Caixa de Joias (NGC 4755)
Aglomerado jovem de estrelas azuis com um rubi no meio, junto ao Cruzeiro
Outros nomes e designações: NGC 4755, Aglomerado Kappa Crucis, Jewel Box, Caixa de Joias de Herschel, Caldwell 94, Lacaille II.12, Melotte 114
Melhor época no Brasil: Março a julho, no início da noite, quando o Cruzeiro do Sul está alto; do extremo Sul do país quase nunca se põe
Visão geral
A Caixa de Joias é o aglomerado que mais faz jus ao próprio nome. Em um telescópio pequeno, dezenas de estrelas azuis e brancas de brilhos variados aparecem espalhadas em um campo compacto, e bem no meio delas repousa uma estrela de cor vermelho-alaranjada intensa. O contraste é tão vivo que John Herschel, ao observá-lo da África do Sul na década de 1830, comparou o conjunto a um estojo de pedras preciosas de cores variadas. O apelido pegou.
Para o observador brasileiro, a Caixa de Joias tem a vantagem de ficar logo ao lado do Cruzeiro do Sul, a constelação mais conhecida do país. Basta apontar o binóculo para a estrela Mimosa (Beta Crucis) e procurar um pequeno agrupamento a um grau de distância.
Características
A Caixa de Joias é um aglomerado aberto extremamente jovem. O ESA/Hubble estima sua idade em cerca de 16 milhões de anos, uma fração do tempo de vida das Plêiades e menos de um milésimo da idade dos aglomerados globulares. Ela fica a cerca de 6.400 anos-luz, atrás do Saco de Carvão, a nuvem escura que se vê ao lado do Cruzeiro, e a paralaxe medida pelo Gaia, de 0,462 milissegundo de arco, aponta para uma distância um pouco maior, perto de 7 mil anos-luz.
Suas estrelas mais brilhantes são supergigantes azuis com 15 a 20 vezes a massa do Sol, segundo o ESA/Hubble. Estrelas assim vivem depressa e morrem jovens: em poucos milhões de anos esgotam o hidrogênio do núcleo e incham até se tornar supergigantes. A estrela que dá nome ao grupo, Kappa Crucis, é uma supergigante de tipo espectral B5 e magnitude 5,9, uma das três estrelas de magnitude 6 que dominam a vista.
A joia vermelha no centro é DU Crucis, uma supergigante de tipo M2 e magnitude 7,7, catalogada no SIMBAD como quarta estrela do aglomerado. Ela já passou pela fase azul e agora expandiu sua atmosfera, esfriando até um brilho avermelhado: é a mesma geração de estrelas vista em estágios diferentes de evolução.
A imagem do Hubble divulgada em 2009 foi a primeira de um aglomerado aberto a cobrir do ultravioleta distante ao infravermelho próximo. Ela revelou que, além das supergigantes, a Caixa de Joias contém centenas de estrelas fracas, as menores com menos da metade da massa do Sol.
Onde fica no céu
Encontre o Cruzeiro do Sul e identifique Mimosa (Beta Crucis), a estrela do braço esquerdo da cruz quando ela está de pé, a segunda mais brilhante da constelação. A Caixa de Joias fica cerca de 1° a sudeste de Mimosa, na direção de Alfa Centauri. A olho nu você talvez perceba um pontinho difuso; o binóculo mostra um grupinho compacto de estrelas.
Com declinação de −60°, o aglomerado culmina por volta das 21h em abril e permanece bem colocado até julho. Do Sul do Brasil ele mal se põe, passando rente ao horizonte sul em sua culminação inferior; do Norte, nasce e se põe como qualquer outro objeto, mas ainda sobe a uma altura razoável.
Como observar
A olho nu, em céu escuro, a Caixa de Joias aparece como uma estrela de quarta magnitude ligeiramente embaçada, difícil de distinguir de Mimosa, que a ofusca. Um binóculo 10×50 mostra um pequeno triângulo ou losango de quatro ou cinco estrelas sobre um fundo granulado, com indício da cor avermelhada da estrela central em noites muito limpas.
Em telescópio pequeno, de 80 mm a 100 mm, com 50 a 100 vezes de ampliação, o aglomerado revela seu desenho característico: uma fileira de três estrelas brilhantes em forma de A, outras dezenas ao redor e a supergigante vermelha no centro, cuja cor contrasta com o azul das vizinhas. É aqui que o nome faz sentido.
Em telescópio médio, de 150 mm a 250 mm, a vista ganha profundidade: estrelas de magnitude 10 a 12 preenchem o campo, e o contraste entre o vermelho e o azul fica mais evidente. Como o aglomerado tem só 10 minutos de arco, aceita ampliações altas sem perder o conjunto.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Em Belém e Fortaleza a Caixa de Joias culmina a cerca de 31° a 33° de altura acima do horizonte sul; em Salvador, a cerca de 43°. É altura suficiente para o binóculo e para telescópios pequenos, mas o aglomerado perde brilho e nitidez perto do horizonte. Procure um local com horizonte sul livre e observe entre abril e junho por volta das 21h. O fim da estação chuvosa, em junho e julho, traz as noites mais limpas no Norte.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia o aglomerado culmina a cerca de 45°; em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, a cerca de 53°. São boas alturas para telescópio, e as noites secas de outono e inverno do Centro-Oeste e do interior paulista e mineiro estão entre as melhores do ano para observar objetos de céu profundo. Espere o Cruzeiro do Sul ficar de pé, alto no céu, entre abril e junho.
Sul
No Sul do país a Caixa de Joias chega a cerca de 60° de altura em Porto Alegre e um pouco menos em Curitiba e Florianópolis. Em Porto Alegre ela é praticamente circumpolar: em sua passagem inferior toca o horizonte sul, de modo que pode ser procurada quase o ano todo, embora baixa fora do outono e inverno. As noites frias e secas de maio a julho, após frentes frias, oferecem as melhores imagens.
Limitações e cuidados
- Entre outubro e dezembro o Cruzeiro do Sul está baixo ou abaixo do horizonte no início da noite na maior parte do país; o aglomerado volta à madrugada em janeiro.
- A cor da estrela central só se destaca em instrumentos com abertura razoável e céu limpo; em binóculo pequeno ela parece apenas uma estrela um pouco mais fraca.
- Luar forte reduz o número de estrelas fracas visíveis e tira boa parte do efeito de caixa de joias.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
O aglomerado foi descoberto por Nicolas-Louis de Lacaille em 25 de março de 1752, durante sua expedição ao Cabo da Boa Esperança. Em seu catálogo de objetos nebulosos do sul ele aparece como Lacaille II.12.
O nome Caixa de Joias vem de John Herschel, que observou o aglomerado com um telescópio muito maior na década de 1830 e o descreveu como um estojo de pedras preciosas de cores variadas. Foi um dos primeiros registros de cor de estrelas em um aglomerado, numa época em que a fotografia ainda não existia.
A Caixa de Joias está na mesma direção do Saco de Carvão, a grande nebulosa escura ao lado do Cruzeiro do Sul, mas muito mais longe. O Saco de Carvão fica a algumas centenas de anos-luz; o aglomerado, a mais de 6 mil. A luz das estrelas da Caixa de Joias chega até nós passando ao lado dessa nuvem de poeira.
Termos de apoio
Aglomerado aberto
Grupo de dezenas a milhares de estrelas nascidas juntas da mesma nuvem, fracamente ligadas pela gravidade. A Caixa de Joias, com cerca de 16 milhões de anos, é um dos mais jovens conhecidos. Saiba mais →
Supergigante
Estrela muito massiva em estágio avançado de vida, com raio centenas de vezes maior que o do Sol. Supergigantes azuis são quentes e jovens; vermelhas, como DU Crucis, já expandiram e esfriaram sua atmosfera. Ambas acabam em supernova. Saiba mais →
Tipo espectral
Classificação das estrelas pela temperatura da superfície, na sequência O, B, A, F, G, K, M, do mais quente ao mais frio. As estrelas B da Caixa de Joias são azuis e têm dezenas de milhares de graus; a estrela M2 do centro tem cerca de 3.500 K e aparece vermelha. Saiba mais →
Minuto de arco
Unidade de tamanho angular: um grau tem 60 minutos de arco e a Lua cheia mede cerca de 31. Com 10 minutos de arco, a Caixa de Joias ocupa um terço do diâmetro lunar e cabe inteira em oculares de média ampliação. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — NGC 4755 (Jewel Box) — tipo de objeto, coordenadas, paralaxe de 0,462 mas, tamanho de 10,3′ e designações
- SEDS Messier Database — NGC 4755 (Kappa Crucis Cluster, Jewel Box) — magnitude 4,2, descoberta por Lacaille em 25 de março de 1752, estrelas mais brilhantes e proximidade do Saco de Carvão
- ESA/Hubble — A Hubble gem: the Jewel Box (heic0913 e imagem heic0913a) — distância de 6.400 anos-luz, idade de 16 milhões de anos, massas das estrelas, apelido de John Herschel, primeira imagem do UV distante ao infravermelho próximo
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — kap Cru (HD 111973) e V* DU Cru — Kappa Crucis: B5I, V = 5,94; DU Crucis: supergigante vermelha M2-Iab, V = 7,66, membro NGC 4755 4
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