Erídano
O rio celeste que nasce ao lado de Órion e deságua em Achernar
Outros nomes e designações: Eridanus, Eri, O Rio, Rio Erídano
Melhor época no Brasil: Outubro a fevereiro, no início da noite; Achernar passa alta em todo o Brasil
Visão geral
Erídano é um rio de estrelas. Ele começa discretamente ao lado de Rigel, no pé de Órion, quase sobre o equador celeste, e desce em curvas sucessivas rumo ao sul, por quase 60° de declinação, até terminar em Achernar, uma das dez estrelas mais brilhantes do céu. É a sexta maior constelação, com 1.138 graus quadrados, mas uma das menos chamativas: quase todas as suas estrelas têm magnitude entre 3 e 4.
Para quem observa do Brasil, Erídano tem uma vantagem rara. Por se estender de 0° a −58°, ele passa em altura confortável em todas as latitudes do país, e Achernar, invisível da Europa e de quase todos os Estados Unidos, fica alta em nosso céu de verão.
Características
Achernar (α Eri), de magnitude 0,46, é uma estrela azul de tipo B6 a cerca de 140 anos-luz, segundo a paralaxe do SIMBAD. Ela gira tão depressa que se achata: medições do interferômetro do VLT, do ESO, mostraram em 2003 que o raio equatorial é mais de 50% maior que o polar, com proporção de 1,56. Sua luz azul intensa marca o fim do rio, na fronteira com a Fênix e o Tucano.
Na outra extremidade, perto de Rigel, está Cursa (β Eri), de magnitude 2,79, uma estrela branca de tipo A3 a cerca de 90 anos-luz. Entre as duas pontas, o rio passa por Zaurak (γ Eri), uma gigante vermelha de tipo M0 e magnitude 2,94, a cerca de 190 anos-luz, e por Acamar (θ Eri), uma dupla branca que telescópios pequenos separam com facilidade, a cerca de 160 anos-luz.
Erídano é famoso pelas estrelas próximas. Epsilon Eridani (ε Eri), de magnitude 3,73, é uma anã alaranjada de tipo K2 a apenas 10,5 anos-luz, uma das estrelas parecidas com o Sol mais próximas de nós. Em 2000 confirmou-se um planeta gigante em sua órbita, Epsilon Eridani b, com massa comparável à de Júpiter e período de cerca de 7,3 anos, segundo o catálogo de exoplanetas da NASA.
40 Eridani (ο² Eri) é um sistema triplo a cerca de 16 anos-luz cujo componente B é uma anã branca de magnitude 9,5, a mais fácil de ver em telescópios de amador: um instrumento de 100 mm já mostra o pontinho ao lado da estrela principal, alaranjada e de quarta magnitude. Uma anã vermelha completa o trio.
Entre as galáxias, destaca-se NGC 1300, espiral barrada de magnitude 10,4 e cerca de 7 por 4 minutos de arco, vista quase de frente e famosa por uma imagem do Hubble. NGC 1291, na parte sul da constelação, tem magnitude 8,8 e cerca de 10 minutos de arco, acessível a telescópios pequenos em céu escuro.
Onde fica no céu
Comece por Órion. Rigel, a estrela azul brilhante do pé do caçador, fica na fronteira com Erídano; Cursa é a estrela de terceira magnitude logo a noroeste dela, a menos de 3°. A partir de Cursa, o rio corre para o oeste em uma linha de estrelas fracas, passa ao sul do Touro e da Baleia, faz uma volta ampla e desce para o sul, passando por Zaurak e Acamar, até Achernar.
Achernar é mais fácil de localizar diretamente: nas noites de verão é a estrela brilhante isolada, alta no céu sul, entre Canopus, na Carina, e Fomalhaut, no Peixe Austral, formando um triângulo largo com as duas Nuvens de Magalhães. Com as duas pontas identificadas, use um mapa para preencher o percurso do rio.
As vizinhas são Touro e Baleia (Cetus) ao norte, Órion e Lebre a leste, Burim (Caelum) e Relógio (Horologium) a sudeste, Hidra Macho (Hydrus) ao sul, Tucano e Fênix a sudoeste e Forno (Fornax) a oeste.
Como observar
Achernar, Cursa, Zaurak e Acamar são visíveis a olho nu de cidades. O curso completo do rio, formado por estrelas de magnitude 3 a 4,5, só se revela em céu de subúrbio ou melhor. É um alvo para noites sem Lua, com um mapa à mão.
Um telescópio pequeno abre Acamar em suas duas componentes e revela a anã branca de 40 Eridani, um dos espetáculos mais discretos do céu. Para NGC 1291 e NGC 1300, prefira céu escuro e aberturas de 150 mm ou mais.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
De Belém e Fortaleza, a parte norte do rio, perto do equador celeste, passa pelo zênite, enquanto Achernar culmina a cerca de 35° de altura no sul. Em Salvador, Achernar sobe a cerca de 46°. A estação chuvosa da Amazônia e do litoral nordestino atrapalha de dezembro em diante; aproveite as noites de outubro e novembro, quando o rio já está alto depois das 22h.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia, Achernar chega a cerca de 49° de altura e a parte norte da constelação passa a cerca de 75°; em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, Achernar sobe a cerca de 56° e Zaurak, a cerca de 80°. Tudo fica em altura confortável. A melhor janela vai de novembro a janeiro por volta das 21h, com a ressalva das chuvas de verão.
Sul
De Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba, Achernar culmina a cerca de 63° e permanece visível quase o ano todo: na latitude de Porto Alegre ela mal mergulha abaixo do horizonte sul na culminação inferior, e no extremo sul do Rio Grande do Sul é circumpolar. O resto do rio, porém, só está bem posicionado de novembro a fevereiro.
Limitações e cuidados
- A parte norte de Erídano fica no céu diurno entre maio e junho; Achernar, por estar perto do Sol em abril e maio, some no crepúsculo por algumas semanas, exceto no extremo sul do país, onde é circumpolar.
- O rio é formado por estrelas fracas: a Lua cheia e a poluição luminosa fazem a figura desaparecer, deixando só Achernar e três ou quatro pontos isolados.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Na mitologia grega, Erídano era o rio em que caiu Faetonte, filho do deus-sol Hélio, depois de perder o controle da carruagem solar e ser abatido por um raio de Zeus. O rio celeste foi identificado ao longo da história com o Nilo e com o Pó (fonte: Wikipedia, verbete Eridanus).
O nome Achernar vem do árabe e significa "o fim do rio". Curiosamente, para os astrônomos gregos, que não viam essa estrela do Mediterrâneo, o rio terminava em Acamar, cujo nome tem a mesma origem. Com as navegações rumo ao sul, o fim do rio foi "transferido" para a estrela mais brilhante e mais austral.
Em 2003, o interferômetro VLTI do ESO encontrou para Achernar raio equatorial de cerca de 12 raios solares e raio polar de no máximo 7,7, um achatamento maior do que previam os modelos de rotação rígida.
Termos de apoio
Ano-luz
Distância percorrida pela luz em um ano, cerca de 9,46 trilhões de quilômetros. Epsilon Eridani, a 10,5 anos-luz, é vizinha do Sol; NGC 1300, a dezenas de milhões de anos-luz, é outra galáxia. Saiba mais →
Anã branca
Núcleo compacto deixado por uma estrela de massa parecida com a do Sol após esgotar seu combustível. Tem o tamanho da Terra e esfria por bilhões de anos. A de 40 Eridani é a mais fácil de ver em telescópios pequenos. Saiba mais →
Culminação
Momento em que um astro cruza o meridiano e atinge a altura máxima (culminação superior) ou mínima (culminação inferior). Se a mínima ainda fica acima do horizonte, o astro é circumpolar; é quase o caso de Achernar no Sul do Brasil. Saiba mais →
Como ler um mapa celeste
Mapas mostram estrelas por tamanho conforme a magnitude e ligam as principais em figuras. Para constelações extensas e fracas como Erídano, vale orientar o mapa de acordo com o horizonte e seguir a figura por etapas, de uma estrela conhecida a outra. Saiba mais →
Fontes consultadas
- IAU — The Constellations (página oficial arquivada, com cartas Sky & Telescope e arquivos de fronteira) — abreviação, genitivo, fronteiras de Delporte (1930) e vértices em ascensão reta e declinação (arquivo eri.txt)
- Wikipedia (en) — IAU designated constellations by solid angle (tabela baseada em Delporte, 1930) — área de 1.137,919 graus quadrados e 6ª posição; fonte secundária, usada para o valor da área
- SIMBAD (CDS) — Achernar, Cursa, Zaurak, Acamar, eps Eri, 40 Eri B — magnitudes, tipos espectrais e paralaxes; distâncias calculadas a partir das paralaxes
- SIMBAD (CDS) — NGC 1300 e NGC 1291 — magnitudes 10,42 e 8,81 e dimensões aparentes
- NASA Exoplanet Catalog — Epsilon Eridani b — descoberta em 2000 por velocidade radial, massa da ordem da de Júpiter e período de cerca de 7,3 anos
- ESO — Flattest Star Ever Seen (eso0316, 11 de junho de 2003) — achatamento de Achernar (razão 1,56), raios equatorial e polar, medições com o VLTI
- Wikipedia (en) — Eridanus (constellation) — mitologia de Faetonte, identificação com rios, 40 Eridani como sistema triplo e constelações vizinhas; fonte secundária
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Conteúdos relacionados
Achernar
Estrela azul quente a 139 anos-luz que gira tão depressa que seu equador é 50% mais largo que os polos. Marca o fim do rio Erídano e brilha alta no céu de primavera do Sul do Brasil.

Órion (Orion)
A constelação mais fácil de reconhecer do céu de verão. As Três Marias marcam o cinturão do caçador, entre a supergigante vermelha Betelgeuse e a azul Rigel, e abaixo delas brilha a Nebulosa de Órion.
Rigel
A estrela mais brilhante de Órion é uma supergigante azul a cerca de 860 anos-luz, com mais de cem mil vezes a luminosidade do Sol. Passa perto do zênite no Nordeste nas noites de verão.

Tucano
Suas estrelas são fracas, mas o Tucano guarda dois dos maiores espetáculos do céu austral: o aglomerado globular 47 Tucanae e a Pequena Nuvem de Magalhães, ambos visíveis a olho nu em céu escuro.

Fomalhaut
Estrela branca a 25 anos-luz, jovem e cercada por anéis de poeira que o Hubble e o Webb fotografaram. Isolada no céu de primavera, passa pelo zênite do Sul do Brasil.
Como ler um mapa celeste
Um mapa celeste parece confuso até você entender três coisas: ele é lido de baixo para cima, as estrelas têm tamanhos que indicam brilho e as constelações são regiões com fronteiras oficiais. Depois disso, o céu abre.