Aglomerado de Ptolomeu (M7)
O aglomerado aberto da cauda do Escorpião, registrado há quase dois mil anos
Outros nomes e designações: M7, Messier 7, NGC 6475, Ptolemy's Cluster, Lacaille II.14, Halley 29
Melhor época no Brasil: Junho a agosto, no início da noite, com o Escorpião alto; em maio nasce a sudeste depois das 21h e em setembro já declina a oeste
Visão geral
O Aglomerado de Ptolomeu é o objeto mais ao sul do catálogo de Messier e um dos mais fáceis de encontrar a olho nu. Ele aparece como uma mancha luminosa logo depois do ferrão do Escorpião, em uma das regiões mais ricas da Via Láctea, bem na direção do centro da galáxia. Quem já olhou para o céu de inverno do Brasil e notou um borrão brilhante perto da cauda do Escorpião viu o M7 sem saber.
O aglomerado carrega esse nome porque foi descrito por Cláudio Ptolomeu, o astrônomo de Alexandria, por volta do ano 130, em sua obra conhecida como Almagesto. É provavelmente o registro mais antigo de um aglomerado estelar que não seja as Plêiades ou o Presépio.
Características
M7 é um aglomerado aberto de idade intermediária. A NASA estima que ele se formou há cerca de 220 milhões de anos, valor que coincide com o cálculo do grupo de Genebra liderado por Georges Meynet; um estudo de 2009 de Zhen-Yu Wu e colegas chegou a cerca de 300 milhões. É mais velho que as Plêiades, mas bem mais jovem que as Híades e o Aglomerado Colmeia, e por isso ainda conserva algumas estrelas azuis de tipo B.
A distância é de cerca de 980 anos-luz, segundo a NASA. A paralaxe média de 3,570 milissegundos de arco medida pelo Gaia e registrada no SIMBAD equivale a 280 parsecs, cerca de 910 anos-luz, dentro da margem das estimativas anteriores. A essa distância, o diâmetro aparente de 80 minutos de arco corresponde a um aglomerado com cerca de 20 a 25 anos-luz de ponta a ponta.
Segundo a compilação do SEDS, o aglomerado tem cerca de 80 estrelas mais brilhantes que magnitude 10. A mais brilhante é uma gigante amarela de tipo G8 e magnitude 5,6, e as mais quentes são estrelas azuis de tipo B6 de magnitude 5,9. A mistura de estrelas azuis e amarelo-alaranjadas dá ao campo uma variedade de tons perceptível em binóculo.
Onde fica no céu
Encontre a cauda curva do Escorpião e localize o ferrão, formado pelas estrelas Shaula (Lambda Scorpii) e Lesath (Upsilon Scorpii), um par brilhante e muito próximo. O Aglomerado de Ptolomeu fica cerca de 5° a leste-nordeste do ferrão, na direção do Sagitário. A olho nu ele aparece como uma mancha difusa de magnitude 3, maior que a Lua cheia.
A cerca de 4° a noroeste de M7 está o Aglomerado Borboleta (M6), menor e mais fraco. Os dois cabem no campo de um binóculo de grande angular e formam uma das duplas mais bonitas do céu. Com declinação de −35°, M7 passa perto do zênite no Sul do Brasil e alto em todo o país, culminando por volta das 21h em julho.
Como observar
A olho nu, em céu escuro, M7 é um dos poucos aglomerados em que se percebe uma textura granulada, com algumas estrelas individuais saltando da mancha. Em céu urbano ele sobrevive como um borrão fraco, e às vezes é confundido com uma nuvem pequena.
O binóculo é o instrumento ideal. Um 7×50 ou 10×50 mostra dezenas de estrelas, com as mais brilhantes formando uma cruz ou um X irregular no centro e um fundo pontilhado de estrelas da Via Láctea. A diferença de cor entre a gigante amarela e as estrelas azuis é perceptível em noites limpas.
Em telescópio pequeno, use a menor ampliação disponível: com mais de 1° de diâmetro, o aglomerado só cabe inteiro em oculares de campo largo. A 30 ou 40 vezes ele é um campo denso de estrelas brilhantes bem separadas, mais esparso e mais brilhante que M6. Ampliações maiores perdem o conjunto, mas permitem passear pelas estrelas de fundo.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Em Belém e Fortaleza o aglomerado culmina a cerca de 57° a 59° de altura, voltado para o sul; em Salvador, perto de 68°. São alturas confortáveis, e o inverno é a estação seca em boa parte do Norte e do Nordeste, o que garante muitas noites limpas de junho a agosto. É um dos melhores objetos de céu profundo para o observador amazônico iniciante.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia M7 culmina a cerca de 71° de altura; em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, a cerca de 79°, quase sobre a cabeça. Combinado ao inverno seco do Centro-Oeste e do interior do Sudeste, isso faz de junho e julho o melhor período do ano para observá-lo, por volta das 21h. Em céu rural ele é visível a olho nu sem esforço.
Sul
No Sul o aglomerado passa praticamente pelo zênite: cerca de 85° em Porto Alegre e perto de 88° em Curitiba e Florianópolis. É a melhor posição possível, longe de qualquer turbulência de horizonte. O inverno gaúcho alterna períodos de nebulosidade com noites muito limpas após frentes frias; aproveite estas últimas, entre junho e agosto, quando o Escorpião está alto no início da noite.
Limitações e cuidados
- Entre novembro e janeiro o Escorpião está perto do Sol e M7 não pode ser visto; ele retorna à madrugada em fevereiro.
- O aglomerado é grande demais para telescópios de longa distância focal; em oculares de campo estreito ele vira apenas um campo estelar sem forma.
- Com Lua cheia ou poluição luminosa forte o fundo da Via Láctea desaparece e M7 perde boa parte de seu charme, embora continue visível.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
No Almagesto, Ptolomeu descreveu o objeto como "a nebulosa que segue o ferrão do Escorpião" e o incluiu entre as poucas "estrelas nebulosas" de seu catálogo. Essa descrição foi repetida pelo astrônomo persa Al-Sufi por volta de 964 e por Ulugh Beg no século XV, e o desenho de Al-Sufi do Escorpião mostra a mancha perto da posição correta de M7.
O nome "Aglomerado de Ptolomeu" é recente. Ele foi proposto por Hartmut Frommert, responsável pelo banco de dados Messier do SEDS, no fim do século XX, para homenagear o registro antigo, e acabou adotado por observadores e pela própria NASA.
Antes de Messier, o aglomerado já havia sido observado por Giovanni Battista Hodierna, que contou 30 estrelas nele antes de 1654, por Edmond Halley, que o listou como número 29 em seu catálogo de estrelas do sul de 1678, e por Nicolas-Louis de Lacaille, que o registrou como Lacaille II.14 em 1751 e 1752.
Observadores do hemisfério norte subestimaram o brilho de M7 durante séculos, atribuindo-lhe magnitudes entre 4 e 5. O motivo é simples: visto da Europa, o aglomerado nunca sobe muito acima do horizonte sul, e a extinção atmosférica rouba parte de sua luz. Do Brasil, onde ele passa perto do zênite, o valor moderno de 3,3 faz todo o sentido.
Termos de apoio
Aglomerado aberto
Grupo de dezenas a milhares de estrelas que nasceram juntas e viajam juntas, fracamente ligadas pela gravidade. M7 é um aglomerado aberto de idade média, com cerca de 220 milhões de anos. Saiba mais →
Magnitude aparente
Escala de brilho em que números menores indicam astros mais brilhantes. A magnitude integrada de 3,3 de M7 soma a luz de todas as suas estrelas, o que o torna visível a olho nu como uma mancha. Saiba mais →
Catálogo de Messier
Lista de 110 objetos difusos compilada pelo caçador de cometas Charles Messier no século XVIII para não confundi-los com cometas. M7 é o objeto mais ao sul da lista, com declinação de −35°. Saiba mais →
Zênite
Ponto do céu diretamente acima da cabeça do observador. Objetos que passam pelo zênite são vistos através da menor camada possível de atmosfera; M7 passa quase pelo zênite no Sul do Brasil. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — M 7 (NGC 6475) — tipo de objeto, coordenadas, paralaxe Gaia DR2 (3,5704 mas), tamanho e designações
- SEDS Messier Database — Messier 7 (Ptolemy's Cluster) — magnitude 3,3, tamanho 80′, número de estrelas, estrelas mais brilhantes, histórico (Ptolomeu, Al-Sufi, Hodierna, Halley, Lacaille, Messier), órbita galáctica (Wu et al. 2009)
- NASA Science — Hubble Messier Catalog: Messier 7 — distância de 980 anos-luz, magnitude 3,3, cerca de 80 estrelas, idade de 220 milhões de anos, Ptolomeu em 130 d.C., Messier em 1764; imagem do Hubble e crédito
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Escorpião (Scorpius)
A supergigante vermelha Antares marca o coração de um escorpião que se estende por 500 graus quadrados de Via Láctea. Do Brasil ele passa quase a pino nas noites de inverno, cheio de aglomerados visíveis a olho nu.
Antares
Supergigante vermelha que marca o coração do Escorpião, a cerca de 550 anos-luz e com 680 vezes o raio do Sol. Passa pelo zênite do Sul e do Sudeste do Brasil nas noites de inverno.
Aglomerado Borboleta (M6)
Cerca de 80 estrelas a 1.600 anos-luz dispostas como uma borboleta de asas abertas, com a gigante alaranjada BM Scorpii em uma das pontas. Vizinho do M7, é um dos melhores alvos de binóculo do inverno brasileiro.

Nebulosa da Lagoa (M8)
Uma das poucas nebulosas visíveis a olho nu, a Lagoa é uma nuvem de gás brilhante cortada por uma faixa escura, com um aglomerado jovem dentro. Passa quase sobre a cabeça no Brasil nas noites de inverno.

Sagitário (Sagittarius)
Na direção do Sagitário fica o centro da Via Láctea, e por isso nenhuma constelação concentra tantos aglomerados e nebulosas visíveis em binóculos. Suas estrelas formam o asterismo do Bule de Chá, alto no céu de inverno do Brasil.

Via Láctea
A faixa esbranquiçada que cruza o céu em noites escuras é o disco da nossa própria galáxia, visto de dentro. O Brasil tem o centro dela quase sobre a cabeça nas noites de inverno.