Nebulosa da Lagoa (M8)
A nebulosa de verão mais fácil de ver, no coração de Sagitário
Outros nomes e designações: M8, Messier 8, NGC 6523, Sharpless 25, LBN 25
Melhor época no Brasil: Maio a setembro, no início da noite; passa perto do zênite no Sudeste
Visão geral
A Nebulosa da Lagoa é a porta de entrada para quem quer ver nebulosas de inverno no Brasil. Ela fica na parte mais densa da Via Láctea, na constelação de Sagitário, e em um céu escuro aparece a olho nu como uma mancha pálida e alongada, bem acima do "bico do bule" que os observadores usam para reconhecer a constelação.
O nome vem de uma faixa escura de poeira que atravessa a nuvem brilhante e parece dividi-la em duas margens, como um canal ou uma lagoa vista de cima. A nebulosa tem cerca de 55 anos-luz de largura por 20 de altura e fica a aproximadamente 4.000 anos-luz da Terra, segundo a ESA. Como acontece com muitas nebulosas, a distância varia na literatura: a NASA adota 5.200 anos-luz.
Características
M8 é uma nebulosa de emissão. Seu gás brilha porque estrelas massivas recém-nascidas, embutidas na nuvem, emitem radiação ultravioleta intensa que ioniza o hidrogênio. Nas fotografias, o hidrogênio responde em vermelho e o oxigênio em verde-azulado, e as faixas escuras são poeira que bloqueia a luz do que está atrás.
A nebulosa é também um berçário em atividade. Partes de sua nuvem molecular ainda estão desabando sob a própria gravidade e gerando estrelas novas. A geração anterior já está visível: é o aglomerado aberto NGC 6530, com vários milhares de estrelas, que ocupa a metade leste da nebulosa e aparece em qualquer binóculo como um enxame de pontos sobre o gás.
A região mais intensa é a chamada Ampulheta, perto do centro. Ali vive Herschel 36, uma estrela quente cuja radiação molda o gás ao redor, soprando parte dele para longe. O Hubble fotografou nessa área duas estruturas em forma de funil, parecidas com tornados, cada uma com cerca de meio ano-luz de comprimento, criadas pela diferença de temperatura entre o gás aquecido e o gás frio. A mesma região foi investigada em busca de proplyds, discos protoplanetários iluminados ao redor de estrelas nascentes, do mesmo tipo que se vê em maior número na Nebulosa de Órion.
Onde fica no céu
Comece encontrando o asterismo do Bule, em Sagitário: um trapézio de estrelas com uma "alça" e um "bico" que fica logo a leste da cauda do Escorpião. A Nebulosa da Lagoa está a cerca de 5° a 6° acima do bico do Bule, no sentido em que a Via Láctea sobe pelo céu, quase na linha que vai do bico até o centro da Via Láctea. Em céu escuro, ela se destaca como o nó mais brilhante dessa região.
A Nebulosa Trífida (M20) fica logo ao lado, a menos de 1,5° ao norte, e as duas cabem juntas no campo de um binóculo. Com declinação de cerca de −24°, a Lagoa passa muito perto do zênite para quem observa do Sudeste e do Centro-Oeste, o que facilita muito a localização: basta olhar para cima por volta das 21h em julho.
Como observar
A olho nu, em céu rural, a nebulosa é uma mancha visível sem esforço; em cidades médias ela some, mas o aglomerado NGC 6530 ainda pode ser percebido como um ponto difuso. Em binóculos de 10×50 o objeto já é espetacular: uma nuvem oval com a faixa escura cortando-a e o aglomerado brilhando em uma das metades.
Em um telescópio pequeno, de 70 mm a 100 mm, com aumento baixo, a nebulosa preenche o campo e a faixa escura fica evidente. A região da Ampulheta aparece como um nó mais brilhante perto de uma estrela destacada, Herschel 36. Em telescópios de 150 mm a 250 mm, a nebulosidade ganha textura, com filamentos e bordas irregulares, e a Ampulheta começa a mostrar sua forma.
Filtros de nebulosa são muito úteis em M8. Um filtro UHC realça a extensão da nuvem e as faixas escuras; um filtro OIII escurece as estrelas do aglomerado, mas reforça o contraste das regiões de gás mais quente. Alterne entre observar com e sem filtro para apreciar as duas faces do objeto, a nebulosa e o aglomerado.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
No Norte e no Nordeste a nebulosa culmina alta, a cerca de 67° em Belém, 69° em Fortaleza e 79° em Salvador. A grande vantagem da região é o clima: o meio do ano é a estação seca em boa parte da Amazônia e do interior nordestino, com noites limpas e estáveis. Observe de junho a agosto, por volta das 21h, quando Sagitário está no alto.
Centro-Oeste e Sudeste
É a faixa em que a nebulosa passa mais perto do zênite: cerca de 81° em Brasília e Goiânia, 89° em São Paulo e no Rio de Janeiro, praticamente sobre a cabeça. O inverno seco do Centro-Oeste e do interior paulista e mineiro oferece as melhores noites do ano para céu profundo. A janela ideal vai de junho a agosto no início da noite; em maio e setembro ela ainda está bem colocada, mais tarde ou mais cedo.
Sul
No Sul a nebulosa culmina a cerca de 84° em Porto Alegre, ainda quase no zênite. O inverno traz frentes frias e noites nubladas, mas entre uma frente e outra o ar seco e limpo rende contraste excelente. A região oferece a nebulosa bem alta de maio a setembro; leve agasalho e aproveite as madrugadas de maio e junho, quando o objeto já está alto antes do frio mais intenso.
Limitações e cuidados
- Entre dezembro e fevereiro Sagitário está próximo do Sol e a nebulosa fica invisível à noite; ela reaparece na madrugada a partir de março.
- O luar apaga a nebulosa a olho nu e em binóculos; prefira a semana da Lua nova.
- Em cidades grandes, apenas o aglomerado NGC 6530 e o núcleo da Ampulheta ficam ao alcance de telescópios pequenos.
- Quando a nebulosa passa pelo zênite, telescópios equatoriais e refratores longos ficam em posições incômodas; observe um pouco antes ou depois da culminação.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Giovanni Battista Hodierna, astrônomo siciliano, registrou a Lagoa em 1654, mais de um século antes de Charles Messier. Como Messier, ele catalogava objetos difusos para que não fossem confundidos com cometas.
O Hubble fotografou o centro da Lagoa em 2018 para comemorar seus 28 anos em órbita. A imagem cobre apenas quatro anos-luz de uma nebulosa que mede 55 anos-luz de largura, uma amostra minúscula da nuvem.
A faixa escura que dá nome à nebulosa não é um vazio: é poeira tão densa que esconde quase tudo o que há atrás dela. Observações em infravermelho, que atravessam a poeira, revelam estrelas escondidas dentro e por trás da nuvem.
Os dois funis da Ampulheta, com meio ano-luz cada, são comparados a tornados porque surgem do encontro entre gás quente e gás frio, um processo parecido, em escala cósmica, com o que gera tempestades na atmosfera da Terra.
Termos de apoio
Nebulosa de emissão
Nuvem de gás que brilha com luz própria por ser ionizada pela radiação ultravioleta de estrelas quentes. O hidrogênio emite vermelho e o oxigênio, verde-azulado; são as nebulosas típicas das regiões de formação estelar. Saiba mais →
Aglomerado aberto
Grupo de dezenas a milhares de estrelas nascidas juntas da mesma nuvem, ainda próximas umas das outras. NGC 6530, dentro da Lagoa, é um exemplo jovem, com as estrelas ainda envoltas no gás que as formou. Saiba mais →
Zênite
Ponto do céu exatamente acima da cabeça do observador. Um objeto que passa pelo zênite é visto através da menor camada possível de atmosfera, com mais nitidez e contraste. Saiba mais →
Filtros UHC e OIII
Filtros que deixam passar apenas as cores emitidas pelo gás das nebulosas e bloqueiam o resto, inclusive parte da poluição luminosa. O UHC é mais versátil; o OIII isola a luz do oxigênio e dá mais contraste às regiões mais quentes. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — M 8 — identificadores, coordenadas e relação com NGC 6523 e NGC 6530
- NASA Science — Hubble's Messier Catalog: Messier 8 — magnitude, distância (5.200 anos-luz), descoberta, NGC 6530, Ampulheta e Herschel 36
- ESA/Hubble — Hubble's 28th birthday picture: The Lagoon Nebula (heic1808a) — imagem, crédito, distância (4.000 anos-luz) e dimensões de 55 × 20 anos-luz
- ESA/Hubble — Hubble celebrates 28th anniversary with a trip through the Lagoon Nebula (heic1808) — visibilidade a olho nu e tamanho aparente de três luas cheias
Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.
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