Acrux
A estrela mais brilhante do Cruzeiro do Sul, um sistema múltiplo
Outros nomes e designações: Alfa Crucis, α Cru, α¹ Cru e α² Cru, HD 108248, HD 108249, HIP 60718, HR 4730, HR 4731
Melhor época no Brasil: Março a julho, no início da noite; culmina no fim de abril; nunca se põe no litoral de Santa Catarina e no Rio Grande do Sul
Visão geral
Acrux é a estrela que marca o pé do Cruzeiro do Sul, a constelação mais conhecida do céu brasileiro e símbolo presente na bandeira nacional. É a mais brilhante das quatro estrelas principais da cruz e a mais ao sul delas, e por isso serve de referência para encontrar o polo sul celeste: prolongando o braço maior da cruz, de Gacrux a Acrux, por cerca de quatro vezes e meia o seu comprimento, chega-se à região do polo.
O que parece uma única estrela branco-azulada é, na verdade, um dos sistemas múltiplos mais massivos conhecidos nas vizinhanças do Sol. Um telescópio pequeno já mostra duas estrelas azuis lado a lado, e estudos recentes revelaram que cada uma delas é, por sua vez, dupla. No total, Acrux reúne pelo menos sete estrelas, com massa somada de cerca de 50 vezes a do Sol.
Características
As duas componentes visíveis ao telescópio são chamadas α¹ Crucis e α² Crucis, ou Acrux A e B. Ambas são estrelas azuis quentes de tipo espectral B: α¹ é uma subgigante B0.5 IV de magnitude 1,28, e α² é uma estrela da sequência principal B1 V de magnitude 1,58. Estão separadas por cerca de 4 segundos de arco no céu, o que à distância do sistema equivale a cerca de 430 unidades astronômicas, mais de dez vezes a distância de Plutão ao Sol. A órbita entre elas é tão lenta que ainda não foi medida com precisão.
α¹ Crucis é uma binária espectroscópica conhecida desde os anos 1970: suas linhas espectrais oscilam com um período de 75,8 dias, revelando uma companheira invisível. Um estudo publicado em 2026, com interferometria, resolveu esse par e mediu suas massas: 17,2 e 6,8 massas solares. O mesmo trabalho descobriu que α² Crucis também é dupla, com componentes de cerca de 12,4 e 9,8 massas solares. Somando as componentes mais afastadas, o sistema tem pelo menos sete estrelas.
Estrelas tão massivas e quentes vivem pouco e emitem a maior parte da luz no ultravioleta. A componente mais pesada de Acrux, com 17 massas solares, é uma forte candidata a terminar como supernova. Acrux é também o membro mais brilhante de uma associação de estrelas jovens e azuis que inclui boa parte do Cruzeiro, do Centauro e do Lobo, todas nascidas da mesma grande nuvem de gás há poucos milhões de anos.
Onde fica no céu
Acrux fica na base do Cruzeiro do Sul, a estrela mais ao sul da cruz. Nas noites de abril e maio, o Cruzeiro aparece alto na direção sul por volta das 21h, com a cruz em pé; Acrux é a estrela de baixo, a mais brilhante. Ao lado dela, para o leste, estão Alfa e Beta Centauri, os "ponteiros" que apontam para a cruz, e logo abaixo, a mancha escura do Saco de Carvão.
Com declinação de cerca de −63°, Acrux é uma das estrelas brilhantes mais austrais do céu. Isso tem duas consequências para o Brasil: ela nunca sobe muito no Norte do país, e no Sul ela se torna circumpolar, isto é, nunca se põe, ficando visível em alguma hora de qualquer noite do ano.
Como observar
A olho nu, Acrux é um ponto branco-azulado, claramente mais brilhante que as outras estrelas da cruz. Em binóculos, a cor azul fica mais evidente e o contraste com Gacrux, alaranjada no topo da cruz, é bonito. Os binóculos não separam as componentes.
Um telescópio pequeno, a partir de 60 mm, com aumento de 80 vezes ou mais, mostra α¹ e α² como duas estrelas azuis de brilho parecido, separadas por uma pequena fenda escura. É uma das estrelas duplas mais fáceis e mais bonitas do céu austral e uma excelente primeira dupla para quem acabou de comprar um telescópio. Uma terceira estrela, bem mais fraca, aparece a cerca de 90 segundos de arco de distância.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Em Belém e Fortaleza, Acrux sobe a apenas cerca de 28° a 31° de altura, na direção sul, e passa várias horas abaixo do horizonte a cada dia; em Salvador chega a cerca de 40°. A melhor janela é de abril a junho, no início da noite, quando o Cruzeiro está no meridiano. Escolha um local com horizonte sul livre e aproveite a estação seca, que começa em junho.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia, Acrux alcança cerca de 43° de altura; em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, cerca de 50°. Em São Paulo ela fica abaixo do horizonte apenas por poucas horas em cada dia. De março a julho ela está alta no início da noite, e o inverno seco oferece a atmosfera estável ideal para separar o par ao telescópio.
Sul
Do litoral de Santa Catarina para o sul, Acrux é circumpolar: em Florianópolis e Porto Alegre ela nunca se põe, apenas roça o horizonte sul no ponto mais baixo da sua volta diária. Em Porto Alegre ela chega a cerca de 57° de altura ao culminar. Isso significa que o Cruzeiro pode ser visto, alto ou baixo, em todas as noites do ano; a posição mais confortável, no início da noite, é entre março e julho.
Limitações e cuidados
- No Norte e no Nordeste, Acrux fica abaixo do horizonte por boa parte da noite entre setembro e dezembro; nesses meses só é vista de madrugada ou ao amanhecer.
- Separar α¹ e α² exige telescópio; binóculos mostram uma estrela única.
- Quando o Cruzeiro está baixo, a turbulência do horizonte dificulta a visão limpa da dupla; prefira observar com a cruz alta.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Na bandeira do Brasil, as estrelas do Cruzeiro do Sul aparecem como vistas de fora da esfera celeste, invertidas em relação ao céu. Acrux, o pé da cruz, representa o estado de São Paulo.
Acrux é a estrela brilhante mais ao sul de todo o céu: nenhuma outra estrela de primeira grandeza tem declinação tão negativa. Por isso ela é invisível de praticamente toda a Europa, dos Estados Unidos e da maior parte da Ásia, o que fez do Cruzeiro do Sul uma descoberta dos navegadores europeus do século XVI.
Em fevereiro de 2003, o astronauta Donald Pettit fotografou o Cruzeiro do Sul, o Saco de Carvão e a Nebulosa de Carina a partir da Estação Espacial Internacional, usando uma montagem improvisada para compensar o movimento da estação; a imagem é a que ilustra este verbete.
O nome Acrux não é antigo: é uma abreviação moderna de "Alfa Crucis", criada por astrônomos e navegadores do século XX, e foi adotada oficialmente pela União Astronômica Internacional como nome próprio da componente α¹.
Termos de apoio
Estrela circumpolar
Estrela que, de um determinado lugar, nunca desce abaixo do horizonte. Uma estrela é circumpolar quando a soma de sua declinação (em módulo) com a latitude do observador passa de 90°; Acrux, com −63°, é circumpolar ao sul de cerca de 27° de latitude sul. Saiba mais →
Estrela dupla
Duas estrelas próximas no céu que, no caso de um par físico como Acrux, giram em torno de um centro de massa comum. A separação é medida em segundos de arco; 4 segundos de arco, como em Acrux, é fácil para qualquer telescópio. Saiba mais →
Binária espectroscópica
Par de estrelas tão próximas que nenhum telescópio as separa; a dupla é revelada pelo vai e vem das linhas do espectro, causado pelo movimento orbital. α¹ Crucis é uma binária espectroscópica com período de 75,8 dias. Saiba mais →
Tipo espectral B
Classe das estrelas azuis quentes, com temperaturas entre cerca de 10.000 e 30.000 K. São estrelas massivas e de vida curta, comuns em associações jovens como a que inclui o Cruzeiro do Sul e o Centauro. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — Acrux (alf Cru), HD 108248 e HD 108249 — designações, tipos espectrais, magnitudes das componentes, paralaxe e coordenadas
- Waisberg, I. e Katz, B. (2026). Upgrading Alpha Crucis to a seven star system. Discovery of Bb and orbital misalignment. arXiv:2603.11194 — separação de 4 segundos de arco (cerca de 430 ua), massas das componentes, período da binária espectroscópica e contagem de sete estrelas
- NASA Johnson Space Center — Gateway to Astronaut Photography of Earth, foto ISS006-E-28028 — fotografia do Cruzeiro do Sul e da Via Láctea feita da ISS em 2003
Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.
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