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Escorpião (Scorpius)

A constelação do inverno brasileiro, com Antares e o coração da Via Láctea

Outros nomes e designações: Scorpius, Scorpio, Escorpião Celeste

Melhor época no Brasil: Maio a setembro, no início da noite; passa perto do zênite em quase todo o Brasil em junho e julho

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Carta celeste da constelação Scorpius com estrelas, linhas de ligação e limites oficiais da IAU.
Carta oficial da constelação Scorpius (Escorpião (Scorpius)), com os limites definidos pela União Astronômica Internacional e as estrelas até a magnitude 6,5. Crédito: IAU e Sky & Telescope (Roger Sinnott e Rick Fienberg) (CC BY 3.0). Fonte: iauarchive.eso.org/public/themes/constellations.

Visão geral

O Escorpião é, para quem observa do Brasil, a constelação que define o inverno. Quando o Cruzeiro do Sul começa a descer no oeste, ele sobe pelo leste com Antares, uma estrela vermelha de brilho forte, no meio de uma fileira curva de estrelas azuis que desenha com clareza o corpo e a cauda do animal. Poucas constelações se parecem tanto com o nome que carregam.

Ela merece atenção por três motivos. Fica mergulhada na parte mais densa da Via Láctea, de modo que binóculos revelam aglomerados em quase qualquer ponto. Passa quase exatamente sobre a cabeça de observadores em todo o Brasil. E tem lugar na bandeira nacional, onde suas estrelas representam oito estados do Nordeste.

Características

Antares (α Scorpii) é uma supergigante vermelha de tipo espectral M1,5, com magnitude média 0,91 e variação perceptível, a cerca de 550 anos-luz. Tem uma companheira azul quente de tipo B2, visível apenas em telescópio. O nome grego significa rival de Ares (Marte), pela semelhança de cor com o planeta.

A cabeça do escorpião é uma fileira quase vertical de três estrelas a oeste de Antares: Dschubba (δ, magnitude 2,32), Acrab (β¹, magnitude 2,62) e π Scorpii. A partir de Antares, o corpo desce para o sul e o leste em uma curva longa até a cauda, passando por Larawag (ε, magnitude 2,29, uma gigante laranja a apenas 64 anos-luz), μ¹ e ζ Scorpii.

A cauda termina no ferrão, formado por Shaula (λ, magnitude 1,63), a segunda estrela mais brilhante da constelação, e Lesath (υ, magnitude 2,65), par aparente apelidado de olhos de gato. Logo ao lado está Sargas (θ, magnitude 1,85), uma gigante F1 a cerca de 300 anos-luz, e κ Scorpii (magnitude 2,39) fecha a curva.

Entre os objetos de céu profundo, M7, o Aglomerado de Ptolomeu, de magnitude 3,3 e cerca de 980 anos-luz, foi registrado pelo astrônomo grego por volta do ano 130 e é o objeto mais austral do catálogo de Messier. Perto dele, M6, o Aglomerado Borboleta, a cerca de 1.500 anos-luz, também é visível a olho nu. A 1,3° de Antares fica M4, de magnitude 5,9, o aglomerado globular mais próximo da Terra, a cerca de 5.500 anos-luz. Junto de ζ Scorpii brilha NGC 6231, um aglomerado jovem a cerca de 5.500 anos-luz.

Onde fica no céu

Em junho e julho, olhe para o alto do céu por volta das 21h e procure uma estrela vermelha brilhante: é Antares. A partir dela, siga a curva de estrelas azuis que desce em direção ao sul e depois vira para leste, terminando no par Shaula e Lesath. A forma lembra um anzol ou um ponto de interrogação invertido, com a cabeça do escorpião do lado do Cruzeiro do Sul e a cauda apontando para o Sagitário.

A oeste do Escorpião está a Balança (Libra), que na Antiguidade era considerada as garras do animal. Ao norte fica o Serpentário, ao leste o Sagitário, ao sul o Lobo e a Régua. O centro da Via Láctea está a poucos graus a leste do ferrão, já dentro do Sagitário.

Como observar

Orientação geral, não previsão. As indicações de época e altura valem para o Brasil em geral e para o início da noite. Para a posição exata na sua cidade, data e horário, consulte um planisfério ou aplicativo de planetário, como explicamos em Como ler um mapa celeste.

A olho nu, o Escorpião é completo e vistoso mesmo em cidades médias; só a cauda, mais fraca, sofre com a poluição luminosa. Em céu escuro, a Via Láctea atravessa a cauda, e M6 e M7 aparecem como manchas luminosas logo a nordeste do ferrão.

Binóculos são o instrumento ideal para esta constelação. M7 se abre em dezenas de estrelas; M6 mostra a forma de borboleta; M4 aparece como uma bola difusa ao lado de Antares; NGC 6231 e a cadeia de estrelas ao redor de ζ Scorpii lembram um aglomerado em miniatura. Um telescópio pequeno resolve M4 em estrelas.

A partir do Brasil

Norte e Nordeste

Em Belém e Fortaleza, Antares culmina a cerca de 65° de altura, e a cauda, mais ao sul, sobe a cerca de 55°. Em Salvador, Antares passa a cerca de 77°. Junho a agosto é a estação seca em boa parte do Nordeste e o fim das chuvas na Amazônia oriental, o que faz do Escorpião a constelação mais fácil de aproveitar na região.

Centro-Oeste e Sudeste

Em Brasília e Goiânia, Antares culmina a cerca de 79° de altura; em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a cerca de 87°, praticamente no zênite. O inverno seco e as noites longas do Centro-Oeste e do Sudeste são a melhor combinação do ano para céu profundo: de maio a agosto, por volta das 21h, a cauda e seus aglomerados ficam no alto, longe da turbulência do horizonte.

Sul

Em Porto Alegre e Florianópolis, Antares passa a cerca de 86° de altura e a cauda, com declinação próxima de −37°, cruza o meridiano quase exatamente sobre a cabeça. O inverno do Sul tem mais frentes frias e umidade que o do Centro-Oeste, então vale aproveitar as noites limpas depois da passagem das frentes, quando o ar fica transparente.

Limitações e cuidados

  • Entre novembro e janeiro o Escorpião está próximo do Sol e não pode ser observado; reaparece de madrugada em fevereiro.
  • A Lua cheia de junho e julho fica justamente na região do Escorpião e do Sagitário e apaga a Via Láctea e os aglomerados por alguns dias a cada mês.

Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.

Curiosidades

Na mitologia grega, o escorpião foi enviado pelos deuses para matar o caçador Órion, que se gabava de poder exterminar todos os animais. Zeus colocou os dois no céu em lados opostos, e até hoje Órion desaparece no oeste quando o Escorpião nasce no leste. Os babilônios já chamavam a figura de MUL.GIR.TAB, o Escorpião, e tratavam a Balança como suas garras.

Na bandeira do Brasil, as oito estrelas do Escorpião representam os estados do Nordeste: Antares é o Piauí; β, o Maranhão; ε, o Ceará; λ (Shaula), o Rio Grande do Norte; κ, a Paraíba; μ, Pernambuco; θ (Sargas), Alagoas; e ι, Sergipe. O desenho reproduz o céu do Rio de Janeiro às 8h30 do dia 15 de novembro de 1889, visto de fora da esfera celeste.

Para povos tupi-guarani, as estrelas do Escorpião eram parte de uma constelação maior, a Ema (Guyra Nhandu), uma grande ave que ocupa também a região do Cruzeiro do Sul. Sua aparição completa no céu do começo da noite, em junho, anunciava o inverno no Sul e a estação seca no Norte do país. Em outras tradições tupi, o corpo curvo da constelação era uma cobra.

A IAU adotou a abreviação Sco em 1922, e as fronteiras de Delporte, aprovadas em 1928 e publicadas em 1930, deram à constelação 497 graus quadrados. Os nomes Antares, Shaula, Sargas e Dschubba foram oficializados em 2016, e Larawag, de origem aborígene australiana, em 2017.

Termos de apoio

Zodíaco

Faixa do céu por onde passam o Sol, a Lua e os planetas. O Escorpião é uma das 13 constelações oficiais atravessadas pela eclíptica, embora o Sol fique dentro de suas fronteiras por apenas uma semana, no fim de novembro. Saiba mais →

Aglomerado aberto

Grupo de dezenas a centenas de estrelas nascidas da mesma nuvem, ainda próximas umas das outras. M6 e M7 são aglomerados abertos; com o tempo, suas estrelas se dispersam pela Via Láctea. Saiba mais →

Aglomerado globular

Bola densa de centenas de milhares de estrelas muito antigas que orbita o centro da galáxia. M4, ao lado de Antares, é o globular mais próximo do Sistema Solar. Saiba mais →

Zênite

Ponto do céu exatamente acima da cabeça do observador. Um astro passa pelo zênite quando sua declinação é igual à latitude do lugar; Antares, com declinação −26°, faz isso sobre o litoral de São Paulo. Saiba mais →

Fontes consultadas

  1. IAU — The Constellations (FAQ): história de 1922, 1925, 1928 e 1930, lista de abreviações — abreviação Sco e histórico das fronteiras de Delporte
  2. IAU — Arquivo de fronteiras oficiais da constelação Scorpius — vértices da fronteira; faixa de ascensão reta e declinação
  3. Wikipedia (em inglês) — IAU designated constellations by solid angle, com base em Delporte (1930) — área de 496,783 graus quadrados e posição 33ª; citada como Wikipedia
  4. SIMBAD Astronomical Database (CDS) — alf Sco, lam Sco, tet Sco, del Sco, eps Sco, kap Sco, ups Sco, bet01 Sco, mu.01 Sco, NGC 6231, NGC 6405, NGC 6475 — magnitudes V, tipos espectrais, coordenadas e paralaxes; distâncias calculadas a partir da paralaxe
  5. IAU Working Group on Star Names — Catalog of Star Names (IAU-CSN) — nomes oficiais Antares, Shaula, Sargas, Dschubba e Larawag e datas de aprovação
  6. NASA — Hubble's Messier Catalog: Messier 7 — magnitude 3,3, distância de 980 anos-luz, registro por Ptolomeu em 130 d.C., objeto mais austral do catálogo
  7. NASA — Hubble's Messier Catalog: Messier 4 — magnitude 5,9, distância de 5.500 anos-luz, descoberta por Chéseaux em 1746, globular mais próximo
  8. Planetário da UFSC — Astronomia na Bandeira Brasileira (Paulo Araújo Duarte) — correspondência entre as estrelas do Escorpião e os estados do Nordeste; céu de 15/11/1889
  9. IAU Office of Astronomy for Education — Glossário: Escorpião — o Escorpião como parte da constelação tupi-guarani da Ema (Guyra Nhandu)
  10. Wikipedia (em inglês) — Scorpius, com referências a Dekker (2013), White (2008) e Hawaiian Astronomical Society — mitologia grega, babilônica e havaiana; garras transformadas em Balança; citada como Wikipedia

Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.

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