Betelgeuse
A supergigante vermelha de Órion que um dia vai explodir
Outros nomes e designações: Alfa Orionis, α Ori, HD 39801, HIP 27989, 58 Orionis
Melhor época no Brasil: Novembro a março, no início da noite; culmina em janeiro, alta em todo o Brasil
Visão geral
Betelgeuse é a estrela alaranjada que marca o ombro de Órion, a constelação mais reconhecível das noites de verão no Brasil. Ela é uma das poucas estrelas cuja cor qualquer pessoa percebe a olho nu, mesmo de uma cidade iluminada, e por isso costuma ser a primeira estrela vermelha que um iniciante aprende a identificar.
Por trás da cor há uma das estrelas mais extremas que podemos ver sem instrumentos. Betelgeuse é uma supergigante vermelha tão grande que, no lugar do Sol, engoliria as órbitas de todos os planetas até Júpiter. Ela está na última etapa da vida e vai explodir como supernova num futuro astronomicamente próximo, embora provavelmente distante em escala humana. Em 2019 e 2020, quando escureceu de forma inesperada, muita gente achou que o momento tinha chegado.
Características
Betelgeuse é uma supergigante de tipo espectral M1-M2, com temperatura superficial de cerca de 3.600 K, muito mais fria que o Sol. Isso explica a cor avermelhada. O que ela perde em temperatura compensa em tamanho: um estudo de 2020, que combinou modelos evolutivos, oscilações observadas e simulações, estimou o raio em cerca de 764 raios solares, equivalente a cerca de 3,5 unidades astronômicas. A luminosidade total fica perto de 87 mil vezes a do Sol.
A massa atual de Betelgeuse é estimada entre 16,5 e 19 massas solares, e ela teria nascido com 18 a 21. Segundo o mesmo estudo, a estrela está queimando hélio no núcleo, no começo dessa fase, o que indica que o colapso final ainda deve demorar dezenas de milhares de anos ou mais. Quando ocorrer, a supernova será visível em plena luz do dia, mas, dada a distância, não representará perigo para a Terra.
A distância de Betelgeuse é notoriamente difícil de medir. A estrela é tão grande e tem uma atmosfera tão turbulenta que seu centro de luz se desloca, confundindo as medidas de paralaxe. A paralaxe do Hipparcos indica cerca de 500 anos-luz; o estudo de 2020 chegou a cerca de 550 anos-luz, com incerteza de várias dezenas; outros trabalhos, citados pela ESA/Hubble, preferem cerca de 725 anos-luz. Em qualquer caso, a luz que você vê saiu da estrela na Idade Média.
Betelgeuse é variável. Seu brilho oscila normalmente entre magnitude 0 e 1, num ciclo irregular de alguns anos. Entre o fim de 2019 e o início de 2020, porém, ela caiu para o menor brilho já registrado, no episódio chamado Grande Escurecimento. Observações do Hubble mostraram material denso e quente saindo da estrela meses antes; observações do VLT, do ESO, mostraram que uma região da superfície esfriou e que o gás expelido condensou em poeira, formando um véu que bloqueou parte da luz. Em abril de 2020 o brilho já tinha voltado ao normal.
Onde fica no céu
Betelgeuse é o vértice alaranjado do grande retângulo de Órion, do lado oposto a Rigel em relação às Três Marias. Nas noites de dezembro a fevereiro, ache as Três Marias no alto do céu; a estrela vermelha brilhante de um lado é Betelgeuse, e a estrela branco-azulada do outro lado é Rigel. Betelgeuse também forma, com Sirius e Procyon, um grande triângulo quase equilátero.
Com declinação de cerca de +7°, Betelgeuse passa pelo zênite de uma faixa ao norte do equador, perto de Belém e Macapá. Em todo o Brasil ela sobe alto, e mesmo no extremo sul fica acima de 50° de altura ao cruzar o meridiano.
Como observar
Betelgeuse é um alvo de olho nu e o melhor exemplo para aprender a ver cores de estrelas. Compare-a com Rigel, do outro lado do cinturão, e com Sirius: a diferença de tonalidade é clara mesmo com poluição luminosa. Observadores atentos podem acompanhar sua variação de brilho ao longo dos meses comparando-a com estrelas vizinhas de brilho fixo, como Procyon e Aldebaran.
Em binóculos e telescópios, Betelgeuse continua um ponto, mas sua cor fica mais intensa. Não há companheira visível. O tamanho real da estrela só foi revelado por técnicas interferométricas e pelo Hubble, que em 1995 obteve a primeira imagem direta da superfície de uma estrela além do Sol, mostrando um ponto quente gigante na atmosfera de Betelgeuse.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Em Belém, Betelgeuse passa a cerca de 81° de altura, quase no zênite; em Fortaleza, a cerca de 79°, e em Salvador, a cerca de 70°. É uma posição excelente, mas a melhor época (dezembro a março) coincide com a estação chuvosa de grande parte da região. Aproveite as noites claras de novembro, quando Órion já está alto por volta da meia-noite.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia, Betelgeuse sobe a cerca de 67° de altura; em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a cerca de 59°. Ela culmina por volta das 21h em meados de janeiro e fica bem posicionada no início da noite de dezembro a março. Nas noites abafadas de verão, a turbulência pode fazê-la cintilar em tons de laranja e vermelho.
Sul
No Sul, Betelgeuse chega a cerca de 53° de altura em Porto Alegre e um pouco mais em Florianópolis e Curitiba, sempre na direção norte. É altura confortável, e as noites de verão no Sul costumam ser mais estáveis que no Centro-Oeste. Dezembro a março são os melhores meses.
Limitações e cuidados
- Entre o fim de maio e julho, Betelgeuse está no céu diurno e não pode ser observada; ela reaparece de madrugada em agosto.
- Por ser variável, seu brilho pode estar diferente do valor da ficha na noite da sua observação; isso é normal e faz parte do interesse da estrela.
- A poluição luminosa não a apaga, mas dificulta ver as estrelas mais fracas de Órion que ajudam a reconhecer a figura completa.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Em 1995, o Telescópio Espacial Hubble registrou Betelgeuse em luz ultravioleta e obteve a primeira imagem direta da superfície de uma estrela além do Sol. A imagem revelou um ponto quente gigante, pelo menos 2.000 K mais quente que o resto da superfície e com cerca de duas vezes o diâmetro da órbita da Terra.
Se Betelgeuse substituísse o Sol, sua atmosfera externa se estenderia além da órbita de Júpiter, segundo a NASA. Marte, a Terra e os demais planetas interiores estariam dentro da estrela.
O Grande Escurecimento de 2019–2020 gerou especulações sobre uma supernova iminente, mas os estudos do Hubble e do ESO mostraram tratar-se de uma nuvem de poeira formada por material expelido da própria estrela. Episódios desse tipo mostram como as supergigantes vermelhas perdem massa antes de morrer.
O nome Betelgeuse vem de uma expressão árabe que designava a mão ou a axila do gigante, deformada por séculos de transcrições. Em muitas culturas antigas a estrela foi associada a figuras de guerreiros e caçadores, por causa da cor avermelhada.
Termos de apoio
Supergigante vermelha
Fase final da vida de estrelas com mais de cerca de 8 massas solares, em que a estrela incha a centenas de raios solares e esfria na superfície. Betelgeuse e Antares são os exemplos mais brilhantes do céu; ambas devem terminar como supernovas. Saiba mais →
Estrela variável
Estrela cujo brilho muda com o tempo. Betelgeuse varia de forma semirregular, com oscilações de alguns anos, e ocasionalmente sofre quedas maiores, como o Grande Escurecimento de 2019–2020. Saiba mais →
Paralaxe
Deslocamento aparente de uma estrela causado pelo movimento anual da Terra, usado para medir distâncias. Em Betelgeuse a medida é difícil porque a própria estrela é enorme e tem brilho desigual na superfície, o que desloca seu centro de luz. Saiba mais →
Unidade astronômica
Distância média entre a Terra e o Sol, cerca de 150 milhões de quilômetros. O raio de Betelgeuse é de cerca de 3,5 unidades astronômicas, maior que a distância do Sol ao cinturão de asteroides. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — Betelgeuse (alf Ori) — designações, tipo espectral, magnitude, paralaxe e coordenadas
- Joyce, M. et al. (2020). Standing on the Shoulders of Giants: New Mass and Distance Estimates for Betelgeuse through Combined Evolutionary, Asteroseismic, and Hydrodynamic Simulations with MESA. The Astrophysical Journal, 902, 63 — raio, massa atual e inicial, distância, luminosidade, temperatura adotada e fase evolutiva
- ESA/Hubble — Hubble Finds that Betelgeuse's Mysterious Dimming Is Due to a Traumatic Outburst (heic2014) — observações do Grande Escurecimento, nuvem de poeira e distância de cerca de 725 anos-luz
- ESO — Mystery of Betelgeuse's dip in brightness solved (eso2109) — observações do VLT/SPHERE mostrando o véu de poeira e a região fria da superfície
- NASA — Hubble Space Telescope Captures First Direct Image of a Star — imagem de 1995, ponto quente e comparação com a órbita de Júpiter
- ESA/Hubble — The Atmosphere of Betelgeuse (opo9604a) — imagem utilizada e crédito
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A constelação mais fácil de reconhecer do céu de verão. As Três Marias marcam o cinturão do caçador, entre a supergigante vermelha Betelgeuse e a azul Rigel, e abaixo delas brilha a Nebulosa de Órion.
Rigel
A estrela mais brilhante de Órion é uma supergigante azul a cerca de 860 anos-luz, com mais de cem mil vezes a luminosidade do Sol. Passa perto do zênite no Nordeste nas noites de verão.
Antares
Supergigante vermelha que marca o coração do Escorpião, a cerca de 550 anos-luz e com 680 vezes o raio do Sol. Passa pelo zênite do Sul e do Sudeste do Brasil nas noites de inverno.

Nebulosa de Órion (M42)
A nebulosa mais brilhante do céu fica logo abaixo das Três Marias e aparece a olho nu como uma mancha difusa. É o berçário de estrelas mais próximo da Terra, a cerca de 1.500 anos-luz.

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