Lira
A pequena constelação de Vega, baixa no norte do céu brasileiro de inverno
Outros nomes e designações: Lyra, Lyr, A Lira, Lira de Orfeu
Melhor época no Brasil: Junho a setembro, no início da noite, baixa no horizonte norte
Visão geral
Lira é uma das menores constelações do céu, com apenas 286 graus quadrados, mas poucas concentram tanto interesse em tão pouco espaço. Sua estrela principal, Vega, é a quinta mais brilhante do céu noturno e uma das mais estudadas da história. Ao lado dela, um pequeno paralelogramo de estrelas de terceira e quarta magnitude desenha o instrumento musical que dá nome à constelação.
Para quem observa do Brasil, Lira é um caso típico de constelação boreal: fica entre as declinações +26° e +48°, bem ao norte do equador celeste. Ela nunca sobe muito, e a altura máxima depende da latitude: no Norte do país chega a meio caminho do zênite; no Sul, mal passa de 20° acima do horizonte norte.
Características
Vega (α Lyr) tem magnitude 0,03 e é uma estrela branca de tipo A0, a 25 anos-luz, segundo a paralaxe do SIMBAD. Sua cor branca pura é referência: durante décadas ela serviu como ponto zero para calibrar a escala de magnitudes e as cores das estrelas.
Sheliak (β Lyr), de magnitude média 3,4, é uma binária eclipsante em que duas estrelas tão próximas trocam matéria entre si; seu brilho varia de forma contínua ao longo de poucos dias, algo que se pode acompanhar comparando-a a Sulafat (γ Lyr), de magnitude 3,25, logo ao lado. As duas marcam a base do paralelogramo. Sheliak fica a cerca de 900 anos-luz e Sulafat a cerca de 660 anos-luz.
Perto de Vega está ε Lyr, a famosa "dupla-dupla". Olhos muito bons, em céu escuro, separam duas estrelas de quarta magnitude; um telescópio pequeno com boa ampliação mostra que cada uma delas é, por sua vez, uma dupla fechada. O sistema fica a cerca de 160 anos-luz.
Entre Sheliak e Sulafat está M57, a Nebulosa do Anel, uma nebulosa planetária de magnitude 8,8 a cerca de 2.000 anos-luz, segundo a NASA. Em telescópios pequenos ela aparece como um minúsculo anel de fumaça de pouco mais de 1 minuto de arco, o que a torna uma das nebulosas planetárias mais fáceis de reconhecer. A estrela central, uma anã branca, só é visível em instrumentos grandes.
Na borda com a Raposa fica M56, um aglomerado globular de magnitude 8,3 a cerca de 33.000 anos-luz, pouco concentrado, visível como uma mancha granulada em telescópios de 100 mm ou mais. Lira também fica no campo observado pelo telescópio espacial Kepler, por isso reúne centenas de exoplanetas conhecidos.
Onde fica no céu
Nas noites de inverno brasileiro, olhe para o norte por volta das 21h. A estrela branca brilhante e isolada, não muito alta, é Vega. Ela forma com Deneb, no Cisne, e Altair, na Águia, o grande Triângulo de Verão do hemisfério norte, que para nós é um triângulo de inverno. Altair fica mais alta, quase sobre o equador celeste, e Deneb, mais baixa, a nordeste de Vega.
Com Vega localizada, procure logo abaixo dela, no sentido do horizonte, o pequeno paralelogramo formado por Sheliak, Sulafat, δ Lyr e ζ Lyr. Do Brasil, a figura aparece invertida em relação aos mapas do hemisfério norte: Vega fica em cima e o paralelogramo embaixo.
As constelações vizinhas são Dragão (Draco) ao norte, Hércules a oeste, Raposa (Vulpecula) ao sul e Cisne a leste.
Como observar
Vega é visível a olho nu de qualquer cidade, mas o paralelogramo exige céu razoável, principalmente porque a constelação fica baixa e a poluição luminosa é mais intensa perto do horizonte.
Um binóculo mostra ε Lyr como uma dupla larga. Um telescópio de 80 mm a 100 mm é o instrumento ideal para M57 e para desdobrar a dupla-dupla; M56 e a estrela central do Anel pedem abertura maior. Como a constelação não sobe muito, observe-a quando cruza o meridiano, no ponto mais alto.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
É onde Lira se vê melhor no país. Em Belém, Vega culmina a cerca de 50° de altura, e em Fortaleza a cerca de 47°, mais da metade do caminho até o zênite. Em Salvador ela chega a cerca de 38°. O inverno é a estação seca na maior parte da região, com noites limpas, o que compensa a altura modesta. De junho a agosto, a constelação está bem posicionada por volta das 21h.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia, Vega não passa de cerca de 35° de altura; em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, de cerca de 28°. É uma altura suficiente para ver a figura e tentar M57, mas o paralelogramo fica na faixa mais poluída do céu urbano. Procure horizonte norte livre de prédios e de luzes. A estação seca de junho a agosto ajuda muito.
Sul
Para quem observa de Porto Alegre, Florianópolis ou Curitiba, Lira é um alvo difícil. Vega culmina a apenas cerca de 21° de altura, e a borda norte da constelação, perto de +48°, não sobe mais de 12°. Tudo fica mergulhado na camada baixa e turbulenta do céu norte. Ainda assim, em um local escuro e com horizonte limpo, Vega é inconfundível e a Nebulosa do Anel pode ser vista em noites muito estáveis de julho e agosto.
Limitações e cuidados
- Lira fica no céu diurno entre dezembro e janeiro; volta a aparecer de madrugada a partir de março.
- Por ser boreal, a constelação nunca passa alta no Brasil e sofre mais com turbulência, extinção atmosférica e poluição luminosa do horizonte norte.
- A Lua cheia apaga o paralelogramo e torna M57 e M56 invisíveis em telescópios pequenos.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Na mitologia grega, a constelação é a lira de Orfeu, o músico cujo canto encantava feras, árvores e pedras. Depois de perder Eurídice pela segunda vez, ao olhar para trás na saída do mundo dos mortos, Orfeu foi morto, e Zeus colocou seu instrumento entre as estrelas.
Vega foi a estrela polar do hemisfério norte há cerca de 14 mil anos e voltará a ocupar essa posição em cerca de 12 mil anos, por causa da precessão do eixo da Terra (fonte: Wikipedia, verbete Lyra).
A Nebulosa do Anel foi descoberta por Antoine Darquier de Pellepoix em 1779, segundo a NASA, e foi a segunda nebulosa planetária encontrada. É um casulo de gás ejetado por uma estrela parecida com o Sol em sua fase final, iluminado pela anã branca que restou no centro.
A chuva de meteoros Lírides, que irradia de perto de Vega e tem pico por volta de 22 de abril, é uma das mais antigas de que se tem registro: segundo a NASA, observações chinesas a descrevem há cerca de 2.700 anos. Seu corpo de origem é o cometa C/1861 G1 Thatcher.
Termos de apoio
Constelação boreal
Constelação situada ao norte do equador celeste, com declinações positivas. Do Brasil, ela aparece sempre no lado norte do céu, e sua altura máxima diminui quanto mais ao sul estiver o observador; Lira, com Vega em +39°, é um exemplo claro. Saiba mais →
Nebulosa planetária
Envoltório de gás brilhante lançado por uma estrela de massa parecida com a do Sol no fim da vida. Não tem relação com planetas; o nome vem do aspecto de disco em telescópios antigos. M57 é o exemplo mais famoso. Saiba mais →
Magnitude aparente
Escala de brilho em que números menores indicam astros mais brilhantes. Vega, com 0,03, serviu por muito tempo como referência de magnitude zero. M57, com 8,8, precisa de telescópio. Saiba mais →
Altura no céu
Ângulo entre o horizonte e o astro, de 0° a 90°. Para uma estrela que cruza o meridiano, ela vale 90° menos a diferença entre sua declinação e a latitude do observador. Perto do horizonte, a atmosfera reduz o brilho e aumenta a turbulência. Saiba mais →
Fontes consultadas
- IAU — The Constellations (página oficial arquivada, com cartas Sky & Telescope e arquivos de fronteira) — abreviação, genitivo, fronteiras de Delporte (1930) e vértices em ascensão reta e declinação (arquivo lyr.txt)
- Wikipedia (en) — IAU designated constellations by solid angle (tabela baseada em Delporte, 1930) — área de 286,476 graus quadrados e 52ª posição; fonte secundária, usada para o valor da área
- SIMBAD (CDS) — Vega, Sheliak (bet Lyr), Sulafat (gam Lyr), eps01 Lyr — magnitudes, tipos espectrais e paralaxes; distâncias calculadas a partir das paralaxes; β Lyr classificada como binária espectroscópica
- NASA — Hubble's Messier Catalog: Messier 57 e Messier 56 — magnitudes 8,8 e 8,3, distâncias de 2.000 e 33.000 anos-luz, descoberta de M57 em 1779
- SIMBAD (CDS) — M 57 — diâmetro aparente de 1,15 minuto de arco
- NASA Science — Lyrids — pico em 22 de abril, cometa Thatcher e registros chineses de cerca de 2.700 anos
- Wikipedia (en) — Lyra — mitologia de Orfeu, Vega como antiga estrela polar, campo do Kepler e constelações vizinhas; fonte secundária
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Vega
Estrela branca a 25 anos-luz que serviu de padrão para a escala de brilho. Gira tão rápido que é achatada e tem um grande disco de poeira. Do Brasil, aparece baixa no norte nas noites de inverno.

Nebulosa do Anel (M57)
Um anel de gás brilhante expelido por uma estrela moribunda, visto quase de frente. É o exemplo clássico de nebulosa planetária e um alvo fácil para telescópios pequenos nas noites de inverno.

Cisne
Um cisne de asas abertas voando pela Via Láctea: Deneb na cauda, Albireo no bico e a Cruz do Norte no corpo. Do Brasil, a constelação aparece baixa no norte, no fim do inverno, e parte dela nem chega a nascer no Sul.

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