientação: a cruz nasce deitada a sudeste, fica em pé quando cruza o meridiano e se põe deitada para o outro lado a sudoeste. Essa rotação em torno do polo é o jeito mais simples de perceber, em uma só noite, o movimento aparente do céu.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Em Belém e Fortaleza o Cruzeiro culmina baixo, a cerca de 25° a 30° de altura sobre o horizonte sul, e fica invisível entre setembro e dezembro, quando passa pelo meridiano durante o dia. A melhor janela é de março a julho, por volta das 21h, com a cruz em pé e acima da névoa do horizonte. Em Salvador ela já chega a cerca de 40° de altura.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia a cruz culmina a cerca de 43° de altura; em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a cerca de 50°. Daqui o Cruzeiro é visível em alguma hora da noite quase o ano inteiro, embora em outubro e novembro apareça só de madrugada. De fevereiro a julho ele domina o início da noite, e em abril e maio está no ponto mais alto por volta das 21h.
Sul
No Sul a constelação se torna circumpolar ou quase isso. Em Porto Alegre, a 30° de latitude sul, Acrux nunca chega a se pôr, e o restante da cruz apenas roça o horizonte sul. No extremo sul do Rio Grande do Sul, por volta de 34°, a cruz inteira fica permanentemente acima do horizonte. A altura máxima passa de 55°.
Limitações e cuidados
- No Norte e no Nordeste a constelação fica abaixo do horizonte à noite entre setembro e novembro; no resto do país, nesses meses, é preciso madrugar.
- Lua cheia e poluição luminosa apagam o Saco de Carvão, que depende do contraste com o fundo da Via Láctea.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
As estrelas da cruz podiam ser vistas da Grécia na Antiguidade, e Ptolomeu as catalogou como parte do Centauro. A precessão do eixo terrestre foi deslocando o céu, e por volta do ano 400 elas já não subiam acima do horizonte na maior parte da Europa. Os navegadores as redescobriram nos séculos XV e XVI: uma carta escrita do Brasil por João Faras em 1500 descreve essas estrelas, e o mapa celeste de Andrea Corsali, de 1516, já desenhava a cruz.
Na bandeira do Brasil, as cinco estrelas do Cruzeiro representam São Paulo (Acrux), Rio de Janeiro (Mimosa), Bahia (Gacrux), Minas Gerais (Imai) e Espírito Santo (Ginan). O conjunto reproduz o céu do Rio de Janeiro às 8h30 do dia 15 de novembro de 1889, desenhado como se visto de fora da esfera celeste, por isso aparece invertido em relação ao que vemos do chão.
Para o povo Bororo, do Brasil Central, as estrelas da cruz faziam parte da figura de uma grande ema; entre os Kalapalo, do Alto Xingu, elas eram abelhas furiosas saindo do Saco de Carvão.
A IAU fixou a abreviação Cru em 1922, na primeira Assembleia Geral, e as fronteiras atuais, desenhadas por Eugène Delporte, foram aprovadas em 1928 e publicadas em 1930. Os nomes Acrux, Mimosa e Gacrux foram oficializados em 2016; Ginan, de origem aborígene australiana, em 2017; e Imai, de origem mursi (Etiópia), em 2018.
Termos de apoio
Asterismo
Figura formada por estrelas que o olho reconhece com facilidade, como a própria cruz ou a Falsa Cruz. Um asterismo pode coincidir com uma constelação, ser parte dela ou misturar estrelas de constelações diferentes. Saiba mais →
Circumpolar
Diz-se do astro que nunca se põe para um observador, porque gira em torno do polo celeste sem tocar o horizonte. Depende da latitude: o Cruzeiro é circumpolar no extremo sul do Brasil, mas não em Fortaleza. Saiba mais →
Nebulosa escura
Nuvem densa de gás e poeira que não brilha; ela é percebida porque esconde as estrelas que estão atrás. O Saco de Carvão só aparece com nitidez onde o fundo da Via Láctea é brilhante. Saiba mais →
Precessão
Movimento lento do eixo de rotação da Terra, que completa um ciclo em cerca de 26 mil anos e muda a posição aparente de todas as estrelas em relação ao horizonte e aos polos. Por causa dela, a cruz deixou de ser visível da Europa. Saiba mais →
Fontes consultadas
- IAU — The Constellations (FAQ): história de 1922, 1925, 1928 e 1930, lista de abreviações — abreviação Cru, definição de constelação e histórico das fronteiras de Delporte
- IAU — Arquivo de fronteiras oficiais da constelação Crux — vértices da fronteira; faixa de ascensão reta e declinação
- Wikipedia (em inglês) — IAU designated constellations by solid angle, com base em Delporte (1930), Délimitation scientifique des constellations — área de 68,447 graus quadrados e posição 88ª; citada por ser compilação da obra de Delporte
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — alf01 Cru, alf02 Cru, bet Cru, gam Cru, del Cru, eps Cru — magnitudes V, tipos espectrais e paralaxes das estrelas principais; distâncias calculadas a partir da paralaxe
- IAU Working Group on Star Names — Catalog of Star Names (IAU-CSN) — nomes oficiais Acrux, Mimosa, Gacrux, Imai e Ginan e datas de aprovação
- ESO — Opening up a Colourful Cosmic Jewel Box (eso0940) — distância (6.400 anos-luz), idade (16 milhões de anos) e apelido dado por John Herschel à NGC 4755
- ESO — A Cosmic Sackful of Black Coal (eso1539) — natureza e distância (cerca de 600 anos-luz) do Saco de Carvão
- Planetário da UFSC — Astronomia na Bandeira Brasileira (Paulo Araújo Duarte) — céu do Rio de Janeiro às 8h30 de 15/11/1889 e correspondência entre estrelas e estados
- Wikipedia (em inglês) — Crux, com referências a Dekker (1990), Ridpath & Tirion (2017), Staal (1988) e Basso (1987) — histórico de Ptolomeu, João Faras (1500), Corsali (1516), precessão e tradições Bororo, Kalapalo e andina; citada como Wikipedia
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Conteúdos relacionados

Acrux
A estrela mais brilhante do Cruzeiro do Sul é na verdade um sistema múltiplo de estrelas azuis quentes a cerca de 320 anos-luz. Um telescópio pequeno separa as duas principais.
Saco de Carvão
Uma mancha negra encravada na Via Láctea, bem ao lado do Cruzeiro do Sul. Não brilha: é uma nuvem de poeira a 600 anos-luz que bloqueia a luz das estrelas atrás dela. Só se vê a olho nu, em céu escuro.

Caixa de Joias (NGC 4755)
Um dos aglomerados abertos mais bonitos do céu, com apenas cerca de 16 milhões de anos. Supergigantes azuis cercam uma estrela vermelha, criando o contraste que inspirou o nome dado por John Herschel.

Centauro (Centaurus)
Nona maior constelação do céu, o Centauro cerca o Cruzeiro do Sul e guarda Alfa Centauri, o sistema estelar mais próximo do Sol, Ômega Centauri, o maior aglomerado globular da Via Láctea, e a galáxia Centaurus A.

Alfa Centauri
Terceira estrela mais brilhante do céu e vizinha mais próxima do Sol, a 4,4 anos-luz. É um sistema triplo: duas estrelas parecidas com o Sol e a pequena Proxima, que abriga um planeta rochoso.

O céu visto do Brasil
Do equador ao Chuí, o céu brasileiro mostra o Cruzeiro do Sul, as Nuvens de Magalhães e o centro da Via Láctea no alto, e ainda alcança Vega e Andrômeda. Entenda como a latitude muda o que você vê.