Sagitário (Sagittarius)
O arqueiro que guarda o centro da Via Láctea e o Bule de Chá
Outros nomes e designações: Sagittarius, O Arqueiro, Bule (asterismo)
Melhor época no Brasil: Junho a outubro, no início da noite; mais alto em agosto, quando passa pelo zênite no Sul do Brasil
Visão geral
Olhar para o Sagitário é olhar para o coração da nossa galáxia. O centro da Via Láctea, com seu buraco negro supermassivo, fica dentro das fronteiras da constelação, escondido atrás de nuvens de poeira, e ao redor dele a faixa luminosa do céu atinge o ponto mais largo e brilhante. Nenhuma outra constelação oferece tantas nebulosas e aglomerados ao alcance de binóculos.
Para o observador brasileiro, o Sagitário é a constelação do meio do ano: sobe pelo leste depois do Escorpião e passa muito alto, chegando ao zênite no Sul do país. Vale conhecê-lo pelo asterismo do Bule de Chá, fácil de reconhecer, e pelos objetos do catálogo de Messier que se espalham acima do bico do bule.
Características
As oito estrelas mais brilhantes do Sagitário desenham um bule visto de lado: δ, ε, ζ e φ Sagittarii formam o corpo; λ marca a ponta da tampa; γ² é a ponta do bico; σ e τ fazem a alça. O vapor que sai do bico é a própria Via Láctea. A estrela mais brilhante é Kaus Australis (ε, magnitude 1,81), uma estrela B9 a cerca de 143 anos-luz; a letra alfa ficou com Rukbat, de magnitude 3,94, bem mais fraca e afastada do bule.
Nunki (σ, magnitude 2,07), estrela B2,5 a cerca de 230 anos-luz, é a segunda mais brilhante. Ascella (ζ, magnitude 2,59) está a 88 anos-luz; Kaus Media (δ, magnitude 2,67), gigante laranja, a cerca de 420 anos-luz; Kaus Borealis (λ, magnitude 2,81) a 76 anos-luz; e Alnasl (γ², magnitude 2,99) a cerca de 100 anos-luz. Kaus é o arco do arqueiro, com suas partes sul, média e norte.
Logo acima do bico do bule, a cerca de 5° a noroeste de Alnasl, fica a Nebulosa da Lagoa (M8), de magnitude 6,0, a cerca de 5.200 anos-luz, com o aglomerado NGC 6530 em seu interior; é visível a olho nu em céu escuro. Um grau e meio ao norte está a Nebulosa Trífida (M20), de magnitude 6,3, a cerca de 5.000 anos-luz, cortada por três faixas de poeira. Mais ao norte, já perto da fronteira, está a Nebulosa Ômega (M17), de magnitude 6,0, a cerca de 5.500 anos-luz, e entre elas a nuvem estelar M24, um trecho especialmente denso da Via Láctea.
A nordeste de Kaus Borealis está M22, um dos aglomerados globulares mais próximos e brilhantes, de magnitude 5,1, a cerca de 10 mil anos-luz, com cerca de 70 anos-luz de diâmetro e tamanho aparente próximo ao da Lua cheia. M55, de magnitude 6,5, e M28 completam os globulares. O centro galáctico, marcado pela fonte de rádio Sagittarius A*, fica a 17h 45m de ascensão reta e −29° de declinação, pouco a oeste do bico do bule, na fronteira com Ofiúco e Escorpião.
Onde fica no céu
Em julho e agosto, por volta das 21h, procure o Escorpião no alto do céu e siga a curva da cauda até o ferrão, as estrelas Shaula e Lesath. Logo a leste do ferrão, cerca de 10° adiante, está o bule do Sagitário, com a alça voltada para o leste e o bico apontando para a cauda do escorpião. A região entre o ferrão e o bico é a mais brilhante de toda a Via Láctea.
O Sagitário faz fronteira com o Escorpião e Ofiúco a oeste, a Serpente e o Escudo ao norte, a Águia e o Capricórnio a leste, e o Microscópio, o Telescópio e a Coroa Austral ao sul. A eclíptica atravessa a parte norte da constelação, de modo que a Lua e os planetas passam com frequência pelo bule.
Como observar
A olho nu, em céu escuro, o Sagitário é o lugar onde a Via Láctea mais impressiona: a faixa luminosa se abre em nuvens e manchas, com M8 e M24 visíveis como condensações mais claras. Mesmo de cidades médias o bule se reconhece sem dificuldade.
Binóculos são a ferramenta ideal. Varrendo lentamente do bico do bule para o norte, você passa por M8 com seu aglomerado, M20, M21, M23, M24, M25, M18 e M17, uma sequência sem igual no céu. M22 aparece como uma bola difusa grande, e um telescópio pequeno já a resolve em estrelas. A Trífida exige abertura de 100 mm ou mais para mostrar as faixas escuras.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Em Belém e Fortaleza, o bule culmina a cerca de 62° a 64° de altura, e a parte sul da constelação, a cerca de 55°. Em Salvador, o bule passa a cerca de 73°. Julho a setembro é a estação seca de boa parte do Nordeste e do leste da Amazônia, com noites limpas e estáveis, o que faz do Sagitário um dos alvos mais recompensadores do ano na região.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia, o bule culmina a cerca de 76° de altura; em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a cerca de 84°, quase sobre a cabeça. O inverno seco do Centro-Oeste e do Sudeste é a melhor estação para céu profundo, e de junho a setembro, por volta das 21h, as nebulosas de Messier ficam na posição mais alta possível.
Sul
Em Porto Alegre, Kaus Media, com declinação próxima de −30°, passa exatamente pelo zênite, e o centro galáctico também. Todo o Sagitário fica acima de 75° de altura ao cruzar o meridiano. O inverno do Sul tem mais umidade e frentes frias que o do Centro-Oeste; aproveite as noites secas que seguem a passagem das frentes.
Limitações e cuidados
- Entre dezembro e fevereiro o Sagitário está próximo do Sol e não pode ser observado; reaparece de madrugada em março.
- A Lua cheia de julho e agosto passa pela própria constelação e apaga a Via Láctea e as nebulosas por vários dias a cada mês.
- Sob poluição luminosa forte, as nebulosas desaparecem em binóculos; só o bule e M22 resistem.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Os gregos viam a figura como um arqueiro, em geral um centauro, mas Eratóstenes a identificava com Crotos, um sátiro filho de Pã e inventor do arco, colocado no céu a pedido das Musas. A origem é mais antiga: na Babilônia a constelação era Pabilsag, um deus arqueiro com corpo de cavalo, e os gregos herdaram a imagem.
O Sol está dentro das fronteiras do Sagitário no solstício de dezembro, início do verão no hemisfério sul. Na Antiguidade clássica o solstício ocorria no Capricórnio, e a precessão deslocou o ponto para o Sagitário por volta da época romana; o nome Trópico de Capricórnio ficou.
O buraco negro supermassivo Sagittarius A*, no centro da Via Láctea, tem cerca de quatro milhões de massas solares e ficou invisível a olho nu e a telescópios ópticos por causa da poeira; ele só pode ser estudado em rádio, infravermelho e raios X.
A IAU adotou a abreviação Sgr em 1922, e as fronteiras de Eugène Delporte, aprovadas em 1928 e publicadas em 1930, deram ao Sagitário 867 graus quadrados. Os nomes Kaus Australis, Kaus Media e Kaus Borealis foram oficializados em julho de 2016, Nunki em agosto e Ascella em setembro do mesmo ano.
Vários objetos do Sagitário foram descobertos antes de Messier: a Lagoa por Giovanni Battista Hodierna em 1654, M22 por Abraham Ihle em 1665, enquanto procurava Saturno, e a Nebulosa Ômega por Jean-Philippe Loys de Chéseaux em 1745. Messier catalogou a Trífida em 1764.
Termos de apoio
Asterismo
Grupo de estrelas que forma um desenho reconhecível sem ser uma constelação oficial. O Bule de Chá é um asterismo dentro do Sagitário; as cinco estrelas da alça e do corpo também formam a chamada Concha de Leite. Saiba mais →
Centro galáctico
Região central da Via Láctea, a cerca de 26 mil anos-luz do Sol, onde fica o buraco negro Sagittarius A*. Do nosso ponto de vista ele está na direção do Sagitário, encoberto por nuvens de poeira que bloqueiam a luz visível. Saiba mais →
Eclíptica
Caminho aparente do Sol pelo céu ao longo do ano, que também é a faixa por onde circulam a Lua e os planetas. A eclíptica cruza o Sagitário, por isso ele é uma constelação do zodíaco. Saiba mais →
Aglomerado globular
Esfera densa de centenas de milhares de estrelas muito antigas que orbita o halo da galáxia. M22 é um dos mais próximos e brilhantes dos cerca de 150 conhecidos na Via Láctea. Saiba mais →
Fontes consultadas
- IAU — The Constellations (FAQ): história de 1922, 1925, 1928 e 1930, lista de abreviações — abreviação Sgr e histórico das fronteiras de Delporte
- IAU — Arquivo de fronteiras oficiais da constelação Sagittarius — vértices da fronteira; faixa de ascensão reta e declinação
- Wikipedia (em inglês) — IAU designated constellations by solid angle, com base em Delporte (1930) — área de 867,432 graus quadrados e posição 15ª; citada como Wikipedia
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — eps Sgr, sig Sgr, zet Sgr, del Sgr, lam Sgr, gam02 Sgr, phi Sgr, tau Sgr, alf Sgr, Sgr A*, M 55 — magnitudes V, tipos espectrais, coordenadas e paralaxes; distâncias calculadas a partir da paralaxe; posição do centro galáctico
- IAU Working Group on Star Names — Catalog of Star Names (IAU-CSN) — nomes oficiais Kaus Australis, Nunki, Ascella, Kaus Media e Kaus Borealis e datas de aprovação
- NASA — Hubble's Messier Catalog: Messier 8 — magnitude 6,0, distância de 5.200 anos-luz, Hodierna 1654, aglomerado NGC 6530
- NASA — Hubble's Messier Catalog: Messier 20 — magnitude 6,3, distância de 5.000 anos-luz, Messier 1764, três faixas de poeira
- NASA — Hubble's Messier Catalog: Messier 17 — magnitude 6,0, distância de 5.500 anos-luz, Chéseaux 1745
- NASA — Hubble's Messier Catalog: Messier 22 — magnitude 5,1, distância de 10.000 anos-luz, Ihle 1665, diâmetro de ~70 anos-luz, tamanho aparente da Lua cheia
- Wikipedia (em inglês) — Sagittarius (constellation), com referências a Ridpath (2018), White (2008) e Allen (1963) — Bule de Chá, Crotos (Eratóstenes), Pabilsag, solstício de dezembro, massa de Sgr A*; citada como Wikipedia
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Nebulosa da Lagoa (M8)
Uma das poucas nebulosas visíveis a olho nu, a Lagoa é uma nuvem de gás brilhante cortada por uma faixa escura, com um aglomerado jovem dentro. Passa quase sobre a cabeça no Brasil nas noites de inverno.

Nebulosa Trífida (M20)
Três faixas escuras de poeira dividem esta nuvem brilhante de Sagitário em lobos, dando-lhe o nome. Fica ao lado da Lagoa e cabe com ela no campo de um binóculo nas noites de inverno.

Via Láctea
A faixa esbranquiçada que cruza o céu em noites escuras é o disco da nossa própria galáxia, visto de dentro. O Brasil tem o centro dela quase sobre a cabeça nas noites de inverno.

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A supergigante vermelha Antares marca o coração de um escorpião que se estende por 500 graus quadrados de Via Láctea. Do Brasil ele passa quase a pino nas noites de inverno, cheio de aglomerados visíveis a olho nu.
Antares
Supergigante vermelha que marca o coração do Escorpião, a cerca de 550 anos-luz e com 680 vezes o raio do Sol. Passa pelo zênite do Sul e do Sudeste do Brasil nas noites de inverno.
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