Nebulosa do Anel (M57)
A nebulosa planetária clássica, um anel de fumaça na Lira
Outros nomes e designações: M57, Messier 57, NGC 6720, Ring Nebula, PN G063.1+13.9
Melhor época no Brasil: Junho a outubro, no início da noite; objeto boreal, mais alto no Norte e baixo no Sul do Brasil
Visão geral
A Nebulosa do Anel é a imagem que a maioria das pessoas tem em mente quando ouve a expressão "nebulosa planetária": um anel de gás brilhante, perfeitamente definido, com um ponto de luz no centro. Ela fica na pequena constelação da Lira, perto da brilhante Vega, e é um dos primeiros alvos de quem acaba de ganhar um telescópio.
Ao contrário das nebulosas de Órion ou de Carina, onde estrelas estão nascendo, M57 marca o fim da vida de uma estrela. O que vemos é a casca de gás que ela expulsou ao esgotar seu combustível, iluminada pelo núcleo exposto e muito quente que sobrou no centro. É uma prévia, em miniatura, do que deve acontecer com o Sol daqui a alguns bilhões de anos.
Características
M57 é uma nebulosa planetária. O nome é um equívoco histórico: os primeiros observadores achavam que esses objetos redondos e esverdeados lembravam discos de planetas como Urano. Nada têm a ver com planetas. São estrelas de massa parecida com a do Sol que, no fim da vida, ejetam suas camadas externas e deixam à mostra um núcleo pequeno, denso e quente, a caminho de se tornar uma anã branca.
A radiação ultravioleta desse núcleo é o que faz o gás brilhar. Cada elemento responde em uma cor própria, e o Hubble as separou: o hélio domina o interior azul-escuro, hidrogênio e oxigênio brilham no anel interno azul-claro, e nitrogênio e enxofre dão o tom avermelhado da borda externa. No centro, a estrela que resta tem magnitude por volta de 15,8, fraca demais para telescópios pequenos, mas acessível a instrumentos grandes em noites excelentes.
A aparência de anel simples engana. Combinando dados do Hubble e de telescópios terrestres, os astrônomos mostraram em 2013 que a nebulosa tem a forma de uma rosquinha deformada, e que a estamos vendo quase exatamente de frente, por um dos polos. No "buraco" da rosquinha há uma região de gás menos denso com formato de bola de futebol americano, apontada para nós. Na borda interna do anel aparecem nós escuros de gás denso com caudas, que o vento da estrela ainda não conseguiu dissipar.
Onde fica no céu
Encontre Vega, a quinta estrela mais brilhante do céu, que no inverno brasileiro surge a nordeste no início da noite e cruza o norte baixo por volta das 22h. Ao lado dela, para o lado do horizonte, há um pequeno paralelogramo de quatro estrelas de brilho médio que forma o corpo da Lira. As duas estrelas da base desse paralelogramo, as mais distantes de Vega, são Sheliak e Sulafat. A Nebulosa do Anel fica praticamente no meio do caminho entre elas, um pouco mais perto de Sheliak.
Essa posição facilita muito a busca: aponte o telescópio para o ponto médio entre as duas estrelas com uma ocular de baixo aumento e a nebulosa estará no campo, parecendo uma estrela gordinha e fora de foco. Com declinação de +33°, ela é um objeto do hemisfério norte celeste e nunca sobe muito no Brasil; quanto mais ao norte do país você estiver, mais alto ela chega.
Como observar
A olho nu e em binóculos comuns a nebulosa é apenas um ponto difícil de distinguir de uma estrela fraca. O telescópio pequeno, de 70 mm a 100 mm, já faz o trabalho: com aumento de 40× a 60× ela aparece como um disco cinza pequeno e nítido, visivelmente diferente das estrelas ao redor. Suba para 100× a 150× e o centro escurece, revelando a forma de anel.
Em telescópios de 150 mm a 250 mm, com aumentos de 150× a 250×, o anel se mostra oval, com as extremidades mais tênues e o interior preenchido por um brilho fraco. A estrela central continua fora de alcance, mas a textura das bordas e um leve tom esverdeado começam a aparecer. A nebulosa suporta bem aumentos altos porque é pequena e tem brilho superficial elevado.
Filtros são muito eficazes em nebulosas planetárias. Um filtro OIII escurece o fundo e as estrelas vizinhas, aumentando drasticamente o contraste do anel, mesmo em céus urbanos. O UHC produz efeito parecido, um pouco mais suave. Uma técnica útil é o "piscar": alternar o filtro diante do olho para confirmar que um ponto difuso é nebulosa, pois ela permanece brilhante com o filtro enquanto as estrelas escurecem.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
O Norte e o Nordeste têm a melhor visão da Nebulosa do Anel no Brasil, justamente por estarem perto do equador: ela culmina a cerca de 55° em Belém, 53° em Fortaleza e 44° em Salvador. São alturas confortáveis, e a estação seca do meio do ano garante noites limpas no interior. Observe de junho a setembro, por volta das 21h a 22h, olhando para o norte.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia a nebulosa chega a cerca de 41° de altura; em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a cerca de 34°. Ainda são alturas boas, mas é preciso evitar a poluição luminosa do horizonte norte, que nas grandes cidades costuma ser forte. O inverno seco e estável de julho e agosto é a melhor época. Em telescópios pequenos, o filtro OIII ajuda a compensar o céu mais claro.
Sul
No Sul a Nebulosa do Anel é um objeto baixo. Com declinação de +33°, ela culmina a cerca de 27° em Porto Alegre e um pouco mais em Curitiba e Florianópolis, sempre sobre o horizonte norte. A luz atravessa uma camada mais espessa de atmosfera, o que reduz a nitidez, e qualquer cidade ao norte do observador borra o fundo. Mesmo assim, ela é detectável em telescópios pequenos; escolha noites muito transparentes de julho e agosto e observe perto da culminação, quando o objeto está mais alto.
Limitações e cuidados
- Entre dezembro e março a Lira está perto do Sol ou baixa demais ao anoitecer, e a nebulosa fica inacessível à noite.
- A estrela central, de magnitude cerca de 15,8, exige telescópio grande, céu excelente e aumento alto; não espere vê-la em instrumentos de entrada.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
A nebulosa foi descoberta em 1779 pelo astrônomo francês Antoine Darquier de Pellepoix, e Charles Messier a observou ainda no mesmo mês, enquanto acompanhava um cometa. Messier a incluiu em seu catálogo como o 57º objeto.
O Hubble fotografou a Nebulosa do Anel em 2013 e, combinando os dados com imagens de telescópios terrestres, mostrou que sua forma real é a de uma rosquinha deformada vista de frente, e não um anel plano.
O destino da estrela central, uma anã branca, é o mesmo destino previsto para o Sol. A diferença é que, quando isso acontecer, o Sol já terá engolido ou ressecado os planetas internos, inclusive a Terra.
Termos de apoio
Nebulosa planetária
Casca de gás expulsa por uma estrela de massa parecida com a do Sol no fim de sua vida, iluminada pelo núcleo quente que sobra no centro. Apesar do nome, não tem relação com planetas; a confusão vem do aspecto redondo que esses objetos têm em telescópios pequenos. Saiba mais →
Anã branca
Resto compacto e extremamente quente de uma estrela que esgotou seu combustível nuclear. Concentra a massa de uma estrela em um volume parecido com o da Terra e esfria lentamente ao longo de bilhões de anos. A estrela central de M57 está se tornando uma. Saiba mais →
Declinação
Coordenada celeste equivalente à latitude na Terra, medida em graus a partir do equador celeste. Um objeto com declinação +33°, como M57, passa pelo zênite na latitude 33° norte; do Brasil, ele é sempre visto baixo no norte. Saiba mais →
Filtro OIII
Filtro que deixa passar apenas a luz verde-azulada do oxigênio duplamente ionizado, muito intensa em nebulosas planetárias. Bloqueia o resto da luz, inclusive a poluição luminosa, e é o acessório mais eficaz para esse tipo de objeto. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — M 57 — tipo de objeto, identificadores, coordenadas, dimensão angular, paralaxe e magnitude da estrela central
- NASA Science — Hubble's Messier Catalog: Messier 57 — magnitude, distância, descoberta, localização entre Sheliak e Sulafat e composição por cores
- ESA/Hubble — Hubble reveals the Ring Nebula's true shape (heic1310) — forma de rosquinha deformada, orientação, descoberta em 1779 e estrela central
- ESA/Hubble — Hubble image of the Ring Nebula (Messier 57) (heic1310a) — imagem, crédito e distância de 2.500 anos-luz
Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.
Conteúdos relacionados

Lira
Minúscula mas cheia de atrativos, Lira tem Vega, a quinta estrela mais brilhante do céu, e a Nebulosa do Anel. Do Brasil ela aparece baixa no norte nas noites de inverno, mais alta quanto mais ao norte você estiver.

Vega
Estrela branca a 25 anos-luz que serviu de padrão para a escala de brilho. Gira tão rápido que é achatada e tem um grande disco de poeira. Do Brasil, aparece baixa no norte nas noites de inverno.

Cisne
Um cisne de asas abertas voando pela Via Láctea: Deneb na cauda, Albireo no bico e a Cruz do Norte no corpo. Do Brasil, a constelação aparece baixa no norte, no fim do inverno, e parte dela nem chega a nascer no Sul.

Nebulosa Hélix (NGC 7293)
A nebulosa planetária mais próxima da Terra aparece quase tão larga quanto meia Lua cheia, mas tão tênue que exige céu escuro e filtro. Passa alta sobre todo o Brasil nas noites de primavera.
Coordenadas celestes e o movimento do céu
O céu parece girar, muda com as estações e depende da sua latitude. Entenda o sistema de coordenadas que organiza tudo isso e aprenda a localizar o polo sul celeste, que não tem estrela polar.

O céu visto do Brasil
Do equador ao Chuí, o céu brasileiro mostra o Cruzeiro do Sul, as Nuvens de Magalhães e o centro da Via Láctea no alto, e ainda alcança Vega e Andrômeda. Entenda como a latitude muda o que você vê.