Saco de Carvão
A nebulosa escura mais famosa do céu, ao lado do Cruzeiro do Sul
Outros nomes e designações: Coalsack, Nebulosa do Saco de Carvão, Caldwell 99, Nuvem Negra de Magalhães, Yutu
Melhor época no Brasil: Março a julho, no início da noite; circumpolar no Sul, baixa no Norte
Visão geral
O Saco de Carvão é a prova de que uma nebulosa não precisa brilhar para ser impressionante. Ele aparece como um buraco negro na faixa luminosa da Via Láctea, bem ao lado do Cruzeiro do Sul, tão nítido que parece recortado com tesoura. De um céu escuro no Brasil, é uma das visões mais marcantes do inverno, sem equipamento nenhum.
Diferente das nebulosas de emissão e das planetárias, o Saco de Carvão é uma nebulosa escura: uma nuvem de poeira interestelar densa o bastante para bloquear quase toda a luz das estrelas que estão atrás dela. A cerca de 600 anos-luz, ela é uma das nuvens escuras mais próximas da Terra, e por isso ocupa uma área tão grande do céu.
Características
O que torna o Saco de Carvão escuro não é a ausência de matéria, mas o excesso dela. A nuvem é feita de gás frio e de grãos microscópicos de poeira. Segundo o ESO, esses grãos estão recobertos por camadas de água congelada, nitrogênio, monóxido de carbono e moléculas orgânicas simples. Juntos, eles absorvem e espalham a luz das estrelas de fundo, deixando passar apenas uma fração dela.
A nuvem não é totalmente opaca. Em 1970, o astrônomo finlandês Kalevi Mattila estimou que a região tem cerca de 10% do brilho da Via Láctea ao redor; essa luz residual vem de estrelas situadas entre nós e a nuvem. A poeira também espalha o azul mais que o vermelho, de modo que as estrelas vistas através das bordas parecem avermelhadas, o mesmo efeito que deixa o Sol alaranjado no pôr do sol.
Nebulosas escuras são a matéria-prima das estrelas. A NASA estima o Saco de Carvão em cerca de 100 anos-luz de extensão, e o ESO explica que, daqui a milhões de anos, partes dessa nuvem vão desabar sob a própria gravidade e acender novas estrelas, que por sua vez iluminarão o gás restante. O Saco de Carvão é um berçário ainda apagado.
Onde fica no céu
Não é preciso procurar muito. Encontre o Cruzeiro do Sul, a pequena cruz de quatro estrelas brilhantes que domina o céu austral de março a agosto. O Saco de Carvão está colado ao Cruzeiro, no quadrante entre Acrux, a estrela da base da cruz, e Mimosa, a estrela do braço leste, estendendo-se na direção das duas estrelas brilhantes do Centauro, Alfa e Beta Centauri. A Caixa de Joias, um aglomerado aberto famoso, fica exatamente na borda da nuvem, ao lado de Mimosa.
Com declinação de cerca de −64°, a nuvem é profundamente austral. Ela cruza o meridiano por volta das 21h em abril e maio, e sua altura máxima cresce à medida que você vai para o sul do Brasil. Ao sul de aproximadamente 26° de latitude sul, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, ela é circumpolar e nunca se põe por completo.
Como observar
O Saco de Carvão é um objeto para olho nu. Binóculos e telescópios, ao ampliarem a imagem, perdem o contraste entre a mancha escura e a Via Láctea ao redor, e o efeito desaparece. Com os olhos, em céu rural e sem Lua, a nuvem salta à vista como um pedaço de céu sem estrelas, de forma irregular, logo abaixo e à esquerda da cruz quando ela está de pé no alto.
A chave é a adaptação ao escuro. Depois de 20 a 30 minutos longe de qualquer luz, a Via Láctea fica suficientemente brilhante para que o Saco de Carvão apareça como um vazio por contraste. Quanto mais escuro o céu, mais nítidas ficam as bordas da nuvem e mais detalhes surgem em seu interior, inclusive algumas estrelas fracas que estão à frente dela.
Binóculos têm um papel secundário: use-os para comparar a densidade de estrelas dentro e fora da nuvem, ou para visitar a Caixa de Joias na borda. Filtros de nebulosa não têm utilidade aqui, pois não há emissão a destacar.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
No Norte e no Nordeste o Saco de Carvão é mais baixo: culmina a cerca de 28° em Belém, 30° em Fortaleza e 39° em Salvador. Ainda assim é visível, porque a Via Láctea dessa região é muito brilhante. Procure um horizonte sul sem luzes de cidade e observe de abril a junho, por volta das 21h, quando o Cruzeiro está no ponto mais alto. A estação seca do meio do ano no interior do Nordeste ajuda bastante.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia a nuvem chega a cerca de 42° de altura; em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a cerca de 50°. O inverno seco do Centro-Oeste e do interior do Sudeste oferece céus transparentes, e basta se afastar algumas dezenas de quilômetros das grandes cidades para a Via Láctea e o Saco de Carvão aparecerem. A melhor janela vai de abril a julho no início da noite.
Sul
No Sul o Saco de Carvão é circumpolar e culmina a cerca de 56° em Porto Alegre e um pouco menos em Curitiba. É a região em que ele fica mais alto e em que pode ser visto em alguma altura em qualquer noite limpa do ano. As noites frias e secas entre frentes frias, de abril a julho, dão o melhor contraste. Em outubro e novembro ele passa baixo no sul no início da noite.
Limitações e cuidados
- O Saco de Carvão é totalmente dependente de um céu escuro: em cidades, onde a Via Láctea não aparece, a nuvem também não aparece, porque não há fundo brilhante para contrastar.
- A Lua, mesmo em quarto crescente, clareia o céu o suficiente para apagar o contraste; observe na semana da Lua nova.
- Entre outubro e dezembro o Cruzeiro do Sul está baixo ou abaixo do horizonte no início da noite em boa parte do Brasil.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
Os povos aborígenes da Austrália veem no Saco de Carvão a cabeça de uma emu, uma ave gigante cujo corpo se estende pelas faixas escuras da Via Láctea até o Escorpião. É uma constelação feita de escuridão, e não de estrelas.
Os incas chamavam a mancha de Yutu, nome de uma ave tímida parecida com uma perdiz, o inhambu, comum na América do Sul. Assim como os australianos, eles davam nomes às nuvens escuras da Via Láctea e as tratavam como figuras do céu.
A nuvem ganhou o apelido de Nuvem Negra de Magalhães por aparecer escura perto das duas Nuvens de Magalhães, as galáxias-satélite que os europeus notaram nas viagens do século XVI. A comparação é só visual: as Nuvens de Magalhães estão a mais de 150 mil anos-luz, e o Saco de Carvão, a apenas 600.
Termos de apoio
Nebulosa escura
Nuvem de gás frio e poeira tão densa que bloqueia a luz do que está atrás dela, aparecendo como uma silhueta contra o fundo estrelado. Nebulosas escuras são o estágio inicial da formação de estrelas: quando desabam, acendem-se e viram nebulosas de emissão. Saiba mais →
Adaptação ao escuro
Processo pelo qual a retina aumenta sua sensibilidade quando fica longe de luzes fortes. Leva de 20 a 30 minutos e é desfeito em segundos por uma lanterna ou tela de celular; use luz vermelha fraca se precisar enxergar algo. Saiba mais →
Circumpolar
Astro que nunca se põe para um observador, girando em torno do polo celeste sem tocar o horizonte. Depende da latitude: com declinação de −64°, o Saco de Carvão é circumpolar para quem está ao sul de cerca de 26° de latitude sul. Saiba mais →
Poluição luminosa
Clareamento do céu noturno causado pela iluminação artificial. Ela apaga primeiro os objetos de baixo contraste, como a Via Láctea e as nebulosas escuras, que dependem de um fundo brilhante para serem percebidas. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — Coalsack — tipo de objeto (nuvem escura), identificadores e coordenadas
- NASA Science — Hubble's Caldwell Catalog: Caldwell 99 — distância, tamanho de cerca de 100 anos-luz, tipo, visibilidade a olho nu e relato de Pinzón em 1499
- ESO — The Dark Coalsack Nebula Waits for New Stars to Light It Up (eso1539) — composição da poeira, estimativa de Mattila (1970), avermelhamento, apelido de Nuvem Negra de Magalhães e formação estelar futura
- ESO — Coalsack, Emu, Tinamou? (potw2112a) — cabeça da emu na astronomia aborígene australiana e Yutu na astronomia inca
Consultadas até 20/10/2026. Veja a política editorial.
Conteúdos relacionados

Cruzeiro do Sul (Crux)
A menor das 88 constelações é também a mais famosa do hemisfério sul. Está na bandeira do Brasil, aponta para o polo sul celeste e abriga o Saco de Carvão e a Caixa de Joias.

Acrux
A estrela mais brilhante do Cruzeiro do Sul é na verdade um sistema múltiplo de estrelas azuis quentes a cerca de 320 anos-luz. Um telescópio pequeno separa as duas principais.

Caixa de Joias (NGC 4755)
Um dos aglomerados abertos mais bonitos do céu, com apenas cerca de 16 milhões de anos. Supergigantes azuis cercam uma estrela vermelha, criando o contraste que inspirou o nome dado por John Herschel.

Centauro (Centaurus)
Nona maior constelação do céu, o Centauro cerca o Cruzeiro do Sul e guarda Alfa Centauri, o sistema estelar mais próximo do Sol, Ômega Centauri, o maior aglomerado globular da Via Láctea, e a galáxia Centaurus A.

Via Láctea
A faixa esbranquiçada que cruza o céu em noites escuras é o disco da nossa própria galáxia, visto de dentro. O Brasil tem o centro dela quase sobre a cabeça nas noites de inverno.

Poluição luminosa e a escala de Bortle
Mais de 80% da humanidade vive sob céus poluídos pela luz artificial, e no Brasil a proporção passa de 90%. Entenda o que isso apaga, como classificar o seu céu de 1 a 9 e o que fazer a respeito.