Aglomerado Colmeia (M44, Presépio)
A "nuvenzinha" de Câncer que Galileu resolveu em estrelas
Outros nomes e designações: M44, Messier 44, NGC 2632, Presépio, Praesepe, Beehive Cluster, Melotte 88
Melhor época no Brasil: Fevereiro a abril, no início da noite, voltado para o norte; em janeiro nasce a nordeste depois das 21h e em maio já declina a oeste
Visão geral
O Aglomerado Colmeia é a razão de Câncer, uma constelação apagada e sem estrelas brilhantes, merecer uma visita. No meio do Caranguejo há uma mancha nebulosa visível a olho nu, conhecida desde a Antiguidade como Presépio, a manjedoura de onde dois burrinhos celestes se alimentam. Foi um dos primeiros objetos que Galileu apontou com seu telescópio, e ele descobriu que a nuvenzinha era um enxame de estrelas.
Hoje sabemos que M44 é um dos aglomerados abertos mais próximos do Sol, a cerca de 600 anos-luz, com cerca de mil estrelas espalhadas por uma área de três diâmetros lunares. Para o observador brasileiro ele é um objeto do verão e do outono, voltado para o norte, e um dos melhores alvos para quem está começando a usar um binóculo.
Características
M44 é um aglomerado aberto de idade avançada para esse tipo de objeto: a NASA estima entre 600 e 700 milhões de anos, e a análise dos dados do Hipparcos chegou a cerca de 730 milhões. Nessa idade as estrelas azuis mais massivas já desapareceram, e o aglomerado é dominado por estrelas brancas e amarelas parecidas com o Sol, além de pelo menos cinco gigantes alaranjadas e algumas anãs brancas.
A distância de cerca de 600 anos-luz foi medida pelo Hipparcos, que obteve 577 anos-luz, e refinada pelo Gaia, cuja paralaxe média de 5,371 milissegundos de arco corresponde a 186 parsecs, cerca de 610 anos-luz. Levantamentos modernos contam cerca de mil membros, dos quais mais de 200 foram confirmados pelo movimento comum no céu; os demais são estrelas fracas e difíceis de separar das estrelas de fundo.
O dado mais intrigante sobre o Colmeia é sua semelhança com as Híades, no Touro. Os dois aglomerados têm praticamente a mesma idade e se movem na mesma direção pelo espaço, embora estejam hoje separados por centenas de anos-luz. A hipótese mais aceita é que ambos nasceram da mesma grande nuvem de gás, há 700 a 800 milhões de anos, e se afastaram desde então. Isso explica por que suas populações de estrelas são tão parecidas, incluindo gigantes vermelhas e anãs brancas em ambos.
Entre as estrelas do aglomerado há a binária eclipsante TX Cancri e várias variáveis do tipo Delta Scuti, de magnitudes 7 a 8. Em 2012 astrônomos encontraram dois planetas gigantes orbitando estrelas parecidas com o Sol em M44, os primeiros planetas descobertos em torno de estrelas desse tipo em um aglomerado aberto.
Onde fica no céu
Câncer fica entre Gêmeos e Leão, duas constelações mais fáceis. Localize Pollux e Castor, as estrelas gêmeas, e Regulus, a estrela mais brilhante do Leão. O Aglomerado Colmeia está mais ou menos a meio caminho entre Pollux e Regulus, um pouco deslocado para o sul da linha que as une. Em céu escuro você verá uma mancha difusa; em céu urbano, use o binóculo para varrer essa região.
Duas estrelas de Câncer ajudam a confirmar o alvo: Gamma e Delta Cancri, os "burrinhos" Asellus Borealis e Asellus Australis, ficam logo ao norte e ao sul do aglomerado, a cerca de 2° dele. Com declinação de +20°, M44 culmina por volta das 21h em março e fica mais alto quanto mais ao norte o observador estiver no Brasil.
Como observar
A olho nu, em céu escuro, o Colmeia é uma mancha nebulosa clara de magnitude 3,7, maior que a Lua, e observadores com boa visão distinguem alguns pontos dentro dela. Em céu urbano ele some com facilidade, e nessa situação a dica da NASA é procurar o ponto médio entre Pollux e Regulus com binóculo.
O binóculo é o instrumento perfeito. Um 7×50 ou 10×50 mostra cerca de 20 estrelas brilhantes dispostas em pares e pequenos triângulos, com um aspecto de enxame que justifica o nome Colmeia. O aglomerado preenche boa parte do campo e tem um ar espalhado, menos compacto que as Plêiades.
Em telescópio pequeno, com a menor ampliação disponível, dezenas a centenas de estrelas aparecem, muitas em pares largos, mas o conjunto deixa de caber na ocular. Telescópios médios não acrescentam muito ao aglomerado em si; use-os para examinar as gigantes alaranjadas e comparar cores entre as estrelas.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Esta é a região em que o Colmeia fica mais alto: cerca de 69° de altura em Belém, 67° em Fortaleza e 57° em Salvador, voltado para o norte. O problema é o clima, pois fevereiro a abril são meses chuvosos na Amazônia e no litoral nordestino. Aproveite as aberturas entre as chuvas e as noites de maio, quando o aglomerado ainda está razoavelmente alto no início da noite e o tempo começa a melhorar.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia o aglomerado culmina a cerca de 55° de altura; em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, a cerca de 47°, sempre na metade norte do céu. São alturas boas para binóculo. O fim do verão ainda traz nebulosidade, mas abril costuma oferecer noites limpas e secas, com M44 ainda alto por volta das 20h e 21h.
Sul
No Sul o Colmeia é o mais baixo do país: cerca de 40° em Porto Alegre e um pouco mais em Curitiba. Ainda é uma altura aceitável, mas a luz de cidades ao norte do observador pode atrapalhar. O outono gaúcho costuma ter noites estáveis, e março e abril entre 20h e 22h são o melhor período.
Limitações e cuidados
- Entre julho e setembro Câncer está perto do Sol e o aglomerado não pode ser visto; retorna à madrugada em outubro.
- O Colmeia é muito sensível à poluição luminosa a olho nu; em cidades grandes só aparece em binóculo.
- Como está perto da eclíptica, a Lua passa por perto todo mês e, quando cheia ou quase, apaga o aglomerado quase completamente.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Gregos e romanos viam a mancha como uma manjedoura, Phatne em grego e Praesepe em latim, da qual dois burros se alimentavam: Asellus Borealis e Asellus Australis, as estrelas Gamma e Delta Cancri. Segundo Eratóstenes, eram os burros montados por Dionísio e Sileno na batalha contra os Titãs; o zurro dos animais assustou os inimigos e, como recompensa, os deuses os colocaram no céu junto com a manjedoura.
O aglomerado foi usado na Antiguidade como indicador meteorológico. Arato, por volta de 260 a.C., chamou-o de "pequena névoa" e Hiparco, em 130 a.C., o incluiu em seu catálogo como "estrela nebulosa". Ptolomeu o descreveu no Almagesto como "a massa nebulosa no peito do Caranguejo", uma das sete nebulosas de seu catálogo.
Galileu foi o primeiro a resolver o Presépio em estrelas, no início do século XVII, e relatou que a "nebulosa" não era uma estrela só, mas uma massa de mais de 40 pequenas estrelas. Foi uma das primeiras demonstrações de que o telescópio revelava um céu diferente do que os olhos mostravam.
Termos de apoio
Aglomerado aberto
Grupo de dezenas a milhares de estrelas nascidas juntas da mesma nuvem, fracamente ligadas pela gravidade. M44, com 600 a 700 milhões de anos, já perdeu suas estrelas mais massivas e está lentamente se dispersando. Saiba mais →
Movimento próprio
Deslocamento lento de uma estrela no céu ao longo dos anos. Estrelas de um mesmo aglomerado compartilham o movimento próprio, o que permitiu confirmar mais de 200 membros de M44 e revelar sua ligação com as Híades. Saiba mais →
Eclíptica
Caminho aparente do Sol no céu ao longo do ano, pelo qual também passam a Lua e os planetas. M44 fica perto da eclíptica, por isso é frequentemente visitado pela Lua e por planetas brilhantes. Saiba mais →
Magnitude aparente
Escala de brilho em que números menores indicam astros mais brilhantes. A magnitude integrada de 3,7 de M44 soma a luz de centenas de estrelas, por isso o aglomerado é visível a olho nu mesmo sem nenhum membro brilhante. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — M 44 (NGC 2632, Praesepe) — tipo de objeto, coordenadas, paralaxe Gaia DR2 (5,371 mas), tamanho e designações
- SEDS Messier Database — Messier 44 (Praesepe, Beehive Cluster) — tamanho 95′, distância Hipparcos de 577 anos-luz, idade de 730 milhões de anos, mais de 200 membros confirmados, semelhança com as Híades, estrelas notáveis, histórico (Arato, Hiparco, Ptolomeu, Galileu, Messier) e mitologia
- NASA Science — Hubble Messier Catalog: Messier 44 — distância de 600 anos-luz, magnitude 3,7, cerca de 1.000 estrelas, idade de 600 a 700 milhões de anos, Galileu, dicas de localização
- NASA Exoplanet Archive — Pr0211 — planetas descobertos por velocidade radial em estrelas de M44 (Quinn et al. 2012)
Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.
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