Centauro (Centaurus)
A casa das estrelas mais próximas do Sol e do maior aglomerado globular
Outros nomes e designações: Centaurus, O Centauro
Melhor época no Brasil: Março a julho, no início da noite; mais alto em maio, logo a leste do Cruzeiro do Sul
Visão geral
O Centauro é uma das constelações mais ricas do céu austral e, ao mesmo tempo, uma das menos lembradas, porque a atenção costuma ir toda para o Cruzeiro do Sul, que ele envolve por três lados. É a nona maior das 88 constelações e contém duas das dez estrelas mais brilhantes do céu, Alfa e Beta Centauri, as Apontadoras que conduzem o olhar até a cruz.
Vale conhecê-lo porque ali estão objetos de recorde: Alfa Centauri, o sistema estelar mais próximo do Sol; Ômega Centauri, o maior e mais brilhante aglomerado globular da Via Láctea, visível a olho nu; e Centaurus A, a galáxia ativa mais próxima da Terra. Do Brasil, tudo isso passa alto no céu de outono.
Características
Alfa Centauri (α Centauri) é um sistema triplo. As duas estrelas principais, Rigil Kentaurus (A, de magnitude 0,01 e tipo espectral G2, quase um gêmeo do Sol) e Toliman (B, de magnitude 1,33 e tipo K1), orbitam uma em torno da outra e aparecem a olho nu como um só ponto de magnitude −0,1, o terceiro mais brilhante do céu noturno. A paralaxe de 751 milissegundos de arco coloca o par a 4,34 anos-luz (1,33 parsecs). A terceira estrela, Proxima Centauri, é uma anã vermelha de magnitude 11,1 a 4,25 anos-luz, a estrela mais próxima do Sol, mas só visível em telescópio.
Beta Centauri, ou Hadar (magnitude 0,58), fica a 4,5° a oeste de Alfa. Apesar de parecer sua irmã, é uma gigante azul de tipo B1 a cerca de 390 anos-luz, muito mais luminosa e distante. Ao norte, o corpo do centauro se espalha por estrelas de segunda e terceira magnitude: Menkent (θ, magnitude 2,05, a 59 anos-luz), γ Centauri (magnitude 2,17), ε (2,30), η (2,31) e ζ (2,55).
Ômega Centauri (NGC 5139) é uma bola de estrelas a cerca de 17 mil anos-luz, tão grande no céu que, de um lugar escuro, ocupa quase o diâmetro da Lua cheia. Ptolomeu a registrou como estrela, Edmond Halley a descreveu como nebulosa em 1677 e John Herschel, na década de 1830, a reconheceu como aglomerado globular. Observações do Hubble e do Gemini apontaram em 2008 um possível buraco negro de cerca de 40 mil massas solares em seu centro, e há a hipótese de que ela seja o núcleo de uma galáxia anã desmontada pela Via Láctea.
A 4,5° ao norte de Ômega fica Centaurus A (NGC 5128), uma galáxia elíptica a cerca de 12 milhões de anos-luz cortada por uma faixa escura de poeira, resto de uma galáxia espiral que ela engoliu. É a radiogaláxia mais destacada do céu e tem um buraco negro central de cerca de 100 milhões de massas solares. Com magnitude 6,8, aparece em binóculos como uma mancha redonda e em telescópios pequenos já mostra a faixa de poeira. Completam a lista os aglomerados abertos NGC 3766 (magnitude 5,3) e NGC 5460 (5,6) e a Planetária Azul, NGC 3918, de magnitude 8,5.
Onde fica no céu
Comece pelo Cruzeiro do Sul. A leste dele, duas estrelas brilhantes e próximas entre si, quase na mesma linha do braço horizontal da cruz, são Beta e Alfa Centauri, nessa ordem a partir da cruz. Elas representam as patas dianteiras do centauro; o corpo e a cabeça se estendem para o norte, em direção à Virgem e à Hidra, por uma área enorme de estrelas mais fracas.
Para achar Ômega Centauri, localize ζ Centauri, a estrela de magnitude 2,5 que fica cerca de 13° ao norte de Beta Centauri, e siga 5° para o oeste. A olho nu o aglomerado parece uma estrela de quarta magnitude fora de foco. Centaurus A fica 4,5° ao norte de Ômega, quase na mesma ascensão reta.
O Centauro faz fronteira com a Hidra e a Virgem ao norte, a Balança e o Lobo a leste, o Cruzeiro do Sul, a Mosca e o Esquadro ao sul, e a Vela e a Carina a oeste.
Como observar
Alfa e Beta Centauri são visíveis de qualquer cidade. Em céu escuro, a Via Láctea atravessa o sul da constelação e Ômega Centauri aparece a olho nu sem dificuldade. Binóculos mostram Ômega como um disco difuso maior que qualquer outro globular, Centaurus A como uma pequena névoa e dezenas de estrelas nos aglomerados NGC 3766 e NGC 5460.
Em telescópio pequeno, Ômega Centauri se resolve em centenas de pontos até o centro, um dos espetáculos mais lembrados por quem observa o céu do sul pela primeira vez. Alfa Centauri se separa em duas estrelas amarelas com facilidade. Centaurus A exige céu escuro e abertura de pelo menos 100 mm para mostrar a faixa de poeira.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Em Belém e Fortaleza, Alfa Centauri culmina a cerca de 30° de altura, baixa mas acessível, e Ômega Centauri, com declinação −47°, chega a cerca de 44°. A parte norte da constelação, onde estão Menkent e Centaurus A, passa alta. A melhor janela é abril a julho, no início da noite, já em céu mais seco no litoral nordestino.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia, Alfa Centauri sobe a cerca de 45° e Ômega Centauri a cerca de 59°. Em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, Alfa chega a 53°, Ômega passa a cerca de 66° e Centaurus A a cerca de 70°. De abril a junho, por volta das 21h, com o inverno seco começando, é a melhor época do ano para explorar a constelação em binóculos.
Sul
Em Porto Alegre, Alfa e Beta Centauri, com declinação em torno de −60°, estão no limite da circumpolaridade: tecnicamente nunca se põem, apenas roçam o horizonte sul em novembro. Ômega Centauri culmina a cerca de 73° e Centaurus A a cerca de 77°. O Sul tem, portanto, a visão mais completa e duradoura do Centauro, com as Apontadoras visíveis em todas as noites do ano.
Limitações e cuidados
- O corpo norte da constelação, de estrelas fracas, desaparece sob poluição luminosa; nas cidades, só as Apontadoras e Menkent permanecem.
- Entre outubro e dezembro Alfa e Beta Centauri ficam muito baixas ou abaixo do horizonte no Norte e no Nordeste à noite.
- Proxima Centauri é um alvo para telescópios médios com carta detalhada, não para iniciantes.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Os gregos viam na constelação um centauro, e Ovídio, nos Fastos, a identifica com Quíron, o sábio tutor de Hércules, Teseu e Jasão, ferido por acidente por uma flecha envenenada do próprio Hércules e colocado no céu por Zeus. Eudoxo a menciona no século IV a.C., Arato no século III a.C., e Ptolomeu catalogou 37 de suas estrelas no século II, incluindo as que hoje formam o Cruzeiro do Sul, que era visto como as patas traseiras do animal.
A Via Láctea que atravessa o sul do Centauro é, para povos tupi-guarani, parte do grande desenho da Ema (Guyra Nhandu), que se estende da região do Cruzeiro do Sul até o Escorpião e marca o começo do inverno quando aparece inteira no leste em junho.
A IAU adotou a abreviação Cen em 1922, e as fronteiras de Eugène Delporte, aprovadas em 1928 e publicadas em 1930, separaram definitivamente o Cruzeiro do Sul, que até então ainda era desenhado por alguns atlas dentro do Centauro. Com 1.060 graus quadrados, a constelação ficou com a nona maior área do céu.
Os nomes Hadar e Menkent foram oficializados pela IAU em 2016. Rigil Kentaurus, do árabe para pé do centauro, recebeu aprovação em novembro de 2016 para Alfa Centauri A, e Toliman, em 2018, para Alfa Centauri B. A luz que sai do sistema hoje chega à Terra em pouco mais de quatro anos.
Termos de apoio
Paralaxe
Pequeno deslocamento aparente de uma estrela próxima em relação às distantes quando a Terra muda de posição em sua órbita. Quanto maior a paralaxe, mais perto está a estrela; a de Alfa Centauri, 751 milissegundos de arco, é a maior entre as estrelas visíveis a olho nu. Saiba mais →
Aglomerado globular
Esfera densa de centenas de milhares de estrelas velhas que orbita o halo da galáxia. Ômega Centauri é o maior da Via Láctea, com cerca de 10 vezes a massa dos outros grandes globulares. Saiba mais →
Radiogaláxia
Galáxia cujo buraco negro central lança jatos de partículas que brilham intensamente em ondas de rádio. Centaurus A é a mais próxima e mais destacada do céu; em luz visível mostra uma galáxia elíptica cortada por poeira. Saiba mais →
Circumpolar
Astro que nunca se põe para um observador porque gira em torno do polo celeste sem tocar o horizonte. Alfa e Beta Centauri são circumpolares para quem está ao sul da latitude 30° S. Saiba mais →
Fontes consultadas
- IAU — The Constellations (FAQ): história de 1922, 1925, 1928 e 1930, lista de abreviações — abreviação Cen e histórico das fronteiras de Delporte
- IAU — Arquivo de fronteiras oficiais da constelação Centaurus — vértices da fronteira; faixa de ascensão reta e declinação
- Wikipedia (em inglês) — IAU designated constellations by solid angle, com base em Delporte (1930) — área de 1.060,422 graus quadrados e posição 9ª; citada como Wikipedia
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — alf Cen, alf Cen A, alf Cen B, Proxima Centauri, bet Cen, tet Cen, gam Cen, eps Cen, eta Cen, zet Cen, NGC 5128, NGC 3766, NGC 5460, NGC 3918 — magnitudes V, tipos espectrais, coordenadas e paralaxes; distâncias calculadas a partir da paralaxe
- IAU Working Group on Star Names — Catalog of Star Names (IAU-CSN) — nomes oficiais Rigil Kentaurus, Toliman, Hadar e Menkent e datas de aprovação
- ESA/Hubble — Black hole found in enigmatic Omega Centauri (heic0809) — distância de 17 mil anos-luz, tamanho aparente, histórico (Ptolomeu, Halley 1677, Herschel), buraco negro de ~40 mil massas solares, hipótese de galáxia anã
- ESO — A Deeper Look at Centaurus A (eso1221) — distância de cerca de 12 milhões de anos-luz, radiogaláxia, buraco negro de ~100 milhões de massas solares, fusão de galáxias
- IAU Office of Astronomy for Education — Glossário: Escorpião — a constelação tupi-guarani da Ema (Guyra Nhandu) na região do Escorpião
- Wikipedia (em inglês) — Centaurus, com referências a Ridpath & Tirion (2017), Allen (1963) e White (2008) — mitologia (Quíron, Ovídio), Eudoxo, Arato, 37 estrelas de Ptolomeu, Cruzeiro como patas do centauro; citada como Wikipedia
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Alfa Centauri
Terceira estrela mais brilhante do céu e vizinha mais próxima do Sol, a 4,4 anos-luz. É um sistema triplo: duas estrelas parecidas com o Sol e a pequena Proxima, que abriga um planeta rochoso.

Ômega Centauri (NGC 5139)
Uma bola de cerca de 10 milhões de estrelas velhas, visível a olho nu como uma estrela difusa no Centauro. Em telescópio pequeno se desfaz em um enxame de pontos, um dos espetáculos do céu austral.

Centaurus A (NGC 5128)
Uma galáxia elíptica que engoliu uma espiral e ficou com uma cicatriz de poeira no meio. É uma das fontes de rádio mais intensas do céu e um alvo fácil para telescópios pequenos de março a agosto.

Cruzeiro do Sul (Crux)
A menor das 88 constelações é também a mais famosa do hemisfério sul. Está na bandeira do Brasil, aponta para o polo sul celeste e abriga o Saco de Carvão e a Caixa de Joias.

Acrux
A estrela mais brilhante do Cruzeiro do Sul é na verdade um sistema múltiplo de estrelas azuis quentes a cerca de 320 anos-luz. Um telescópio pequeno separa as duas principais.

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