Antares
O coração vermelho do Escorpião
Outros nomes e designações: Alfa Scorpii, α Sco, HD 148478, HIP 80763, Coração do Escorpião
Melhor época no Brasil: Maio a setembro, no início da noite; culmina no fim de junho, passando pelo zênite no Sul e no Sudeste
Visão geral
Antares é a estrela vermelha que marca o coração do Escorpião e uma das visões mais bonitas do céu de inverno brasileiro. Quando o Escorpião sobe a leste nas noites de maio e junho, Antares é o ponto alaranjado que destaca a figura do animal, com a cauda curva estendendo-se em direção ao centro da Via Láctea. Para boa parte do Brasil ela passa quase exatamente sobre a cabeça.
O nome vem do grego e significa "rival de Ares", o deus da guerra correspondente a Marte: a cor e o brilho de Antares lembram tanto o planeta vermelho que os antigos a viam como sua concorrente. Hoje sabemos que ela é uma supergigante vermelha, uma das maiores estrelas visíveis a olho nu, no fim de uma vida curta e intensa.
Características
Antares é uma supergigante de tipo espectral M1.5 Iab, com temperatura superficial de cerca de 3.660 K. Medidas interferométricas feitas com o VLTI, do ESO, determinaram um diâmetro angular de 37,4 milésimos de segundo de arco, o maior de quase todas as estrelas depois do Sol. Combinado com a distância do Hipparcos, isso dá um raio de cerca de 680 raios solares, ou 3,2 unidades astronômicas: no lugar do Sol, Antares se estenderia além da órbita de Marte e chegaria ao cinturão de asteroides.
A luminosidade total de Antares é de cerca de 76 mil vezes a do Sol, a maior parte no infravermelho. Sua massa é estimada entre 10 e 20 massas solares por comparação com modelos evolutivos; a estrela teria nascido com cerca de 15 massas solares e já perdeu parte delas em ventos estelares. Como Betelgeuse, ela deve terminar como supernova.
Em 2017, uma equipe liderada por Keiichi Ohnaka usou o VLTI para construir a melhor imagem da superfície e da atmosfera de uma estrela além do Sol e o primeiro mapa de velocidades do gás na atmosfera de outra estrela. O resultado mostrou um gás turbulento e pouco denso estendendo-se muito além do que os modelos previam, com movimentos que não parecem vir da convecção. É uma pista importante para entender como as supergigantes perdem tanta massa antes de morrer.
Antares tem uma companheira, Antares B, uma estrela quente de tipo B2.5 V com magnitude próxima de 5,2, que orbita a supergigante a poucos segundos de arco de distância. Ao lado do laranja intenso da principal, ela costuma parecer esverdeada, um efeito de contraste e não uma cor real.
Onde fica no céu
Antares é fácil de encontrar: nas noites de junho e julho, olhe para o alto do céu, um pouco para o leste no início da noite, e procure a estrela alaranjada mais brilhante. A partir dela, a curva do Escorpião se estende para o sul e para o leste, terminando nas duas estrelas do ferrão, perto da região mais densa da Via Láctea, em Sagitário.
Com declinação de cerca de −26°, Antares passa pelo zênite de cidades como Curitiba, Joinville e Londrina, e fica a mais de 60° de altura em qualquer lugar do Brasil. Ela também está perto da eclíptica, e por isso a Lua e os planetas passam com frequência ao seu lado.
Como observar
A olho nu, Antares é um alvo trivial e um excelente exemplo de estrela vermelha. Em binóculos, sua cor fica mais evidente e o campo ao redor, rico em estrelas e com o aglomerado globular M4 a oeste, é um dos mais bonitos do céu.
A companheira Antares B é um desafio clássico. Ela está muito perto da principal e é cerca de 50 vezes mais fraca; exige um telescópio de pelo menos 150 mm a 200 mm, aumento alto e uma noite de atmosfera muito estável. Observadores experientes a descrevem como um ponto esverdeado colado ao brilho alaranjado de Antares.
A partir do Brasil
Norte e Nordeste
Em Belém e Fortaleza, Antares sobe a cerca de 65° a 67° de altura, na direção sul; em Salvador chega a cerca de 77°. De maio a setembro ela está alta no início da noite, e o período coincide com o inverno seco da maior parte da região, o que favorece noites limpas. É uma das melhores estrelas para o Norte e o Nordeste.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Brasília e Goiânia, Antares alcança cerca de 79° de altura; em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, cerca de 87°, praticamente no zênite. Culmina por volta das 21h no fim de junho e fica bem posicionada de maio a setembro. O inverno seco do Centro-Oeste e do Sudeste é ideal para tentar a companheira ao telescópio.
Sul
No Sul, Antares passa pelo zênite de Curitiba e Joinville e chega a cerca de 86° em Porto Alegre. Como a estrela fica diretamente sobre a cabeça, a turbulência atmosférica é mínima, o que ajuda muito na observação de Antares B. Maio a setembro são os melhores meses; nas noites frias e secas de julho, a Via Láctea ao redor é espetacular.
Limitações e cuidados
- Entre novembro e janeiro, Antares está perto do Sol e não pode ser observada no início da noite; ela reaparece de madrugada em fevereiro.
- Antares B só é visível em telescópios de abertura média, com óptica bem alinhada e atmosfera estável; não é alvo para binóculos ou lunetas pequenas.
- O brilho de Antares varia alguns décimos de magnitude de forma irregular; não se preocupe se ela parecer mais ou menos brilhante que o valor da ficha.
Leia também: O céu visto do Brasil e Planejar uma noite de observação.
Curiosidades
A luz de Antares que você vê hoje saiu da estrela há cerca de 550 anos, por volta do fim do século XV, antes da chegada dos portugueses ao Brasil. Dada a incerteza da distância, essa data pode variar em um século para mais ou para menos.
Por estar perto da eclíptica, Antares é uma das poucas estrelas de primeira grandeza ocultadas pela Lua com regularidade. Durante esses eventos, a estrela desaparece em uma fração de segundo atrás do limbo lunar, um espetáculo acessível a binóculos e telescópios pequenos.
A imagem de 2017 do VLTI mostrou que Antares não é uma esfera lisa: sua atmosfera é irregular e cheia de bolhas de gás em movimento, estendendo-se a uma distância muito maior que o raio da própria estrela.
Marte passa perto de Antares a cada dois anos aproximadamente, e a comparação dos dois pontos vermelhos no mesmo campo de visão é uma das observações mais simples e didáticas para iniciantes.
Termos de apoio
Supergigante vermelha
Estágio final de estrelas de grande massa, em que elas incham a centenas de raios solares e a superfície esfria para menos de 4.000 K. Antares e Betelgeuse são as supergigantes vermelhas mais brilhantes do céu. Saiba mais →
Diâmetro angular
Tamanho aparente de um objeto no céu, medido em ângulo. O de Antares, 37 milésimos de segundo de arco, é cerca de 50 mil vezes menor que o da Lua cheia; só interferômetros conseguem resolvê-lo. Saiba mais →
Eclíptica
Trajetória aparente do Sol no céu ao longo do ano, perto da qual se movem a Lua e os planetas. Antares fica a poucos graus da eclíptica, por isso é frequentemente visitada pela Lua e por Marte. Saiba mais →
Interferometria
Técnica que combina a luz de vários telescópios separados para obter a resolução de um telescópio gigante. Foi assim que o VLTI mediu o tamanho de Antares e mapeou sua atmosfera. Saiba mais →
Fontes consultadas
- SIMBAD Astronomical Database (CDS) — Antares (alf Sco) e alf Sco B — designações, tipos espectrais, magnitudes, paralaxe e coordenadas das duas componentes
- Ohnaka, K. et al. (2013). High spectral resolution imaging of the dynamical atmosphere of the red supergiant Antares in the CO first overtone lines with VLTI/AMBER. Astronomy & Astrophysics, 555, A24 — diâmetro angular, raio, temperatura efetiva, luminosidade e massa
- ESO — Best Ever Image of a Star's Surface and Atmosphere (eso1726) — mapa de velocidades da atmosfera, diâmetro de cerca de 700 vezes o do Sol e massas atual e inicial
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Escorpião (Scorpius)
A supergigante vermelha Antares marca o coração de um escorpião que se estende por 500 graus quadrados de Via Láctea. Do Brasil ele passa quase a pino nas noites de inverno, cheio de aglomerados visíveis a olho nu.

Betelgeuse
Supergigante vermelha de Órion, centenas de vezes maior que o Sol e candidata a supernova. Em 2019–2020 escureceu de forma dramática. Fácil de ver a olho nu no verão brasileiro.

Sagitário (Sagittarius)
Na direção do Sagitário fica o centro da Via Láctea, e por isso nenhuma constelação concentra tantos aglomerados e nebulosas visíveis em binóculos. Suas estrelas formam o asterismo do Bule de Chá, alto no céu de inverno do Brasil.

Aglomerado de Ptolomeu (M7)
Mancha brilhante a olho nu junto ao ferrão do Escorpião, descrita por Ptolomeu em 130 d.C. Cerca de 80 estrelas a quase mil anos-luz, espalhadas por mais de um grau de céu: um alvo perfeito para binóculo.
Aglomerado Borboleta (M6)
Cerca de 80 estrelas a 1.600 anos-luz dispostas como uma borboleta de asas abertas, com a gigante alaranjada BM Scorpii em uma das pontas. Vizinho do M7, é um dos melhores alvos de binóculo do inverno brasileiro.

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