Nebulosa Trífida (M20)
A nuvem dividida em três por faixas de poeira, vizinha da Lagoa
Outros nomes e designações: M20, Messier 20, NGC 6514, Collinder 360, LBN 27
Melhor época no Brasil: Maio a setembro, no início da noite; passa perto do zênite no Sudeste
Visão geral
A Nebulosa Trífida é uma das imagens mais reconhecíveis da astronomia: uma nuvem rosada cortada por três faixas escuras que se encontram no centro, como se alguém tivesse dividido um bolo em fatias. O nome vem justamente desse aspecto, do latim para "dividido em três". Nas fotografias, uma segunda nuvem, azulada, aparece encostada à primeira, o que faz da Trífida um dos objetos mais coloridos do céu.
Ela fica na constelação de Sagitário, a pouco mais de 1° da Nebulosa da Lagoa, e as duas são frequentemente observadas juntas. A Trífida é menor e mais fraca que a vizinha, com magnitude em torno de 6,3, mas em um telescópio pequeno ela entrega algo que a Lagoa não tem: as faixas escuras que se cruzam diante do gás brilhante.
Características
A parte principal de M20 é uma nebulosa de emissão. No centro há um grupo de estrelas massivas formadas há pouco tempo, cuja radiação ultravioleta ioniza o hidrogênio ao redor e o faz brilhar em vermelho. Diante desse gás estão as três faixas escuras, nuvens densas de poeira que absorvem a luz e aparecem em silhueta. Elas não são buracos: são o material mais frio e denso da região, vista por nós de frente.
A nuvem azulada ao lado é de natureza diferente. Ali a poeira não está sendo ionizada; ela apenas reflete a luz azul de estrelas próximas, do mesmo modo que a fumaça se ilumina perto de um holofote. Por juntar emissão, reflexão e poeira escura em um só lugar, a Trífida é o exemplo clássico dos três tipos de nebulosa em uma única foto.
A radiação das estrelas centrais já limpou o gás e a poeira do entorno imediato, e a NASA explica que, nessa área, a formação de estrelas parou: faltou a matéria-prima. Nas bordas, porém, o processo continua. O Hubble registrou em 1997 dois jatos finos, parecidos com dedos, com cerca de três quartos de ano-luz de comprimento cada, saindo de uma nuvem densa e sendo erodidos pela radiação de uma estrela massiva vizinha. Um deles, chamado Herbig-Haro 399, é um jato de plasma expelido periodicamente por uma estrela em formação; ao comparar a foto de 1997 com uma nova imagem de 2026, os astrônomos viram que o jato se expandiu ao longo de 29 anos.
Onde fica no céu
Localize o asterismo do Bule, em Sagitário, a leste da cauda do Escorpião. A partir do bico do Bule, suba cerca de 5° a 6° no sentido em que a Via Láctea se afasta do horizonte; você chega à Nebulosa da Lagoa, visível a olho nu em céu escuro. A Trífida fica pouco mais de 1° ao norte da Lagoa, ou seja, um pouco acima dela para quem observa do Brasil com a constelação no alto.
Com declinação de cerca de −23°, a nebulosa passa quase exatamente pelo zênite de São Paulo e do Rio de Janeiro e muito alta em todo o país. Procure-a por volta das 21h em julho; em maio ela está alta na madrugada e em setembro já desce pelo oeste logo após o anoitecer.
Como observar
A olho nu a Trífida não se destaca, mesmo em céu escuro; ela se confunde com o brilho da Via Láctea. Em binóculos de 10×50 aparece como uma mancha pequena e difusa logo acima da Lagoa, com uma ou duas estrelas no meio. As duas nebulosas e o aglomerado M21, mais ao norte, cabem no mesmo campo.
O telescópio pequeno, de 80 mm a 100 mm, com aumento entre 40× e 80×, começa a mostrar o que dá nome ao objeto. A estrela central, na verdade um sistema múltiplo, aparece cercada por um halo, e as faixas escuras surgem como traços tênues partindo dela. É preciso visão periférica e paciência. Com 150 mm a 250 mm, as três faixas ficam evidentes e a porção de reflexão se mostra como uma segunda mancha pálida ao lado.
Um filtro UHC reforça a nebulosa de emissão e torna as faixas escuras mais contrastadas, mas apaga a nebulosa de reflexão, que não emite nas cores que o filtro deixa passar. O filtro OIII ajuda menos aqui do que em outras nebulosas. Compare a visão com e sem filtro para entender a diferença física entre as duas partes do objeto.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
No Norte e no Nordeste a Trífida culmina a cerca de 68° em Belém, 70° em Fortaleza e 80° em Salvador. É uma altura excelente, e a estação seca do meio do ano garante noites limpas no interior. Como a nebulosa é mais delicada que a Lagoa, procure um local sem luzes diretas e observe entre junho e agosto, por volta das 21h, quando Sagitário está no alto.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia a nebulosa chega a cerca de 83° de altura; em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte ela passa a menos de 1° do zênite. O céu seco e estável do inverno torna essa a melhor época do ano para o objeto. Observe de junho a agosto no início da noite; em maio e setembro ela ainda está bem posicionada, mas em horários diferentes.
Sul
No Sul a Trífida culmina a cerca de 83° em Porto Alegre e um pouco mais em Curitiba e Florianópolis. As noites de inverno entre frentes frias oferecem transparência excelente para detectar as faixas escuras. Planeje para junho a agosto, com a Lua longe do céu, e dê tempo aos olhos para se adaptarem ao escuro antes de procurar os detalhes.
Limitações e cuidados
- Entre dezembro e fevereiro Sagitário está perto do Sol e a nebulosa não pode ser observada à noite.
- A Trífida é muito sensível ao luar e à poluição luminosa; em céus urbanos, apenas a estrela central e um halo vago ficam visíveis.
- As faixas escuras exigem olhos adaptados ao escuro por pelo menos 20 minutos e céu transparente; não aparecem em noites úmidas ou com fumaça.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Charles Messier registrou a Trífida em 1764 como o vigésimo objeto de sua lista de coisas que não eram cometas. Ironicamente, a lista criada para evitar confusões se tornou o catálogo mais usado por observadores amadores até hoje.
A distância da Trífida é uma das mais discutidas entre os objetos Messier: estimativas antigas falavam em 9.000 anos-luz, a NASA e a ESA adotam hoje cerca de 5.000, e a paralaxe do SIMBAD aponta um valor ainda menor.
O Hubble fotografou a Trífida para comemorar seus 36 anos em órbita, em 2026, e o resultado foi comparado quadro a quadro com a imagem de 1997 da mesma região. Ver um jato de gás se mover ao longo de três décadas é raro: a maior parte dos processos na astronomia leva milhões de anos.
Termos de apoio
Nebulosa de reflexão
Nuvem de poeira que não brilha por conta própria, apenas espalha a luz de estrelas vizinhas. Como a poeira espalha o azul com mais eficiência, essas nebulosas aparecem azuladas nas fotografias, em contraste com o vermelho das nebulosas de emissão. Saiba mais →
Ano-luz
Distância que a luz percorre em um ano, cerca de 9,46 trilhões de quilômetros. A luz da Trífida que chega hoje aos seus olhos saiu de lá há cerca de 5.000 anos, quando as primeiras cidades da humanidade estavam surgindo. Saiba mais →
Visão periférica
Técnica de olhar ligeiramente ao lado de um objeto fraco em vez de fixá-lo. As células mais sensíveis à luz da retina ficam fora do centro do campo de visão, por isso detalhes tênues aparecem melhor "de canto de olho". Saiba mais →
Magnitude aparente
Escala de brilho em que números menores indicam astros mais brilhantes. Em uma nebulosa, o valor representa toda a luz espalhada pela área, então um objeto de magnitude 6,3 do tamanho da Lua é bem mais tênue do que uma estrela de 6,3. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — M 20 — identificadores, coordenadas, dimensão angular e paralaxe
- NASA Science — Hubble's Messier Catalog: Messier 20 — magnitude, distância, descoberta, jatos de 1997, Herbig-Haro 399 e comparação com 2026
- ESA/Hubble — Trifid Nebula (Wide Field Camera 3 Image) (heic2608a) — imagem, crédito e distância de 5.000 anos-luz
- ESA/Hubble — New Hubble image reveals details in the heart of the Trifid Nebula (opo0417a) — três faixas escuras de poeira e estimativa antiga de 9.000 anos-luz
Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.
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