Touro (Taurus)
Aldebaran, as Plêiades, as Híades e a Nebulosa do Caranguejo
Outros nomes e designações: Taurus, O Touro
Melhor época no Brasil: Novembro a março, no início da noite; mais alto em dezembro, sempre na metade norte do céu
Visão geral
O Touro é a constelação que acompanha Órion no céu de verão e que carrega dois dos aglomerados de estrelas mais conhecidos de toda a história: as Plêiades, ou Sete Irmãs, e as Híades, que formam a cabeça do animal em V com a estrela alaranjada Aldebaran na ponta de um dos chifres. É uma constelação do zodíaco, e por ela passam a Lua e os planetas.
Vale conhecê-la porque mostra, a olho nu e em binóculos, como são os aglomerados abertos em dois estágios diferentes, e porque guarda o resto de uma supernova que foi vista em pleno dia no ano de 1054, a Nebulosa do Caranguejo. Do Brasil, o Touro é uma constelação da metade norte do céu, e isso muda bastante a sua altura de uma região para outra.
Características
Aldebaran (α Tauri), de magnitude 0,86, é uma gigante laranja de tipo espectral K5 a 67 anos-luz. Ela parece fazer parte das Híades, mas está a menos da metade da distância do aglomerado: é uma coincidência de linha de visada. O olho do touro, como o nome árabe sugere, é a estrela que segue as Plêiades. A outra estrela brilhante é Elnath (β Tauri, magnitude 1,65), gigante azul B7 a cerca de 134 anos-luz, na ponta do chifre norte, exatamente na fronteira com o Cocheiro.
As Híades (Melotte 25) são o aglomerado aberto mais próximo do Sol, a cerca de 155 anos-luz. Suas estrelas mais brilhantes, γ, δ, ε e θ Tauri, de terceira e quarta magnitudes, desenham o V da cabeça do touro e se espalham por cerca de 5° no céu. É um aglomerado velho, já disperso, com estrelas amareladas e alaranjadas.
As Plêiades (M45) estão a cerca de 445 anos-luz e são muito mais jovens e compactas: mais de mil estrelas, das quais seis a nove são visíveis a olho nu, em um grupo que cabe em pouco mais de 1°. A mais brilhante é Alcyone (η Tauri, magnitude 2,87). Fotografias de longa exposição mostram nebulosidade azulada ao redor das estrelas, poeira interestelar refletindo a luz delas. Galileu foi o primeiro a observá-las com telescópio.
Perto da ponta do chifre sul, a cerca de 1,1° de ζ Tauri (Tianguan, magnitude 3,03), está a Nebulosa do Caranguejo (M1), de magnitude 8,4, a cerca de 6.500 anos-luz. É o que restou da supernova registrada por astrônomos chineses em 4 de julho de 1054, visível de dia por quase um mês. No centro há um pulsar, estrela de nêutrons que gira cerca de 30 vezes por segundo.
Onde fica no céu
Parta das Três Marias, o cinturão de Órion. Prolongue a linha das três estrelas para o noroeste, no sentido oposto a Sirius, por cerca de 20°: você chega a Aldebaran, alaranjada e brilhante, com o V das Híades ao redor. Continuando mais 14° na mesma direção, aparece o pequeno cacho das Plêiades, que muita gente confunde com uma nuvem ou com a Ursa Menor.
Os dois chifres se abrem a partir do V em direção ao leste: Elnath, o mais ao norte, e ζ Tauri, o mais ao sul, a cerca de 8° um do outro. O Touro faz fronteira com Áries e Perseu a oeste e ao norte, o Cocheiro ao norte, Gêmeos a leste, Órion ao sudeste, e Erídano e Baleia ao sul.
Como observar
Aldebaran e as Plêiades são visíveis de cidades grandes; as Híades e os chifres pedem céu um pouco mais escuro. O teste clássico de acuidade visual é contar quantas Plêiades você vê a olho nu: seis é comum, sete com boa visão, mais de nove só com céu excelente.
Binóculos são o instrumento perfeito para o Touro. As Plêiades enchem o campo com dezenas de estrelas azuis e as Híades se espalham por um campo inteiro com pares e trios de estrelas coloridas. A Nebulosa do Caranguejo exige telescópio e céu escuro: em aberturas pequenas é uma mancha oval difusa, sem detalhe.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
O Norte e o Nordeste têm a melhor visão do Touro no país. Em Belém e Fortaleza, Aldebaran culmina a cerca de 70° de altura e as Plêiades a cerca de 64°, bem alto no céu voltado para o norte. Em Salvador, Aldebaran passa a cerca de 60°. Dezembro e janeiro, por volta das 21h, são o auge, embora a estação chuvosa já comece na Amazônia; aproveite as noites limpas de novembro.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia, Aldebaran culmina a cerca de 58° de altura e as Plêiades a cerca de 50°, ainda confortáveis. Em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, Aldebaran chega a cerca de 50° e as Plêiades a cerca de 42°, sempre no céu norte. Com o verão chuvoso, as melhores noites costumam ser as de novembro e as frentes secas de fevereiro e março.
Sul
No Sul, o Touro fica mais baixo porque toda a constelação está no hemisfério norte celeste e a latitude do observador é mais austral. Em Porto Alegre, Aldebaran culmina a cerca de 44° de altura, as Plêiades a cerca de 36° e Elnath a cerca de 31°. Ainda é uma boa observação, mas com mais atmosfera pela frente; prefira as noites secas e estáveis do verão sulista.
Limitações e cuidados
- Entre maio e julho o Touro está próximo do Sol e não pode ser observado; reaparece de madrugada em agosto.
- Quanto mais ao sul o observador, mais baixa a constelação; no Sul, evite observar as Plêiades e a Nebulosa do Caranguejo perto do horizonte norte.
- A Lua cheia, que passa pelo Touro todo mês, apaga as Plêiades mais fracas e as Híades.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Para os gregos, o Touro era Zeus transformado em um touro branco para raptar a princesa fenícia Europa e atravessar o mar com ela até Creta; por isso só a metade dianteira do animal é desenhada, como se o resto estivesse submerso. A figura é bem mais antiga: nas tábuas babilônicas MUL.APIN ela é GU4.AN.NA, o Touro do Céu, enviado pela deusa Ishtar contra Gilgamesh.
Entre cerca de 4000 e 1700 a.C., o Sol estava no Touro no equinócio de março, que marcava o início do ano em várias culturas antigas. A precessão do eixo da Terra levou esse ponto para Áries e, hoje, para Peixes. O Sol atravessa o Touro atualmente entre meados de maio e meados de junho.
Na astronomia tupi-guarani estudada por Germano Afonso, as Plêiades são as penas do cocar do Homem Velho e as Híades formam sua cabeça, enquanto o cinturão de Órion é uma das pernas da figura. A aparição do Homem Velho no céu do começo da noite, em dezembro, anunciava a estação das chuvas no Norte e o verão no Sul.
A Nebulosa do Caranguejo foi observada por John Bevis em 1731 e, em 1758, por Charles Messier, que a confundiu com o cometa Halley; o erro o levou a criar seu catálogo de objetos nebulosos, e ela ficou com o número 1.
A IAU adotou a abreviação Tau em 1922, e as fronteiras de Eugène Delporte, aprovadas em 1928 e publicadas em 1930, deram ao Touro 797 graus quadrados. Os nomes Aldebaran e Alcyone foram oficializados em junho de 2016, Elnath em julho de 2016 e Tianguan, de origem chinesa, em 2017.
Termos de apoio
Aglomerado aberto
Grupo de dezenas a milhares de estrelas nascidas juntas da mesma nuvem e ainda ligadas pela gravidade. As Plêiades são um aglomerado jovem e compacto; as Híades, um aglomerado velho e já disperso. Saiba mais →
Supernova e pulsar
Supernova é a explosão que encerra a vida de uma estrela de grande massa. O núcleo que sobra pode virar uma estrela de nêutrons; quando ela gira e emite pulsos regulares, é chamada de pulsar, como a que está no centro da Nebulosa do Caranguejo. Saiba mais →
Precessão
Lento movimento do eixo de rotação da Terra, com ciclo de cerca de 26 mil anos, que desloca os pontos dos equinócios ao longo do zodíaco. Por causa dela o equinócio de março saiu do Touro há milênios. Saiba mais →
Declinação
Coordenada celeste equivalente à latitude, medida em graus a partir do equador celeste. Astros de declinação positiva, como Aldebaran (+16,5°), ficam mais baixos no céu quanto mais ao sul está o observador. Saiba mais →
Fontes consultadas
- IAU — The Constellations (FAQ): história de 1922, 1925, 1928 e 1930, lista de abreviações — abreviação Tau e histórico das fronteiras de Delporte
- IAU — Arquivo de fronteiras oficiais da constelação Taurus — vértices da fronteira; faixa de ascensão reta e declinação
- Wikipedia (em inglês) — IAU designated constellations by solid angle, com base em Delporte (1930) — área de 797,249 graus quadrados e posição 17ª; citada como Wikipedia
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — alf Tau, bet Tau, eta Tau, zet Tau, gam Tau, eps Tau, tet02 Tau, Melotte 22, Melotte 25, M 1 — magnitudes V, tipos espectrais, coordenadas e paralaxes; distâncias calculadas a partir da paralaxe
- IAU Working Group on Star Names — Catalog of Star Names (IAU-CSN) — nomes oficiais Aldebaran, Elnath, Alcyone e Tianguan e datas de aprovação
- NASA — Hubble's Messier Catalog: Messier 45 — distância de 445 anos-luz, magnitude 1,6, mais de mil estrelas, Galileu
- NASA — Hubble's Messier Catalog: Messier 1 — distância de 6.500 anos-luz, magnitude 8,4, supernova de 1054, Bevis 1731, Messier e o cometa Halley, pulsar de ~30 rotações por segundo
- Canaltech — Como os povos indígenas se guiam pela astronomia (02/12/2024), com base nos trabalhos de Germano Afonso — constelação tupi-guarani do Homem Velho: Plêiades como cocar, Híades como cabeça, cinturão de Órion como perna; época de aparição
- Wikipedia (em inglês) — Taurus (constellation), com referências a Rogers (1998) e Schaefer (2002) — mitologia de Europa, Touro do Céu babilônico, equinócio no Touro entre 4000 e 1700 a.C., posição de M1 em relação a ζ Tauri; citada como Wikipedia
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Aldebaran
Gigante alaranjada a 67 anos-luz que marca o olho do Touro, em frente ao aglomerado das Híades. Fácil de achar a partir das Três Marias nas noites de verão em todo o Brasil.

Plêiades (M45)
Um punhado de estrelas azuis jovens a cerca de 440 anos-luz, visível a olho nu até da cidade. Para os Tupi-Guarani, as Plêiades (Eixu) marcavam o início do ano e das chuvas.

Híades (Melotte 25)
O aglomerado aberto mais próximo do Sol, a cerca de 150 anos-luz, desenha o V da cabeça do Touro. Aldebaran parece pertencer ao grupo, mas está a menos da metade da distância.

Órion (Orion)
A constelação mais fácil de reconhecer do céu de verão. As Três Marias marcam o cinturão do caçador, entre a supergigante vermelha Betelgeuse e a azul Rigel, e abaixo delas brilha a Nebulosa de Órion.

Betelgeuse
Supergigante vermelha de Órion, centenas de vezes maior que o Sol e candidata a supernova. Em 2019–2020 escureceu de forma dramática. Fácil de ver a olho nu no verão brasileiro.
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