Cão Maior
A constelação de Sirius, companheira fiel de Órion no céu de verão
Outros nomes e designações: Canis Major, CMa, Cão Grande, Grande Cão
Melhor época no Brasil: Novembro a abril, no início da noite; passa perto do zênite no Sudeste
Visão geral
O Cão Maior é a constelação que todo iniciante acaba aprendendo sem querer, porque dentro dela está Sirius, a estrela mais brilhante de todo o céu noturno. Nas noites de verão, basta encontrar o ponto branco-azulado que ofusca tudo em volta para já estar olhando para o pescoço do cão. A partir dele, o resto da figura se revela com facilidade.
Apesar de ocupar apenas 380 graus quadrados, o que a coloca na 43ª posição entre as 88 constelações oficiais, ela concentra um número incomum de estrelas brilhantes: cinco delas superam a magnitude 2,5. Para quem observa do Brasil, há um bônus geográfico. A constelação fica entre as declinações −11° e −33°, de modo que ela cruza o meridiano quase exatamente sobre a cabeça em boa parte do país.
Características
Sirius (α CMa) domina a cena com magnitude −1,46. Ela brilha tanto porque está muito perto, a 8,6 anos-luz, e não por ser especialmente luminosa. Ao redor dela orbita uma anã branca, Sirius B, um alvo difícil mesmo para telescópios médios. A segunda estrela da constelação é Adhara (ε CMa), de magnitude 1,50, uma gigante azul de tipo B1,5 a cerca de 400 anos-luz, situada na parte de baixo da figura, na pata traseira do cão.
Completam o esqueleto da constelação Wezen (δ CMa, magnitude 1,84), uma supergigante amarela de tipo F8 a cerca de 1.600 anos-luz; Mirzam (β CMa, magnitude 1,97), uma estrela azul de tipo B1 a cerca de 490 anos-luz, que fica logo a oeste de Sirius; e Aludra (η CMa, magnitude 2,45), supergigante azul de tipo B5 a cerca de 2.000 anos-luz, que marca a cauda. As distâncias vêm das paralaxes do SIMBAD e, para as supergigantes, têm incerteza considerável.
O objeto de céu profundo mais conhecido é M41 (NGC 2287), um aglomerado aberto de magnitude 4,5 e cerca de 40 minutos de arco de diâmetro, apenas 4° ao sul de Sirius. Em céu escuro ele aparece a olho nu como uma mancha difusa, e em binóculos se desfaz em dezenas de estrelas. A paralaxe média de seus membros, de 1,36 milissegundo de arco, corresponde a cerca de 2.400 anos-luz.
Outro aglomerado interessante é NGC 2362, reunido em torno da estrela τ CMa, um grupo de estrelas jovens muito compacto que fica bonito em telescópios pequenos. Na mesma região da constelação está VY Canis Majoris, uma supergigante vermelha de tipo M5 e magnitude visual em torno de 8,7, considerada uma das maiores estrelas conhecidas; ela fica envolta em uma nuvem de gás e poeira que ela mesma expeliu.
Onde fica no céu
O caminho mais fácil começa em Órion. Siga a linha das Três Marias, o Cinturão de Órion, no sentido oposto ao de Aldebaran, a estrela alaranjada do Touro. Depois de cerca de 20°, o equivalente a uma mão aberta com o braço esticado, você encontra Sirius. Não há como errar: nenhuma outra estrela da vizinhança chega perto do seu brilho.
Com Sirius identificada, procure Mirzam poucos graus a oeste e, bem abaixo, o triângulo formado por Adhara, Wezen e Aludra, que desenha as patas e a cauda do cão. A figura inteira cabe em cerca de 20° de altura. Sirius também forma, com Betelgeuse em Órion e Procyon no Cão Menor, um grande triângulo que ajuda a organizar todo o céu de verão.
As constelações vizinhas são Unicórnio (Monoceros) a norte e leste, Lebre (Lepus) a oeste, Pomba (Columba) a sudoeste e Popa (Puppis) a sul e leste.
Como observar
A olho nu, o Cão Maior é visível até de cidades grandes: Sirius, Adhara, Wezen e Mirzam resistem à poluição luminosa. A figura completa, com as estrelas de magnitude 3 e 4, pede um céu de subúrbio ou melhor.
Binóculos revelam M41 como um enxame de estrelas e mostram o contraste de cor de Sirius com as estrelas vizinhas. Um telescópio pequeno resolve NGC 2362 e permite tentar VY CMa, que aparece como um ponto avermelhado. Sirius B, a anã branca, exige abertura de 150 mm ou mais e muita estabilidade atmosférica.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
De Belém e Fortaleza, Sirius culmina a cerca de 75° de altura, e o centro da constelação, perto da declinação −22°, chega a cerca de 70°. Em Salvador a figura passa praticamente sobre a cabeça. O desafio da região é o clima: a estação chuvosa amazônica e o inverno nordestino coincidem com a melhor época da constelação. Aproveite as noites limpas de novembro e dezembro, quando o Cão Maior já está alto por volta das 23h.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília, Goiânia e Cuiabá, Sirius cruza o meridiano quase no zênite; em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, é o centro da constelação que passa sobre a cabeça, com Sirius a cerca de 83° de altura. A janela mais confortável vai de janeiro a março, por volta das 21h, embora as chuvas de verão exijam paciência. Em abril a constelação já está a oeste no início da noite.
Sul
De Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba, Sirius ainda chega a 75° a 80° de altura, e o verão costuma trazer noites mais secas do que no Centro-Oeste. É uma região excelente para acompanhar o Cão Maior de dezembro a abril. Em maio a constelação começa a se despedir cedo pelo oeste.
Limitações e cuidados
- Entre junho e julho o Sol passa perto do Cão Maior e a constelação fica invisível; ela reaparece na madrugada em agosto.
- A Lua cheia não apaga Sirius, mas esconde M41 e as estrelas mais fracas que dão forma ao cão.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Na mitologia grega, a constelação costuma ser associada a um dos cães de Órion, que segue o caçador pelo céu. Outra tradição a identifica com Laelaps, o cão tão veloz que jamais deixava escapar uma presa, colocado entre as estrelas por Zeus. A constelação é uma das 48 descritas por Ptolomeu no século II.
No Egito antigo, Sirius era Sopdet, e seu primeiro aparecimento no céu da manhã anunciava a cheia do Nilo. Esse nascer helíaco serviu de base para o calendário egípcio, um dos exemplos mais antigos de astronomia aplicada à vida cotidiana.
A expressão "dias de cão", usada em várias línguas europeias para o auge do calor de verão no hemisfério norte, vem do Cão Maior: gregos e romanos acreditavam que Sirius, ao nascer junto com o Sol, somava seu calor ao dele.
As fronteiras atuais foram traçadas por Eugène Delporte para a União Astronômica Internacional e publicadas em 1930. A abreviação CMa usa a inicial de cada palavra do nome latino para não se confundir com Canis Minor (CMi).
Termos de apoio
Magnitude aparente
Escala de brilho em que números menores indicam astros mais brilhantes. Sirius tem −1,46; Adhara, 1,50; M41, 4,5. A olho nu, em céu escuro, enxergamos até cerca de magnitude 6. Saiba mais →
Aglomerado aberto
Grupo de dezenas a milhares de estrelas que nasceram juntas da mesma nuvem de gás e ainda viajam juntas. M41 é um exemplo clássico, fácil em binóculos. Saiba mais →
Declinação
Coordenada celeste equivalente à latitude na Terra. Um astro passa pelo zênite de quem está na latitude igual à sua declinação; por isso o Cão Maior, entre −11° e −33°, cruza o alto do céu em quase todo o Brasil. Saiba mais →
Paralaxe
Pequeno deslocamento aparente de uma estrela conforme a Terra gira em torno do Sol. Quanto menor a paralaxe, mais distante a estrela; é assim que se medem as distâncias citadas neste verbete. Saiba mais →
Fontes consultadas
- IAU — The Constellations (página oficial arquivada, com cartas Sky & Telescope e arquivos de fronteira) — abreviação, genitivo, fronteiras de Delporte (1930) e vértices em ascensão reta e declinação (arquivo cma.txt)
- Wikipedia (en) — IAU designated constellations by solid angle (tabela baseada em Delporte, 1930) — área de 380,118 graus quadrados e posição no ranking; fonte secundária, usada para o valor numérico da área
- SIMBAD (CDS) — Sirius, Adhara, Wezen, Mirzam, Aludra, VY CMa — magnitudes, tipos espectrais e paralaxes; distâncias calculadas a partir das paralaxes
- SIMBAD (CDS) — M 41 e NGC 2362 — magnitude 4,5, diâmetro aparente de 39,8′ e paralaxe média de M41; coordenadas de NGC 2362
Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.
Conteúdos relacionados

Sirius
A estrela mais brilhante do céu noturno fica a apenas 8,6 anos-luz e esconde uma anã branca em órbita. Fácil de achar a olho nu em qualquer lugar do Brasil nas noites de verão.

Órion (Orion)
A constelação mais fácil de reconhecer do céu de verão. As Três Marias marcam o cinturão do caçador, entre a supergigante vermelha Betelgeuse e a azul Rigel, e abaixo delas brilha a Nebulosa de Órion.

Touro (Taurus)
Um V de estrelas com a alaranjada Aldebaran na ponta forma a cabeça do Touro, e sobre o ombro dele brilham as Plêiades, o aglomerado mais famoso do céu. É a constelação zodiacal do verão brasileiro, vizinha de Órion.

Canopus
Segunda estrela mais brilhante do céu, Canopus é uma gigante branco-amarelada a cerca de 310 anos-luz, dezenas de vezes maior que o Sol. Visível a olho nu de todo o Brasil nas noites de verão.

Magnitude aparente e absoluta
A escala que os astrônomos usam para medir brilho é invertida e logarítmica: quanto menor o número, mais brilhante o astro. Saiba ler os valores que aparecem em todos os verbetes do site.

O céu visto do Brasil
Do equador ao Chuí, o céu brasileiro mostra o Cruzeiro do Sul, as Nuvens de Magalhães e o centro da Via Láctea no alto, e ainda alcança Vega e Andrômeda. Entenda como a latitude muda o que você vê.